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Missão dada é missão cumprida!

(Reprodução)

Por Caio Gottlieb*




Um dos templos máximos da cultura brasileira, o Theatro Municipal de São Paulo parece ter decidido experimentar um novo gênero artístico: o espetáculo ideológico. Não no sentido metafórico, mas literal, como revela Desirée Peñalba em chocante artigo publicado na Gazeta do Povo.

O palco que já recebeu montagens históricas, maestros lendários e obras-primas imortais virou laboratório escancarado de militância com pretensão estética — e resultados que fariam qualquer compositor clássico pedir que fechassem a cortina antes da primeira nota.

A tempestade estourou quando veio à tona um vídeo de um gestor da Sustenidos — a Organização Social encarregada da administração do teatro — comemorando o assassinato de Charlie Kirk, ativista americano de direita. Sim, celebrando uma morte. E celebrando porque era “do lado certo”. O prefeito Ricardo Nunes bem que tentou demiti-lo, mas a entidade terceirizada bateu o pé: o funcionário militante permaneceu intocável. Blindado.

A ironia fica ainda mais aguda quando lembramos do tratamento dispensado ao contrabaixista Brian Fountain. Ele não celebrou morte alguma. Não atacou ninguém. Apenas fez críticas públicas à gestão do Theatro Municipal, lamentando a deterioração artística e a substituição da música clássica por encenações politizadas. Por esse crime gravíssimo — defender a ópera, o repertório e a tradição — foi suspenso. Sem salário e sem direito de defesa.

A mensagem é cristalina: quem festeja o assassinato de um desafeto político é protegido; quem ousa discordar da guinada ideológica é punido. A transformação do teatro numa trincheira tem sua própria lógica moral — tão coerente quanto devastadora para a arte.

A reação dos músicos não tardou.

Em uma récita de Macbeth, subiram ao palco com as mãos tapando a própria boca, num protesto silencioso e poderoso.

Denunciaram assédio, intimidações e arbitrariedades. Reivindicaram o básico: ética, competência e a liberdade para trabalhar sem ser vigiados por comissários culturais. Foram aplaudidos de pé. A plateia, atônita há meses, reconheceu ali algo raro: a verdade.

Essa verdade se expressa no que os artistas descrevem como um processo contínuo de desvirtuamento.

Desde que a Sustenidos assumiu o teatro, acumulam-se episódios que beiram o surreal.

Em Café, de Felipe Senna, militantes do MST foram colocados em cena numa “ocupação simbólica” aplaudida pelos organizadores como um marco político — não artístico.

Em Il Guarany, de Carlos Gomes, índios guaranis passaram a interromper a orquestra com cantos estranhos à obra. Um tapa na partitura, outro na memória de José de Alencar.

A montagem de Nabucco levou esse experimentalismo militante ao paroxismo. A história dos escravos judeus foi simplesmente reescrita para transformá-los em palestinos, com direito a bandeiras e gritos de “Palestina livre!”. Trocar um povo por outro, apagar o sentido de uma ópera inteira e instrumentalizar Verdi para propaganda política não é adaptação: é falsificação. Uma operação ideológica tão grotesca que faria o próprio Verdi levantar do túmulo para pedir reembolso.

E Don Giovanni, de Mozart, tampouco escapou: textos substituídos por falas em português, slogans de “sem anistia” e até músicas de Martinho da Vila e Anitta misturadas à partitura. O constrangimento dos músicos era visível; o espanto da plateia, inevitável.

Nada disso cai do céu. A Fundação Theatro Municipal, criada em 2006 para proteger o teatro de interferências políticas, tornou-se justamente o canal que permitiu a infiltração ideológica. A autonomia administrativa, pensada para dar profissionalismo e estabilidade, hoje funciona como barreira para impedir que o poder público recupere o controle do próprio patrimônio cultural.

O resultado é um teatro ocupado — estética, institucional e moralmente.

Um espaço que deveria exaltar o universal se rende ao panfleto. Onde o clássico é reescrito, o repertório é distorcido e a obra-prima vira pretexto para catecismo de plateia.

Combatida duramente pelo governo Bolsonaro, a ocupação ideológica retornou com força total no terceiro mandato de Lula, impulsionada pela volta da esquerda ao poder e encorajada pela convicção de que pode tudo — inclusive transformar óperas imortais em manifestos descartáveis.

No fim, é isso que dói: um teatro histórico aparelhado pela militância e reduzido a palanque.

Talentos saindo pelos fundos, ideólogos entrando pelas laterais, e o público assistindo, entre incrédulo e impotente, ao desmonte de um dos grandes símbolos da cultura nacional.

O Municipal não é um caso isolado.

É apenas o exemplo mais ruidoso de uma praga que se espalha por universidades, departamentos acadêmicos, escolas do ensino fundamental, centros culturais, exposições, shows e festivais, sempre financiada com dinheiro público — nosso dinheiro.

Como já ensinava Antonio Gramsci, o filósofo marxista italiano que deixou vasta doutrinação para a implantação do comunismo: “A conquista do poder cultural precede a tomada do poder político, e isto se consegue mediante a ação concertada dos intelectuais chamados orgânicos infiltrados em todos os meios de comunicação, de expressão, artísticos e universitários.”

O Brasil, como se vê, vem cumprindo a cartilha ao pé da letra.






*Jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.






Fonte Extra

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