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Do fuzil à caneta: as duas faces do crime organizado

(Ilustração C.Gottlieb)

Por Caio Gottlieb*

Brutalmente cinematográfica, a execução em via pública do ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Rui Ferraz Pontes, símbolo do combate às facções criminosas, chocou o país.

Jurado de morte pelo PCC, ele foi emboscado e crivado de balas numa cena que parecia saída de um filme de ação. Ousadia, frieza e estratégia: a marca registrada do crime organizado que se alimenta do tráfico, dos assaltos, dos sequestros e da violência que semeia medo.

Mas há outro crime organizado, menos espetacular nas imagens, porém não menos devastador nos efeitos.

É o que ocupa os gabinetes governamentais.

Ali não se disparam rajadas de fuzil, mas canetadas que drenam recursos da saúde, desviam verbas da educação, boicotam investimentos em saneamento básico e condenam milhões de brasileiros a doenças, analfabetismo, miséria e morte.

É o crime de colarinho branco, travestido de governo, reincidente em escândalos, com condenados que foram “descondenados” para reassumir o palco do poder.

As facções que atuam nas ruas matam com tiros. As que se instalam nos palácios matam de outra forma: ceifam vidas pela omissão, pela corrupção, pela ganância institucionalizada.

De um lado, bandos que surgiram da delinquência miúda e encontraram abrigo na tolerância oficial. A cada crime relativizado, a cada furto perdoado sob a desculpa da pobreza — até mesmo o roubo de um celular para comprar uma cervejinha —, foi-se alimentando o mito do “coitado, vítima da desigualdade”. Dessa indulgência nasceram monstros, que abandonaram os becos e hoje se impõem como poderes paralelos, afrontando o próprio Estado que um dia os acobertou.

De outro lado, temos as quadrilhas escolhidas pelo voto, legitimadas nas urnas pela decisão de eleitores que, muitas vezes, não percebem que estão entregando o futuro do país a quem faz da política um negócio.

No primeiro caso, a nação se horroriza diante das imagens brutais. No segundo, a indignação se dissolve em silêncio cúmplice, como se fosse normal conviver com a quadrilha oficializada que voltou ao comando do País.

No fundo, trata-se da mesma engrenagem: grupos organizados que se sustentam na violência ou na rapina para perpetuar seu domínio.

Um crime horroriza por suas imagens explícitas. O outro corrói todos os dias, invisível, mas talvez ainda mais letal.



*Jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.





Fonte Extra

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