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Master: o assalto do banco

Por Caio Gottlieb*

Quando o escândalo do Banco Master explodiu, a estimativa inicial soava quase modesta: meia dúzia de fundos de previdência estaduais e municipais teriam caído na armadilha dos títulos podres e das promessas douradas de Daniel Vorcaro.

Era possível, então, imaginar o episódio como um deslize pontual, uma distração coletiva de poucos gestores deslumbrados. Mas a realidade, como costuma acontecer nesses casos brasileiros, mostrou-se infinitamente mais sórdida: levantamento da Folha de S.Paulo, com dados da Comissão de Valores Mobiliários e do Ministério da Previdência, revela que cerca de cem institutos de previdência — três estaduais e 98 municipais — apostaram as economias de seus segurados no cassino financeiro comandado por um banco de terceira linha.

E os números são ainda mais assustadores quando se observa a engenharia completa da operação.

Dezoito órgãos estaduais e municipais compraram diretamente R$ 1,8 bilhão em letras financeiras do Master — papéis sem garantia alguma, pura promessa impressa.

Mas a teia de Vorcaro se estendia muito além: centenas de institutos tornaram-se investidores indiretos do banco por meio de cinco fundos conectados à instituição, que direcionaram recursos para imóveis, empresas com participação da família Vorcaro e ações da Ambipar, companhia que entrou em colapso financeiro e deixou de honrar compromissos com fornecedores e credores.

A pergunta que não quer calar é simples e incômoda: como tantas instituições, espalhadas por estados e municípios de Norte a Sul, tomaram simultaneamente a mesma decisão temerária?

A resposta oficial aponta para a sedução dos juros estratosféricos.

Enquanto bancos tradicionais e sólidos ofereciam rendimentos em torno de 105% a 110% do CDI, o Master prometia — pasmem — 140% do CDI. Uma oferta irrecusável para olhos que brilham facilmente diante de planilhas coloridas e projeções milagrosas.

Mas reduzir essa tragédia coletiva à simples ganância institucional seria ingenuidade ou má-fé. Sabe-se — e corre na boca pequena dos corredores do mercado financeiro — que existe uma prática estrutural nessas transações suspeitas: a “comissão” paga por fora aos diretores que alocam recursos vultosos em bancos de risco.

É a velha e conhecida retribuição em envelope pardo, o prêmio pela coragem de arriscar o dinheiro alheio em troca de ganhos pessoais imediatos.

Não se trata aqui de afirmar categoricamente casos individuais, mas de reconhecer um padrão que atravessa décadas de gestão pública no Brasil: a privatização dos lucros e a socialização dos prejuízos.

Cem fundos de previdência comprometidos significam milhares, milhões, de servidores públicos estaduais e municipais com suas aposentadorias e pensões penduradas num fio.

Professores, médicos, agentes de saúde, guardas municipais: gente que trabalhou uma vida inteira confiando que seus recursos estariam protegidos, multiplicando-se com segurança e prudência. Em vez disso, descobrem agora que seu futuro foi jogado numa roleta comandada por gestores irresponsáveis e, ao que tudo indica, recompensados por sua temeridade.

O mais grave, porém, não é apenas o que já aconteceu, mas o que se desenha no horizonte: a tentativa sistemática de varrer o caso para debaixo do tapete institucional. Já vimos movimentos no STF, no Congresso e sinalizações no governo tentando salvar o banqueiro Daniel Vorcaro do destino que merece.

É o Brasil da impunidade em sua versão financeira, onde quem rouba milhões negocia acordos e quem furta pão vai para a cadeia.

A sociedade precisa manter o escândalo do Banco Master sob os holofotes. Não pode haver anistia branca, não pode haver perdão tácito, não pode haver esquecimento conveniente.

Cem fundos de previdência comprometidos, R$ 1,8 bilhão em papéis sem garantia, recursos desviados para empresas falidas — tudo isso não são acidentes estatísticos, mas sintomas de um sistema corrompido onde diretores públicos tratam recursos de terceiros como fichas de cassino, sabendo que, no pior cenário, quem paga a conta são sempre os mesmos: os trabalhadores, os aposentados, os cidadãos comuns que jamais receberam propina alguma por apostar no próprio país.​​​​​​​​​​​​​​​​

Resta saber se haverá lei e Justiça à altura do estrago — ou apenas mais um capítulo de impunidade para arquivar.


*Caio Gottlieb, jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.

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