Por Caio Gottlieb*
“Não é Jair Bolsonaro que vai a julgamento. É o bolsonarismo.” A sentença de André Marsiglia — advogado constitucionalista, professor e pesquisador, uma das vozes mais respeitadas na defesa das liberdades de expressão — não poderia ser mais precisa.
O processo que se iniciou nesta terça-feira (2) no Supremo Tribunal Federal escancara a tentativa de criminalizar uma corrente política inteira, convertendo divergência em delito.
Marsiglia descreve com clareza o enredo que se pretende naturalizar: a esquerda moderada como padrão aceitável de normalidade, enquanto toda discordância — sobretudo à direita — é automaticamente tachada de radicalismo.
Nesse tribunal de cartas marcadas, não se julga conduta, mas dissidência. O réu é o pensamento.
Em certo tom de escárnio, ele lembra o sonho dessa elite: queriam que a direita brasileira fosse sempre o PSDB, o Geraldo, o Fernando Henrique — figuras que “nunca foram de direita, mas uma esquerda no armário”, no máximo, “uma dissidência da própria esquerda”.
Essa é a direita tolerável, inofensiva, que cabe no script idealizado.
A metáfora do “torneiro mecânico” revela a profundidade do projeto: um presidente simbólico, decorativo, enquanto a autoridade real repousa nas mãos de uma elite acadêmica, polida, que “fala francês e arrota verniz acadêmico”.
É a oposição disfarçada de divergência, que não incomoda — porque está controlada, domesticada pela sofisticação.
É verdade que uma ruptura institucional pode até ter sido pensada. Mas nunca executada. Não houve tanques nas ruas, soldados em posição, quartéis em marcha — nada que configurasse um golpe de Estado clássico.
O que existiu, em essência, foi a evocação de uma revolta política que envolveu metade da população brasileira, inconformada com a volta ao poder de figuras marcadas e condenadas por corrupção.
Pensar virou crime. Imaginar, delito. A punição, nesse caso, não se volta contra atos, mas contra ideias.
Marsiglia percebe o subtexto dessa operação. Quando ministros do Supremo falam em derrotar “extremismos” ou em “recivilizar” as pessoas, estão admitindo que veem o povo como alguém a ser domesticado pela elite.
Não se trata apenas de derrotar politicamente, mas de reformatar a alma coletiva — uma pretensão perigosa, porque nenhuma elite, por mais refinada, consegue derrotar o povo.
E a tentativa só amplia ressentimento, espalha desconfiança e empurra a sociedade para o conflito.
O que está em curso não é um julgamento como os outros. É um recado.
Um aviso de que pensar diferente pode custar caro. Hoje, não se tenta apenas condenar um homem, mas intimidar milhões de brasileiros que ousaram contrariar o roteiro imposto.
Se a divergência virar crime, a democracia já terá sido condenada antes mesmo da sentença.

*Jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.
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