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Quando a democracia começa a silenciar

A democracia não costuma morrer de um único golpe. Ela se enfraquece lentamente, quando o medo substitui a liberdade, quando o debate dá lugar às ameaças e quando o cidadão deixa de questionar aquilo que deveria inquietá-lo.

As recentes declarações do deputado André Janones, falando em “matar ou morrer” e em “exterminar” adversários políticos, representam um grave sintoma da degradação do debate público. Não importa quem seja o alvo. Em uma República, a política deve ser disputada com votos, argumentos e respeito às instituições, jamais com linguagem de guerra.

A preocupação aumenta quando recordamos declarações do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizando a imagem do “enforcamento” de adversários políticos. Palavras pronunciadas por autoridades da República jamais são neutras. Elas inspiram comportamentos, alimentam paixões e podem aprofundar ainda mais uma sociedade já dividida.

O Brasil conhece as consequências da violência política. Jair Bolsonaro sofreu um atentado durante a campanha de 2018. Nos Estados Unidos, Donald Trump escapou por centímetros de uma tentativa de assassinato em pleno comício. Esses fatos deveriam servir de alerta para qualquer democrata, independentemente de sua posição ideológica.

Ao mesmo tempo, cresce a inquietação diante da intensa judicialização da política brasileira. Decisões recentes do Supremo Tribunal Federal envolvendo Jair Bolsonaro e pessoas próximas a ele provocam intenso debate jurídico e político, especialmente por ocorrerem em um período pré-eleitoral. Seus defensores sustentam que as medidas são necessárias à investigação; seus críticos afirmam que elas restringem direitos políticos e afetam o equilíbrio do processo democrático.

Essa discussão inevitavelmente leva muitos brasileiros a recordar o período em que o então ex-presidente Lula, mesmo preso, manteve interlocução política que também gerou amplo debate nacional. Independentemente das diferenças jurídicas entre os casos, uma democracia sólida exige que a sociedade possa discutir, com serenidade, se o princípio da igualdade de tratamento está sendo observado.

Também não deixam de causar estranheza os recorrentes questionamentos sobre os gastos e a estrutura de apoio da primeira-dama Janja. Em qualquer República, quem administra ou utiliza recursos públicos deve prestar contas à sociedade. Exigir transparência não constitui ataque pessoal, ou ato de misoginia; é um dever de todo cidadão e um direito de todo contribuinte.

A democracia não pertence à esquerda nem à direita. Ela pertence ao povo.

Mas a história ensina que as democracias não desaparecem apenas pela força. Muitas vezes elas são enfraquecidas pela indiferença de cidadãos que, pouco a pouco, se acostumam ao extraordinário como se fosse normal.

A pergunta que fica é simples, mas profundamente incômoda: estamos apenas assistindo a mais um momento de tensão política ou estamos aceitando, em silêncio, que princípios fundamentais da democracia sejam relativizados?

O maior risco para uma nação nunca foi o cidadão que faz perguntas. O maior risco sempre foi o cidadão que deixa de fazê-las.

Ainda há tempo para despertar. Porque, quando o povo finalmente percebe que perdeu sua liberdade, normalmente ela já lhe foi retirada há muito tempo.

* André Lino Becker: Cidadão santa-helenense, defensor da fé cristã, da família e da sobriedade como caminho de restauração pessoal e social. Atuou como professor, bacharel em administração de empresas pela Unioeste e pós-graduado em gestão pública. Servidor público aposentado, foi dirigente sindical e líder comunitário atuando em pastorais. Atualmente é prestador de serviços na área da construção civil, como sócio-proprietário da Tecnobrocas.

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