Por Caio Gottlieb*
A história que levou Jair Bolsonaro à prisão preventiva decretada neste último fim de semana não começa agora — e tampouco no dia em que ele assumiu a Presidência da República.
Suas raízes remontam aos anos de caserna, quando um jovem capitão inquieto, movido por causas que julgava justas e pela defesa intransigente dos direitos dos militares, ultrapassou limites disciplinares e enfrentou punições severas.
O que parecia o encerramento de uma carreira tornou-se, paradoxalmente, o ponto de partida: dali nascia o político que, décadas depois, catalisaria a maior reorganização ideológica da direita brasileira desde a redemocratização.
Na Câmara dos Deputados, Bolsonaro permaneceu por quase três décadas no baixo clero, invisível para o establishment, ignorado pela elite política e frequentemente tratado como personagem folclórico.
Enquanto o sistema o subestimava, ele se conectava com outro Brasil — conservador, majoritário, silencioso, órfão de representação.
Foi ali, no terreno negligenciado da política, que sua voz encontrou eco.
De forma quase imperceptível aos poderosos, começou a dar forma e discurso a uma direita dispersa, reprimida, que há muito buscava um fio condutor.
A partir de 2016, aquilo que se movia à margem irrompeu de modo avassalador.
Em meio ao esgotamento do duopólio PT–PSDB, Bolsonaro emergiu como um corpo estranho que desorganizava o tabuleiro e rompia pactos tácitos.
Cada aparição sua inflamava multidões. Cada ataque que recebia o convertia em símbolo de resistência. Nascia ali uma liderança orgânica, espontânea, visceral — a síntese de um país que não encontrava representação em nenhum dos atores tradicionais.
Então veio o atentado. Um atentado brutal, inesperado, até hoje inexplicado, jamais investigado com rigor, cercado de lacunas que alimentam suspeitas legítimas de que algo maior poderia estar por trás
A facada não apenas o tirou das ruas durante a campanha: deixou sequelas permanentes, exigiu inúmeras cirurgias e comprometeu sua saúde física e emocional.
Mesmo assim, afastado do contato público e debilitado, Bolsonaro venceu. Venceu contra todas as probabilidades. E venceu tarde — tarde demais para um sistema que, só então, percebeu que havia subestimado um fenômeno político que crescia há anos longe dos olhos das cúpulas partidárias.
Sua vitória desencadeou uma reação institucional que rapidamente se tornou profunda. A descondenação de Lula por questões estritamente formais — sem absolvição, sem revisão do mérito, sem reconhecimento de inocência — devolveu o petista ao tabuleiro como único nome capaz de enfrentá-lo em 2022.
Era o movimento decisivo da engrenagem que começava a se fechar.

Alexandre de Moraes (Reprodução)
A relação entre Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal deteriorou-se com velocidade.
O presidente, com razão, acusava a Corte de interferir no Executivo e transbordar os limites constitcionais de sua competência. O STF, especialmente sob o protagonismo crescente de Alexandre de Moraes, ampliou poderes, instaurou inquéritos atípicos, concentrou funções de investigação, acusação e julgamento.
A proibição ilegal da nomeação de Alexandre Ramagem para dirigir a Polícia Federal simbolizou a ruptura definitiva entre os dois — e inaugurou um ciclo de enfrentamento que ultrapassaria o mandato presidencial.
Com o tempo, a atuação expansiva da Corte não se limitou ao Executivo: alcançou o Legislativo, interferiu em pautas, condicionou votações e passou a ocupar um espaço político que a Constituição nunca lhe atribuiu.
A crítica, antes sussurrada, passou a ser declarada: multiplicam-se editoriais da imprensa tradicional afirmando que o STF precisa “retomar os trilhos constitucionais”. A inquietação institucional deixou de ser subterrânea — tornou-se pública.
Nesse clima, a campanha de 2022 se desenrolou sob forte desequilíbrio.
Lula circulava com naturalidade, enquanto Bolsonaro enfrentava restrições sucessivas: discursos removidos, atos proibidos, mobilizações limitadas por decisões judiciais.
Pairavam, além disso, inúmeras dúvidas e questionamentos sobre a lisura do processo eleitoral — uma percepção difusa, porém real, que marcou o ambiente político.
Derrotado, Bolsonaro deixou o Planalto carregando seus erros, mas também o peso de um cerco institucional que, para muitos observadores, jamais permitiu igualdade de condições na disputa.
Veio então o capítulo seguinte: o suposto plano golpista. Um golpe sem tanques, sem tropas, sem cadeia de comando, sem qualquer sinal concreto de articulação militar. O que houve foram hordas de vândalos — indignados com o retorno ao poder de um grupo político condenado por corrupção — e cujos atos violentos no 8 de janeiro, embora indefensáveis, não configuram golpe de Estado sob nenhum critério técnico.
A resposta judicial, porém, seguiu outra lógica: penas duríssimas, inéditas, muito superiores às aplicadas a criminosos violentos que frequentemente deixam a prisão em poucos meses.
A situação de Bolsonaro deteriorou-se rapidamente. Condenações sucessivas, decisões questionadas por juristas nacionais e internacionais, críticas ao acúmulo extraordinário de poderes nas mãos de um único ministro, e um ambiente judicial que avança para um modelo de excepcionalidade permanente.
O ex-presidente, já fragilizado pelas sequelas da facada, emocionalmente exaurido e vivendo sob a tensão constante de um cerco que nunca afrouxou, passou à prisão domiciliar — apenas o prelúdio do desfecho atual.
Com a prisão preventiva decretada agora, o quadro revela sua face inteira: a punição mais dura recai sobre um homem de mais de 70 anos, marcado por cirurgias, limitações físicas e desgaste emocional profundo, alvo de uma perseguição implacável conduzida por Alexandre de Moraes e sustentada por uma Corte que, há muito, ultrapassou os limites previstos pela Constituição.
Não bastava derrotá-lo nas urnas. Era preciso removê-lo do jogo político, neutralizar sua influência e impedir qualquer possibilidade de retorno.
O país assiste, hoje, a um ambiente em que liberdades fundamentais — especialmente a de expressão, mais duramente aplicada à direita — são restringidas, policiadas ou punidas.
Um ambiente em que o Judiciário se autoatribui poderes extraordinários, interfere nos demais Poderes, redefine o equilíbrio institucional e governa o país, na prática, em condomínio com o partido que voltou ao poder.
É a normalização do excepcional, o prolongamento de uma lógica de intervenção que já não encontra freios.
De resto, sobra apenas constatar o óbvio: o desfecho de hoje não é fruto do acaso, mas o ponto final cuidadosamente preparado de um drama político que, dia após dia, foi conduzido para confirmar aquilo que, desde o início, estava escrito — o fim anunciado de uma liderança que o sistema jamais tolerou.
Bolsonaro pode até estar sendo afastado, ao menos temporariamente, da cena pública e política por decisões que ultrapassam as fronteiras democráticas e rasgam princípios fundamentais.
Mas o movimento que ele ajudou a restaurar, a energia política que despertou e a corrente ideológica que consolidou não apenas sobrevivem à sua ausência — permanecem vivos, pulsantes e certamente mais fortes do que nunca.

*Jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.
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