Por Elder Boff*
A engrenagem política no Paraná opera sob uma lógica antiga, mas que atinge contornos alarmantes na atual corrida pelo Palácio Iguaçu: o uso explícito da máquina pública para constranger lideranças municipais, principalmente prefeitos.
Santa Helena, por exemplo, em sete anos de governo, até o ano passado, praticamente o Governo do Estado do Paraná, não enviou recurso algum. Neste ano eleitoral vieram uns trocos, diante do volume de 80 milhões anunciados.
O episódio de prefeitos pressionados a apoiar a candidatura oficialista, sob o peso de convênios estaduais, escancara uma distorção grave. Trata-se, na prática, do uso indireto de dinheiro público para o financiamento e a coerção de alianças eleitorais.
A dinâmica capitaneada pelo governador Ratinho Junior é tão clara quanto abusiva. Lideranças municipais, que dependem criticamente de repasses estaduais para pavimentação e infraestrutura, veem-se encurraladas.
O apoio político ao candidato governista, o ex-secretário Sandro Alex, deixa de ser uma escolha programática e passa a ser uma condição de sobrevivência administrativa. A cobrança aberta feita a gestores do interior transforma verbas que pertencem aos cidadãos em moeda de troca partidária, uma prática que fere a ética e flerta perigosamente com o abuso de poder político e econômico.
Para além do constrangimento institucional exercido pelo Palácio Iguaçu, há um estelionato técnico em curso. O eleitor e os próprios prefeitos precisam encarar a realidade dos fatos: pouquíssimos recursos desses convênios serão liberados este ano.
O calendário administrativo desmascara a promessa eleitoreira de Ratinho Junior em benefício de Sandro Alex. Mesmo com papéis assinados às pressas, o tempo hábil até dezembro é virtualmente zero.
Não há prazo para licitar, iniciar as obras e, muito menos, realizar as medições técnicas obrigatórias que liberam os pagamentos de fato. O que se assina hoje nos palanques não se transforma em asfalto amanhã.
A fatura dessa estratégia abusiva ficou para depois. O próximo governador é quem terá de arcar com o compromisso financeiro e honrar o passivo bilionário herdado dessa engenharia de pressão.
Ao carimbar o futuro orçamento do Estado para tentar salvar uma candidatura no presente, o grupo governista joga com o dinheiro do contribuinte. Os prefeitos que hoje cedem à pressão precisam ter consciência de que o “convênio debaixo do braço” de Ratinho Junior pode se revelar, logo após a abertura das urnas, um mero pedaço de papel sem fundos, que, com boa vontade e espírito público, poderá ser cumprido pelo próximo governador; E esse governador está bem longe de ser o coautor destas prosopopeias.

* Elder Boff é articulista e editor-chefe do Fonte Extra






