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A miragem das quarenta horas

Por Caio Gottlieb*

A sedução da ideia é compreensível. Trabalhar menos. Descansar mais. Ter tempo para a família, para os filhos, para a vida que fica suspensa entre uma segunda e uma sexta.

Ninguém com integridade intelectual vai argumentar contra o horizonte civilizatório embutido nessa aspiração. Os países desenvolvidos chegaram lá. Os trabalhadores europeus trabalham menos, ganham mais, vivem melhor. Por que o Brasil não pode seguir o mesmo caminho?

Pode. Deveria. Um dia chegará lá.

O problema não é o destino. O problema é a temeridade de quem pretende dar o salto sem ter construído a pista de decolagem.

Antes de qualquer debate sobre jornada, existe um número que deveria estar estampado na entrada de cada plenário onde essa discussão avança: o Brasil ocupa a 94ª posição entre 184 países no ranking de produtividade da Organização Internacional do Trabalho. Cada hora trabalhada por um brasileiro gera US$ 21,2 de riqueza. Um trabalhador norueguês gera mais de US$ 90. Um americano, mais de US$ 70.

Não estamos falando de diferença de esforço. Estamos falando de diferença de ferramentas, de gestão, de infraestrutura, de qualificação, de capital acumulado ao longo de gerações.

A conta que se segue dessa realidade é simples e impiedosa: quando um trabalhador altamente produtivo reduz sua jornada, a empresa absorve o impacto porque o que ele produz por hora compensa a hora a menos. Quando um trabalhador de baixa produtividade reduz sua jornada sem que nada mais mude — sem tecnologia, sem capacitação, sem reorganização de processos —, alguém paga a conta.

E esse alguém, invariavelmente, é a economia como um todo: pela via do desemprego, da inflação ou da informalidade.

Há um outro dado que os entusiastas da medida preferem não encarar de frente. A proposta é vendida como um presente aos trabalhadores brasileiros — mas qual trabalhador, exatamente?

Comecemos pelo óbvio: 38,1% da força de trabalho brasileira está fora do regime CLT. São cerca de 40 milhões de pessoas — informais, autônomos, trabalhadores por conta própria — que simplesmente não seriam alcançados por nenhuma mudança constitucional na jornada formal. A medida nasce, portanto, com uma contradição interna: anuncia-se como conquista universal e já exclui, de saída, quase dois quintos dos que trabalham neste país.

Mas mesmo entre os que estão dentro da CLT, a matemática do descanso não fecha. Dados da Serasa de abril de 2026 revelam que 83,3 milhões de brasileiros — 50,8% da população adulta — estão negativados. Para essas famílias, uma hora a menos de trabalho obrigatório não é hora de lazer. É hora de segundo emprego, de bico, de entrega por aplicativo, de qualquer renda complementar que tape os buracos de um orçamento que já sangra.

A promessa de qualidade de vida, para quem está afogado em dívidas, soa como a oferta de um travesseiro mais macio a quem dorme no chão.

Os números da Confederação Nacional da Indústria não deixam margem para romantismo. A redução de jornada de 44 para 40 horas semanais, sem corte de salários, geraria uma perda anual equivalente a 0,7% do PIB — cerca de R$ 77 bilhões. O custo total para as empresas chegaria a R$ 267,2 bilhões anuais, representando um aumento de até 7% na folha de pagamentos. A Federação do Comércio de São Paulo vai mais longe: sem redução proporcional de salários, o custo do trabalho aumentaria 22% — e esse custo seria repassado ao consumidor final.

A Frente Parlamentar da Agropecuária calcula o mesmo impacto de 22% na mão de obra rural, com reflexo de alta de até 5,7% nos preços dos alimentos nos supermercados. Quem pagará essa conta? As famílias de baixa renda — as mesmas que a medida promete beneficiar. Quanto aos empregos, o Centro de Liderança Pública projeta risco de corte de até 640 mil postos entre pequenas e médias empresas. A CNI vai além: o cenário mais pessimista aponta para a destruição de até 2,7 milhões de empregos formais. “Grandes corporações têm margem para absorver o aumento de custos, mas as menores operam com margens apertadas. Muitas não sobreviveriam”, alerta João Gabriel Pio, economista-chefe da Fiemg.

O paradoxo é perverso: uma medida apresentada como defesa do trabalhador pode jogar milhões de trabalhadores na informalidade ou no desemprego.

Enquanto a Câmara avança com o projeto embalada nos aplausos da galeria, chegava às mesas dos parlamentares uma carta. Assinada por Irineo da Costa Rodrigues, Diretor-Presidente da Lar — uma das maiores cooperativas agroindustriais do Brasil, presente no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, com mais de 27 mil funcionários —, a missiva não tem o tom inflamado dos palanques. Tem algo mais incômodo: dados reais, de quem conhece o chão de fábrica, o ciclo da safra, a lógica implacável da produção que não para porque o calendário eleitoral avança.

O cooperativismo brasileiro emprega mais de 578 mil pessoas em todos os seus ramos, sendo mais de 420 mil concentrados nas cooperativas agropecuárias e de saúde — trabalhadores com realidades operacionais radicalmente distintas das de um escritório em São Paulo ou de um banco no centro de Curitiba. Na hipótese de redução da jornada para 36 horas semanais, o impacto sobre a folha de pagamentos do cooperativismo chegaria a mais de R$ 6,4 bilhões anuais.

Só no ramo agro, o custo adicional ultrapassaria R$ 466 milhões por mês. No ramo saúde, as operadoras de planos cooperativos acumulariam R$ 4 bilhões em custos adicionais ao longo de cinco anos — sem contar as perdas de capacidade de atendimento.

Mas o argumento mais poderoso da carta de Rodrigues não está nos bilhões. Está na especificidade irredutível do mundo real. Como se aplica jornada uniforme a uma cooperativa que opera no ciclo da safra, cujo pico produtivo obedece ao calendário da natureza e não ao relógio do legislador?

Como se trata da mesma forma uma plataforma de tecnologia em São Paulo e um frigorífico no oeste do Paraná que processa proteína animal 24 horas por dia para alimentar o país — e boa parte do mundo? A saída proposta pelo cooperativismo é tecnicamente irrepreensível: a negociação coletiva, prevista na Constituição e aperfeiçoada pela reforma trabalhista de 2017, como instrumento central — setor por setor, região por região, com flexibilidade para safras, turnos contínuos e as mil e uma realidades de um país continental que teima em ser tratado como se fosse homogêneo.

É preciso chamar as coisas pelo nome. O que se assiste na Câmara dos Deputados é uma marcha da insensatez conduzida não pela convicção econômica, mas pelo calendário eleitoral.

O governo Lula, com índices de aprovação em queda e o relógio das eleições de 2026 batendo cada vez mais alto, acelerou nas últimas semanas uma sequência de medidas populistas: crédito fácil, subsídios generosos, promessas de bem-estar financiadas por déficit.

A redução da jornada é a cereja do bolo — o gesto simbólico de máximo apelo popular e mínima responsabilidade com as consequências. O setor produtivo grita. As entidades empresariais apresentam estudos. Os economistas alertam. E os deputados, em sua maioria, fazem exatamente o que fazem quando o instinto eleitoral fala mais alto que a razão: fingem não ouvir.

A esperança — modesta, mas real — está no Senado. Câmara alta que, ao menos em tese, opera em temperatura mais baixa e com horizonte um pouco mais longo. É lá que essa marcha pode, quem sabe, encontrar alguma resistência. Não para enterrar o debate — a modernização das relações de trabalho é legítima e necessária —, mas para fazê-lo com a seriedade que o tema exige e que a pressa eleitoral deliberadamente despreza.

Trabalhar menos é uma aspiração legítima. Em algum momento da história brasileira, com produtividade crescente, educação de qualidade, infraestrutura adequada e empresas competitivas, o país terá condições reais de reduzir sua jornada sem jogar milhões no desemprego e a inflação para cima.

Esse dia ainda não chegou. E apressar sua chegada por decreto, às vésperas de uma eleição, sem ouvir quem produz, sem ponderar quem paga, sem considerar quem perde, não é conquista civilizatória. É demagogia com prazo de validade.

Há um ditado que resume com precisão cruel o que separa um estadista de um populista: o estadista pensa na próxima geração. O politiqueiro irresponsável pensa na próxima eleição.

Não é preciso muito esforço para identificar em qual das duas categorias se encaixa quem governa o Brasil hoje.



*Caio Gottlieb: Jornalista e publicitário, fundador e diretor da Agência Caio. Apresentador do programa Conexão Tarobá, na TV Tarobá (afiliada Bandeirantes). Um espaço de opinião, bastidores e análise sem filtro.

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