Por Elder Boff*
Não é sobre o famoso filme que tem mais do que uma versão. O mais recente, fala de redenção, autoconhecimento e as futilidades da vida, com jornadas pessoais profundas, como a busca por justiça de um homem após uma tragédia na Índia, ou o choque de realidades e as consequências devastadoras do idealismo, mostrando a fragilidade humana frente à natureza e ao mundo.
Fui presidente da associação dos vereadores do oeste do Paraná no começo deste milênio, entre 2001 e 2002 e como tal, tinha a prerrogativa, pra não dizer a obrigação, de defender a classe legislativa municipal, tão definhada ao longo dos anos.
Bem antigamente quando o vereador funcionava como um verdadeiro conselheiro na comunidade, não tinha vale-alimentação… Por sinal, não tinha nem salário ou subsídio como apelidaram o soldo legislativo.
E aquele vereador, quando cruzava na rua, os senhores retiravam-lhe o chapéu em sinal de respeito. Com o tempo, a figura do camarista foi caindo em desgraça e durante aquele período citado (2001-2002) à frente do legislativo regional com quase 500 vereadores sob nossa responsabilidade corporativa, tentamos recolocar a importância da classe no contexto na sociedade. Tarefa árdua, quando os próprios não se ajudavam.
Se você perguntar ao Google sobre o tema, passados 20 anos, ele vai responder o seguinte: Uma pesquisa mencionada em 2022 apontou que menos de 28% da população aprova o trabalho da Câmara de Vereadores em uma localidade específica, o que reflete uma tendência comum de ceticismo em relação ao poder legislativo municipal.
Em resumo, a figura do vereador enfrenta desafios significativos de reconhecimento e aprovação popular no Brasil, com a maioria das pesquisas apontando para uma percepção de distanciamento ou ineficácia do trabalho realizado.
No apagar das luzes de 2025, a Câmara de Santa Helena em nada contribuiu para que esta realidade fosse modificada, instituindo um vale-alimentação de exagerados 2 mil reais por mês. Pesquisei e encontrei inúmeras casas legislativas do país afora, que têm este adendo, mas poucas, raríssimas, com valor tão alto. Cascavel deu polêmica porque instituíram um vale de 484 reais.
Um vereador de São Paulo, a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo, dá 2.033,93 mensais de vale-refeição, Belo Horizonte, com muito bate-boca, aprovou aquele deve ser o mais alto do país: quase 2.400 reais.
E querer justificar isso, alegando que do salário do vereador não sobra nada e às vezes dá até prejuízo, é mais uma comprovação de que esteve, está e deve continuar tudo errado.
Para se manter na mídia e garantir a próxima eleição ou reeleição, não falha em festa, compra todas as rifas, paga cerveja nos bailes e botecos, quando não atocha a carteira com talonários de luz e água.
Os vereadores daqui e de acolá, são reflexo de uma sociedade que raramente escolhe por capacidade, por conhecimento. A maioria dos eleitores, isso é forte, é corrupta. Se corrompe antes das eleições e depois corrompe o eleito.
Os certinhos, os hiper honestos, levantar-se-ão e bradarão, ou ficarão quietos, sem comentar. Mas, a absoluta maioria, que sabe que já se corrompeu ou foi corrompida, vai ficar quieta.
Há de se fazer justiça, pois o que eu defendia há mais de 20 anos, mantenho até hoje. O vereador é o verdadeiro para-choques do povo. Dentro da escala hierárquica da política, é praticamente o único que está no contato direto com a população.
O cidadão não bate, ou raramente bate na porta do prefeito, do deputado estadual, federal, muito menos do senador, governador e jamais na do presidente. Mas do vereador sim, além de bater, é capaz até de chutar a porta.
Outro detalhe, que pode passar desapercebido nesta discussão toda: Se os vereadores se sujeitam a ter este auto benefício, pode ser um sinal de que não estejam levando vantagem do cargo para incrementar seus salários com outros métodos, ainda menos ortodoxos.

*Articulista e editor-chefe do Fonte Extra







