O colunista Caio Gottlieb* nos brinda com uma série de abordagens interessantes para começar a semana por dentro dos principais assuntos. Confira:
Escala da incoerência
O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) transformou-se em uma das vozes mais entusiasmadas da campanha pelo fim da escala 6×1.
Nos discursos, o parlamentar aparece como defensor incansável da dignidade do trabalhador, do descanso semanal e de relações laborais mais humanas.
O problema é que a internet tem memória, os arquivos têm paciência e a Justiça do Trabalho costuma registrar fatos com mais objetividade do que os discursos políticos.
Reportagem da Gazeta do Povo resgatou condenações envolvendo um posto de combustíveis do qual Pimenta foi sócio. Entre as irregularidades apontadas estavam jornadas excessivas e problemas relacionados ao cumprimento da legislação trabalhista.
O episódio não invalida o debate sobre a escala 6×1, que é legítimo e necessário. Mas lança luz sobre uma velha característica da política brasileira: a facilidade com que alguns personagens defendem em público aquilo que não conseguiram praticar na esfera privada.
No Brasil, a legislação trabalhista é extensa, detalhada e rigorosa. Pena que ainda não exista uma norma específica para proteger a coerência.
Paraná sem fronteiras
Enquanto Brasília segue mergulhada em crises políticas, disputas ideológicas, conflitos institucionais e discussões sobre aumento de impostos, o setor produtivo paranaense continua fazendo aquilo que sustenta a economia: produzindo, vendendo e abrindo mercados.
As exportações do Paraná alcançaram US$ 9,7 bilhões entre janeiro e maio deste ano, crescimento de 3,7% em relação ao mesmo período de 2025. O dado, levantado pelo IPARDES a partir de números do Ministério do Desenvolvimento, vai além de uma simples estatística. Ele mostra um Estado que continua competitivo mesmo em um cenário internacional marcado por guerras, tensões geopolíticas e incertezas comerciais.
Chama atenção o desempenho de produtos de maior valor agregado. As exportações de veículos de carga cresceram mais de 30%, enquanto as máquinas de terraplanagem avançaram mais de 50%. O agronegócio também segue puxando a locomotiva, com destaque para soja, óleo de soja, celulose e carne de frango.
Outro aspecto importante é a diversificação dos mercados compradores. A dependência dos cinco principais destinos diminuiu, reduzindo a exposição do Paraná às oscilações de poucos parceiros comerciais.
Em outras palavras, enquanto muitos discutem teorias sobre desenvolvimento, o Paraná continua praticando desenvolvimento na vida real.
A voz do Kremlin
A Guerra Fria acabou. Pelo menos oficialmente.
Na prática, as grandes potências continuam disputando influência política, cultural e ideológica em diversas partes do mundo. A diferença é que os tanques deram lugar aos algoritmos, às redes sociais, aos institutos culturais e aos meios de comunicação.
Reportagem da revista Crusoé revelou que uma ONG ligada a estruturas financiadas por organizações próximas ao governo russo adquiriu uma emissora de rádio no Rio de Janeiro. O conteúdo difundido pela emissora reproduz narrativas alinhadas aos interesses estratégicos de Moscou.
Não se trata de um fenômeno exclusivamente brasileiro. Os serviços de inteligência de diversos países já apontaram tentativas de influência russa em eleições, partidos políticos, movimentos sociais e meios de comunicação ao redor do mundo.
Putin sabe que conquistar território custa caro. Conquistar narrativas costuma ser mais barato e, muitas vezes, mais eficiente.
O ano começa em junho
O brasileiro trabalhou até o dia 30 de maio apenas para pagar impostos.
A conta considera tributos federais, estaduais e municipais que incidem sobre renda, patrimônio, consumo e serviços. Somente a partir de junho, simbolicamente, o contribuinte começa a trabalhar para si mesmo.
O dado impressiona, mas talvez não tanto quanto a contrapartida recebida. Afinal, mesmo com uma das maiores cargas tributárias entre os países emergentes, o Brasil continua convivendo com estradas precárias, hospitais superlotados, insegurança crescente e uma máquina pública que parece exigir cada vez mais recursos.
O discurso oficial costuma afirmar que faltam receitas. O problema é que a arrecadação cresce há décadas.
Talvez esteja na hora de discutir não apenas quanto o governo arrecada, mas o que efetivamente entrega em troca.
O novelo dos escândalos
Há histórias que parecem independentes até que alguém começa a puxar o fio.
Uma investigação envolvendo o fundador da gestora de investimentos Reag (envolvida em transações com facções criminosas e nas fraudes do banco Master) trouxe à tona suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas ao escândalo da compra de respiradores pelo Consórcio Nordeste durante a pandemia.
O caso, que respinga no ex-governador da Bahia Rui Costa, que chefiou a Casa Civil de Lula até abril, remete a um dos episódios mais controversos daquele período, quando milhões de reais foram pagos antecipadamente por equipamentos que jamais chegaram aos destinatários.
O que chama atenção não é apenas a investigação em si, mas a forma como determinados personagens e estruturas reaparecem em diferentes capítulos da vida pública brasileira.
Um escândalo financeiro aqui, uma investigação acolá, uma operação mais adiante e, de repente, os mesmos nomes voltam a frequentar as manchetes.
O Brasil possui uma impressionante capacidade de reciclagem. Infelizmente, nem sempre ela se limita ao lixo.
Amor sem certidão de nascimento
Durante décadas, a sociedade enxergou com absoluta naturalidade relacionamentos entre homens mais velhos e mulheres mais jovens.
Quando a situação se invertia, porém, surgiam olhares tortos, piadas previsíveis e julgamentos automáticos.
Essa lógica está mudando.
Uma reportagem do Brazil Journal mostra o crescimento dos relacionamentos entre mulheres maduras e homens mais jovens, um fenômeno cada vez mais presente não apenas na vida cotidiana, mas também nas discussões sobre comportamento, mercado de trabalho e transformações culturais.
A mudança acompanha uma realidade em que as mulheres conquistaram mais autonomia financeira, independência pessoal e liberdade para desafiar convenções sociais que durante décadas pareciam imutáveis.
No fim das contas, talvez a grande novidade não seja a diferença de idade. A novidade é que as pessoas estão começando a se importar menos com ela.
E convenhamos: quando o assunto é amor, a certidão de nascimento raramente foi um bom critério de seleção.
O laboratório potiguar em ruínas
Durante décadas, a esquerda brasileira insistiu na tese de que os problemas econômicos do país seriam resolvidos com mais Estado, mais intervenção, mais gastos públicos e mais controle governamental sobre a atividade econômica.
O Rio Grande do Norte, governado, já em seu segundo mandato, pela petista Fátima Bezerra, tornou-se nesses oito anos um interessante laboratório para testar essa teoria.
Reportagens e análises recentes apontam para um cenário de dificuldades fiscais, baixo dinamismo econômico, perda de competitividade e crescente dependência da máquina pública.
O Estado, que já não figurava entre os mais ricos da Federação, enfrenta dificuldades para atrair investimentos e ampliar sua capacidade de crescimento.
Os defensores desse modelo costumam atribuir os resultados a fatores externos ou conjunturais.
Mas investidores, empresários e empreendedores geralmente observam algo mais simples: ambientes econômicos previsíveis costumam atrair capital; ambientes hostis costumam afugentá-lo.
Naturalmente, problemas econômicos nunca decorrem de um único fator. Mas chama atenção a insistência em receitas que colecionam fracassos ao redor do mundo e que continuam sendo apresentadas como novidades revolucionárias.
A economia tem uma característica incômoda para os ideólogos: ela costuma cobrar a conta. Mais cedo ou mais tarde.
Os estudiosos do próprio contracheque
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, criou um grupo para estudar os chamados penduricalhos do Judiciário — aquelas verbas, indenizações, auxílios e vantagens que frequentemente empurram remunerações muito além do teto constitucional.
A iniciativa seria digna de aplausos não fosse um detalhe revelado pelo Estadão: alguns integrantes do grupo receberam valores que chegaram à casa das centenas de milhares de reais em determinados meses justamente por conta desses benefícios que agora serão objeto de escrutínio.
Não se questiona aqui a legalidade dos pagamentos. O que chama atenção é a simbologia da escolha.
É como montar uma comissão para investigar os efeitos do açúcar formada pelos maiores consumidores de sobremesa do país.
No Brasil, às vezes, a realidade produz metáforas melhores do que qualquer cronista conseguiria inventar.
O oráculo das Copas
A cada Copa do Mundo surgem videntes, estatísticos, matemáticos, ex-jogadores, cartomantes e especialistas dispostos a apontar o futuro campeão. A maioria desaparece assim que a bola começa a rolar.
Joachim Klement, porém, ganhou o direito de ser ouvido com um pouco mais de atenção. O economista ficou conhecido por ter acertado os últimos três campeões mundiais: Alemanha, França e Argentina. Não se trata de uma bola de cristal, mas de modelos estatísticos que cruzam variáveis econômicas, históricas e esportivas.
Agora, sua aposta recai sobre a Holanda.
Os holandeses carregam uma das histórias mais curiosas do futebol.
Produziram algumas das seleções mais admiradas de todos os tempos, revolucionaram conceitos táticos, revelaram craques históricos e, ainda assim, nunca levantaram a taça. São, talvez, os maiores campeões sem título da história das Copas.
Se Joachim Klement acertar novamente, consolidará sua fama de profeta do futebol. Se errar, terá ao menos a companhia de milhões de comentaristas que também juravam saber exatamente o que aconteceria.
Fuga do paraíso
Por décadas, milhares de cubanos arriscaram a vida em embarcações precárias tentando alcançar a Flórida. Muitos morreram no caminho. Outros conseguiram chegar e reconstruir suas vidas longe da ilha governada pelo regime comunista.
Agora surge uma nova rota.
Segundo reportagem da Coluna Esplanada, cresce o número de cubanos que contratam coiotes para atravessar fronteiras e chegar ao Brasil por meio de Roraima. As restrições migratórias adotadas pelos Estados Unidos parecem ter deslocado parte desse fluxo para outros destinos.
O dado chama atenção porque desmonta uma narrativa que há décadas acompanha o regime cubano. Afinal, se o sistema é tão exitoso quanto seus admiradores afirmam, por que tantos cidadãos continuam procurando a saída?
Os governos mudam, as gerações passam, os discursos permanecem. O que continua igual é o número de pessoas dispostas a abandonar tudo para escapar da ilha.
O dia em que moradores de Miami, Madri ou Boa Vista começarem a fugir para Havana talvez seja um bom momento para reavaliar essa discussão.
A Itália puxa o freio
A ex-deputada Carla Zambelli voltou ao centro do noticiário após a Justiça italiana negar o pedido de extradição apresentado pelas autoridades brasileiras e determinar sua libertação.
Condenada pelo Supremo Tribunal Federal no caso da invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça, Zambelli deixou o Brasil e passou a utilizar sua cidadania italiana para permanecer no país europeu.
O episódio rapidamente ganhou contornos que vão além do destino da ex-parlamentar. Isso porque a solicitação enviada à Itália teve origem na condenação imposta pelo STF sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, figura central em algumas das decisões mais contestadas da Corte nos últimos anos.
Ao analisar o caso, a Justiça italiana fez referências a questionamentos envolvendo as circunstâncias do julgamento e aspectos relacionados à imparcialidade do processo, estranhando que juiz e vítima sejam a mesma pessoa.
A decisão alimentou um debate que já vinha sendo travado dentro do Brasil e passou a repercutir também fora de suas fronteiras.
Independentemente da opinião que cada um tenha sobre Carla Zambelli, o episódio produz um efeito político inevitável: quando uma corte estrangeira passa a examinar sentenças do Supremo brasileiro sob uma lupa crítica, o debate deixa de ser apenas doméstico.
E essa talvez tenha sido a parte mais desconfortável da notícia para Xandão.
Apertem os cintos
Se hoje Alexandre de Moraes já é apontado como o ministro mais poderoso do Supremo, imagine quando assumir formalmente a presidência da Corte.
Pelo sistema de rodízio, isso deve ocorrer no próximo ciclo sucessório.
Nos últimos anos, Moraes tornou-se a figura central de algumas das decisões mais controversas do Judiciário brasileiro, acumulando admiradores, opositores e uma influência raramente vista na história recente do STF.
Seus apoiadores enxergam firmeza institucional. Seus críticos veem autoritarismo, concentração de poder e interpretações cada vez mais elásticas da Constituição.
O fato é que poucos ministros exerceram tamanho protagonismo sem ocupar a cadeira principal do Supremo. Quando ela finalmente chegar, no final de 2027, talvez o Brasil descubra que o atual capítulo era apenas o prefácio.
Ou, para usar uma expressão popular em Brasília, o que muitos consideram turbulência pode parecer apenas o procedimento de embarque.

*Caio Gottlieb: Jornalista e publicitário, fundador e diretor da Agência Caio. Apresentador do programa Conexão Tarobá, na TV Tarobá (afiliada Bandeirantes). Um espaço de opinião, bastidores e análise sem filtro.








