Por André Becker*
Há momentos em que determinados acontecimentos do mundo atual nos fazem lembrar que a Bíblia, embora escrita há milhares de anos, continua provocando perguntas extremamente atuais.
Gênesis, nos capítulos 18 e 19, narra a história de Sodoma e Gomorra. Mas Sodoma não ficou apenas como o nome de duas cidades antigas. Ao longo das Escrituras, tornou-se também símbolo de uma sociedade que havia se afastado profundamente dos princípios de justiça, dignidade e respeito ao próximo.
E aqui existe algo que muitas vezes esquecemos.
Em Ezequiel 16,49-50, a descrição de Sodoma não se limita à questão sexual. O profeta fala de *soberba, excesso, despreocupação e falta de cuidado com o pobre e o necessitado*, além de outras práticas consideradas abomináveis diante de Deus.
Talvez por isso Sodoma continue sendo uma advertência tão poderosa.
Sodoma e o nosso tempo
Em junho de 2026, foi realizado na região do Mar Morto, em Israel, o *Pride Land*, anunciado como um grande festival LGBTQIA+, com música, festas, entretenimento e programação durante vários dias.
A região é tradicionalmente associada à localização bíblica de Sodoma e Gomorra.
Não seria responsável afirmar, sem provas, que o evento tenha sido uma “orgia” ou que tenha reproduzido literalmente os acontecimentos narrados em Gênesis. Mas é impossível ignorar o simbolismo que essa coincidência geográfica desperta.
Não é preciso exagerar os fatos para fazer uma pergunta legítima:
*O que significa para a nossa civilização celebrar determinadas formas de comportamento justamente numa região na qual a tradição bíblica tornou símbolo da decadência moral? *
Talvez não seja uma questão de lugar.
Talvez seja uma questão de consciência.
Porque o problema de uma sociedade não começa necessariamente quando tudo se transforma em escândalo. Ele pode começar quando aquilo que antes era considerado errado passa a ser apresentado como normal; depois, como direito; e finalmente como algo que todos são obrigados não apenas a tolerar, mas a celebrar.
QUANDO O SAGRADO VIRA ESPETÁCULO
Também no Brasil e no mundo temos assistido a manifestações artísticas que provocam a fé cristã.
No Carnaval brasileiro, imagens de Jesus e símbolos cristãos já foram utilizados de maneira considerada ofensiva por muitos fiéis. Em grandes eventos internacionais, símbolos religiosos também foram reinterpretados de maneira provocativa.
Na abertura dos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, uma apresentação foi amplamente interpretada como uma paródia da Última Ceia. A organização posteriormente pediu desculpas a grupos cristãos, enquanto os responsáveis pela cerimônia afirmaram que a inspiração estava relacionada a uma cena de caráter pagão ligada a Dionísio.
Podemos discutir a intenção artística.
Mas existe uma pergunta que permanece:
*Por que símbolos cristãos parecem ser considerados disponíveis para a provocação, enquanto outras convicções religiosas são tratadas com muito maior cautela? *
Liberdade de expressão é um valor fundamental.
Mas liberdade não deveria significar ausência de responsabilidade.
E respeito não deveria ser uma via de mão única.
E QUANDO O PODER TAMBÉM PERDE O LIMITE?
Talvez seja aqui que a reflexão sobre Sodoma se torne ainda mais profunda.
Porque Ezequiel não fala apenas de sexualidade. Fala também de *soberba, riqueza sem responsabilidade, desprezo pelo necessitado e corrupção moral*.
E isso nos permite olhar para o Brasil.
Sem transformar este artigo em uma acusação contra pessoas ou instituições específicas, precisamos fazer perguntas que uma democracia saudável deveria permitir.
*O poder pode tudo? *
*Quem fiscaliza quem fiscaliza? *
*Quando os Poderes da República entram em conflito, quem protege a Constituição? *
*Pode haver justiça quando existe a percepção de proximidade excessiva entre quem acusa, quem julga e quem exerce poder político? *
A Constituição brasileira não é um detalhe. Ela estabelece garantias como o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.
Por isso, diante dos processos relacionados aos acontecimentos de 8 de janeiro, é legítimo que cidadãos questionem — dentro dos limites da responsabilidade e sem prejulgar decisões judiciais — se cada acusado recebeu efetivamente todas as garantias processuais que a Constituição promete a qualquer brasileiro.
Não devemos perguntar isso porque gostamos ou não gostamos de determinado grupo político.
Devemos perguntar porque *a Constituição precisa valer para todos*.
Se alguém cometeu crime, deve responder por ele.
Se houve tentativa de golpe, violência, depredação ou qualquer outro crime, os responsáveis devem ser responsabilizados.
Mas justiça não pode significar vingança.
E punição não pode substituir o devido processo legal.
Da mesma forma, nenhum cidadão deveria ser considerado inocente simplesmente porque pertence ao grupo político de que gostamos.
A verdadeira justiça precisa ser capaz de condenar o adversário e absolver o aliado quando as provas assim determinarem.
Caso contrário, deixamos de ter justiça e passamos a ter apenas *justiça para os nossos e justiça contra os outros*.
E essa é uma pergunta que vale para todos os Poderes, para todos os partidos e para todos os governos.
O PARALELO COM SODOMA
É aqui que a história bíblica se torna assustadoramente atual.
Em Gênesis 19, os visitantes que chegam a Sodoma encontram uma sociedade profundamente corrompida. O episódio mostra uma comunidade na qual até mesmo o estrangeiro e o visitante deixam de ser tratados com dignidade.
Não devemos dizer que o Brasil é Sodoma.
Isso seria uma simplificação grosseira.
Mas podemos perguntar:
*O que acontece com uma sociedade quando o poder deixa de servir à justiça? *
*O que acontece quando os pobres são esquecidos, quando a verdade se torna relativa, quando o interesse político se sobrepõe ao bem comum e quando os valores morais passam a ser tratados como obstáculos ao progresso? *
Talvez seja justamente aí que o paralelo bíblico faça sentido.
Não pela semelhança literal.
Mas pelo *alerta*.
QUANDO O VÍCIO TAMBÉM ENTRA PELA PORTA
Há ainda uma realidade que conheço não apenas por observar a sociedade, mas por vivenciá-la através do trabalho na *Pastoral da Sobriedade*: a destruição provocada pelos vícios.
Nossa sociedade muitas vezes banaliza aquilo que deveria ser motivo de preocupação. O álcool é tratado como diversão; as drogas são, em determinados ambientes, apresentadas como experiência, liberdade ou estilo de vida; e outras formas de dependência vão entrando silenciosamente nas famílias.
O resultado aparece depois, quando a festa termina e a realidade chega: famílias destruídas, relacionamentos rompidos, violência, sofrimento, endividamento, abandono e pessoas que já não conseguem controlar a própria vida.
O vício raramente destrói apenas quem consome.
*Ele quase sempre atinge também quem ama aquela pessoa. *
É por isso que a Pastoral da Sobriedade procura trabalhar não apenas contra uma determinada substância, mas pela reconstrução da pessoa, da família e da dignidade humana.
Talvez aqui exista mais um alerta para o nosso tempo: uma sociedade que transforma tudo em prazer imediato corre o risco de esquecer que *nem tudo aquilo que dá prazer faz bem, e nem toda liberdade conduz à verdadeira libertação*.
A verdadeira liberdade não é poder fazer tudo.
É também ter força para dizer *não* àquilo que pode nos escravizar.
E talvez seja justamente por isso que precisamos recuperar uma palavra que parece antiga, mas continua extremamente atual:
*Sobriedade. *
*Sobriedade e paz, só por hoje, graças a Deus. *
## E O APOCALIPSE?
O Apocalipse também fala de uma sociedade simbolizada por *Babilônia*: poderosa, rica, sedutora e moralmente corrompida.
Não precisamos sair apontando cidades, partidos ou governos e dizendo: “Esta é Babilônia”.
O livro do Apocalipse é muito mais profundo.
Ele nos pergunta se, diante de um mundo sedutor e poderoso, continuaremos capazes de distinguir verdade de mentira, justiça de injustiça e fidelidade de conveniência.
Jesus jamais nos autorizou a odiar quem pensa diferente.
Ao contrário.
O cristão deve amar o pecador, mesmo quando discorda profundamente de seus atos.
Por isso, ao falar das uniões entre pessoas do mesmo sexo, precisamos também manter honestidade e respeito.
A fé cristã tradicional ensina que o matrimônio possui uma natureza própria, fundada na união entre homem e mulher e aberta à geração da vida. Essa é uma convicção religiosa e moral que o cristão tem o direito de professar.
Isso não autoriza ninguém a humilhar, perseguir ou violentar uma pessoa homossexual.
Mas também não deveria obrigar um cristão a abandonar aquilo que sua fé e sua consciência consideram verdadeiro.
*Respeitar uma pessoa não significa necessariamente concordar com todas as suas escolhas. *
E discordar de uma conduta não significa odiar quem a pratica.
## ESTAMOS VIVENDO O FIM DOS TEMPOS?
Talvez.
Talvez não.
Jesus deixou claro que ninguém conhece o dia nem a hora.
Portanto, mais importante do que tentar descobrir quando o mundo acabará é perguntar:
*Como estamos vivendo enquanto esperamos? *
O Carnaval.
As grandes cerimônias.
A banalização da sexualidade.
A transformação do corpo e da intimidade em espetáculo.
A relativização da verdade.
A perda do respeito pelo sagrado.
A corrupção do poder.
A indiferença diante dos pobres.
A polarização política.
A dificuldade de aceitar o contraditório.
A sensação de que alguns podem tudo enquanto outros precisam provar até a própria inocência.
Tudo isso, isoladamente, não significa que estejamos diante do fim do mundo.
Mas tudo isso pode servir como *sinal de alerta sobre o estado moral de uma sociedade*.
O Apocalipse não foi escrito para nos transformar em profetas de datas.
Foi escrito para nos lembrar de que, mesmo quando o mundo parece mergulhar na escuridão, *Deus continua sendo Deus*.
A ESCOLHA
Talvez a grande pergunta de nosso tempo não seja se Sodoma está voltando.
Talvez seja se estamos aprendendo alguma coisa com Sodoma.
Uma sociedade pode ter riqueza e perder a compaixão.
Pode ter tecnologia e perder a sabedoria.
Pode ter leis e perder a justiça.
Pode ter liberdade e perder a responsabilidade.
Pode ter poder e perder Deus.
E quando uma sociedade chega a esse ponto, talvez o maior perigo não seja aquilo que acontece nas ruas.
Talvez seja aquilo que acontece dentro da consciência de cada pessoa.
Por isso, como cristão, não desejo a destruição de ninguém.
Desejo conversão.
Não desejo perseguição.
Desejo justiça.
Não desejo que o diferente seja silenciado.
Desejo que possamos voltar a conversar.
Não desejo que o Brasil seja dividido entre “bons” e “maus”.
Desejo que a verdade esteja acima dos interesses de qualquer grupo.
Porque, no final, talvez a mensagem de Sodoma não seja simplesmente:
“Vejam como eles eram maus.”
Talvez seja:
“Cuidado para não se tornar aquilo que você condena.”
E a mensagem do Evangelho continua sendo ainda mais forte:
*Ainda há tempo para voltar.*
Ainda há tempo para buscar a verdade.
Ainda há tempo para praticar a justiça.
Ainda há tempo para cuidar do pobre.
Ainda há tempo para respeitar o próximo.
Ainda há tempo para colocar limites no poder.
Ainda há tempo para reconstruir a família, a sociedade e a própria fé.
*Ainda há tempo para escolher Cristo. *
Referências:
*Gênesis 18–19* — A história de Sodoma e Gomorra e a chegada dos visitantes à cidade.
*Ezequiel 16,49-50* — Soberba, abundância, despreocupação e falta de cuidado com o pobre e o necessitado, além das demais práticas condenadas pelo profeta.
*Judas 7* — Sodoma como exemplo de afastamento moral e julgamento.
*Mateus 24,12 e 24,36* — Jesus fala do crescimento da iniquidade e afirma que ninguém conhece o dia e a hora.
*Apocalipse 17–18* — A imagem simbólica de Babilônia, associada ao poder, à riqueza, à sedução e à corrupção.
*Apocalipse 3,11* — O chamado à perseverança e à fidelidade.
*Miqueias 6,8* — O chamado para praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus.
*Gálatas 5,13* — A liberdade cristã não deve ser confundida com a escravidão aos desejos.
*1 Pedro 5,8* — O chamado à vigilância e à sobriedade.
*Mateus 25,35-40* — O cuidado com o necessitado como expressão concreta do amor a Cristo.

* André Lino Becker: Cidadão santa-helenense, defensor da fé cristã, da família e da sobriedade como caminho de restauração pessoal e social. Atuou como professor, bacharel em administração de empresas pela Unioeste e pós-graduado em gestão pública. Servidor público aposentado, foi dirigente sindical e líder comunitário atuando em pastorais. Atualmente é prestador de serviços na área da construção civil, como sócio-proprietário da Tecnobrocas.






