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Rodovias da região: A cobrança da eficiência e o peso do abandono

Pista sem acostamento que matou estudante e sua avó, recentemente em Missal. (Reprodução de mídias sociais)

Por Elder Boff*

Anteprojeto não é projeto e projeto não é obra!

Sobre melhorias nas rodovias da região, é preciso encarar os fatos de frente, sem meias palavras ou maquiagens marketeiras: o que o Governo do Estado está anunciando e licitando agora não são obras, mas apenas projetos.

Logo nos primeiros meses do primeiro mandato do governador Ratinho Junior, o então prefeito Evandro Grade, o Zado, já esteve presencialmente em seu gabinete solicitando as melhorias urgentes e necessárias para a nossa infraestrutura. Ao longo de oito anos de gestão Ratinho e Sandro Alex, a cena se repetiu reiteradas vezes. Foram inúmeros pedidos, cobranças e reuniões no governo. O tempo passou, oito anos se decorreram, o mandato está se encerrando e o que temos? Nem o projeto executivo o Estado foi capaz de entregar.

É uma verdadeira sem-vergonhice anunciar obras com alarde quando nem sequer existe projeto pronto. O que há de concreto até aqui é apenas um anteprojeto bancado do próprio bolso pela iniciativa privada. Apresentar esse avanço burocrático de última hora, em pleno período eleitoral, tem um cunho muito mais eleitoreiro do que o compromisso real de atender a uma demanda antiga e exaustivamente cobrada por nossa comunidade.

O Paraná é amplamente reconhecido como a grande força do agronegócio nacional. De nossas lavouras e agroindústrias saem riquezas que impulsionam o Produto Interno Bruto (PIB) estadual e enchem os cofres públicos com volumes expressivos de arrecadação. No entanto, quando o assunto é o retorno desses tributos em infraestrutura básica, a régua utilizada pelo Governo do Estado parece mudar de acordo com a coordenada geográfica.

O caso recente das rodovias PR 495, 497 e 488 escancara um contraste incômodo. Para que os estudos desse trecho fundamental finalmente saíssem da gaveta e virassem um edital de licitação — com estimativas futuras de intervenções na casa dos R$ 180 a R$ 200 milhões —, a nossa comunidade precisou pagar a conta de entrada. Empresários, cooperativas e associações comerciais desembolsaram cerca de R$ 2 milhões para elaborar e doar o anteprojeto ao Estado.

Foi um gesto monumental de união e força comunitária, sem dúvida. Mas também foi a prova documental de um descaso escancarado.

Enquanto o Extremo Oeste precisou fazer “vaquinha” privada para ver o poder público se mexer, outras regiões vivenciam uma realidade bastante distinta. No Sudoeste, por exemplo, o trecho das rodovias PR-180/PR-281 (entre Francisco Beltrão e Dois Vizinhos) teve seus projetos 100% custeados e contratados pelo Estado, totalizando R$ 90,8 milhões em recursos públicos diretos, com obras já adiantadas.

A pergunta que fica é simples: por que a regra não é a mesma para todos?

Por que o Extremo Oeste precisa tirar recursos da própria iniciativa privada para tentar garantir um direito básico que outras regiões recebem de forma direta e automática?

Nossa região produz muito, gera empregos e entrega ao Tesouro Estadual bilhões em impostos todos os anos. Pagar pela elaboração de um projeto de rodovia estadual não deveria ser condição para termos estradas trafegáveis e seguras. É um desvio de função gritante: o setor produtivo, que já carrega o peso de uma das maiores cargas tributárias do mundo, foi obrigado a assumir uma responsabilidade constitucional do próprio Estado.

É claro que a movimentação burocrática atual é fruto da força de uma comunidade que não se curva à burocracia e nem aceita o esquecimento. Contudo, este episódio deixa uma lição amarga e um alerta claro: não podemos transformar a exceção em regra.

O protagonismo do Extremo Oeste deve servir para exigir reciprocidade, e não para acostumar o Governo do Estado a um comodismo injustificável. Continuaremos firmes, unidos e vigilantes. Acompanharemos o desenrolar das rodovias PR-495, PR-497 e PR-488, mas mantemos a cobrança acesa: a nossa produção merece respeito, e o nosso imposto precisa voltar na mesma proporção em que é gerado.

Por sinal, esta pauta que poderia ter saído do papel muito antes já foi cantada em verso e prosa com anúncios barulhentos por pelo menos umas três oportunidades. Demorou tanto, que afugentou um dos maiores responsáveis pela luta da ode governista.

Como presidente dos Lindeiros, o então prefeito Zado — que em momento anterior havia brindado o atual candidato de Ratinho, então secretário, como o deputado federal mais votado da história recente de Santa Helena — foi quem juntou forças para amealhar os recursos da iniciativa privada e pagar o anteprojeto.

Mas nem todo esse empenho pesou para o Palácio Iguaçu. O tempo foi passando e só nas vésperas nevrálgicas do período eleitoral o tema avançou, e mesmo assim apenas para licitar projetos. Zado foi deixado para trás. Não foi ele que abandonou o governo; foi o governo que abandonou a região e faltou com o respeito a quem produziu e cobrou com lealdade durante oito anos.

Num daqueles anúncios de fachada, eleitoreiros, entre a turma do Sandro Alex, com Ratinho presente, gente que discursou para a plêiade local e regional, ousou insinuar que estava faltando o Zado. “Ele pode ter faltado na prova, mas o governo faltou durante todo o período letivo”.




* Elder Boff é articulista e editor-chefe do Fonte Extra

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