Com mais uma grande apreensão, Santa Helena mostra-se o epicentro da ação de traficantes
Uma rede de mais de 300 portos clandestinos escondidos nas margens do Lago de Itaipu condiciona a fronteira entre Paraná e Paraguai em um dos principais corredores de tráfico de drogas do Brasil. O reservatório tem 180 quilômetros em linha reta entre Foz do Iguaçu e Guaíra, mas suas reentrâncias somam 1.350 km de margens, quase impossíveis de fiscalizar por completo.
E com mais uma ação policial nesta quinta-feira (20) no distrito de Sub-Sede, em Santa Helena, um trabalho conjunto da Polícia Militar do Paraná, por meio do Batalhão de Polícia de Fronteira (BPFron), e da Polícia Federal, através do NEPOM de Foz do Iguaçu, outra apreensão. Desta vez, aproximadamente uma tonelada de maconha.
A logística é sofisticada. Fardos de maconha e cocaína atravessam o Lago de Itaipu em embarcações vindas do lado paraguaio durante a madrugada, são descarregados em pontos de apoio construídos na mata ciliar e seguem por estradas vicinais até rodovias como a BR-277, BR-163 e BR-467, que levam a cidades como Toledo e Cascavel e, de lá, aos grandes centros consumidores do país.
Segundo o Batalhão de Polícia de Fronteira (BPFron), o crime organizado que atua no lago recruta pessoas de diferentes perfis sociais para compor a cadeia logística: olheiros que monitoram a movimentação policial, batedores que escoltam as cargas em veículos com documentação regular, pilotos de embarcação e condutores que fazem o transporte terrestre depois do desembarque.

Típica embarcação utilizada pelo tráfico. Imagem: PF
Santa Helena virou epicentro da fiscalização
A cidade concentra várias apreensões desde janeiro. Santa Helena abriga uma base do BPFron, instalada às margens da rodovia PR-488, no antigo posto da Polícia Rodoviária Estadual. A unidade integra um projeto estadual que prevê 11 bases de fronteira, ao lado de Cascavel e Ribeirão Claro, e funciona como ponto de convergência entre Polícia Militar, Polícia Federal, Receita Federal, Forças Armadas e Polícia Civil, com viaturas RAM 3500 e armamento de maior calibre.
E os resultados apareceram rápido. Ainda nos primeiros dias após a inauguração, uma ação da Operação Protetor de Fronteiras e Divisas apreendeu 1,4 tonelada de maconha na zona rural, com prejuízo estimado em R$ 3 milhões ao crime organizado. Em fevereiro, nova ação do BPFron e da PF tirou de circulação cerca de 1 tonelada de drogas. Em maio, mais de 420 kg de maconha foram localizados perto da Vila Celeste, após denúncias sobre um porto clandestino na região.
Como na grande maioria dos casos de apreensão de drogas, veículos roubados são utilizados para a prática para minimizar os prejuízos dos traficantes. No local da apreensão desta madrugada, os policiais localizaram um Honda HR-V com placas clonadas. Após consulta aos sistemas de segurança, foi constatado que o veículo possuía registro de roubo no Estado do Rio de Janeiro.
Junho trouxe a maior apreensão do período: quase 4 toneladas de maconha na Operação Codesul II, com três pessoas presas e prejuízo de R$ 7,6 milhões ao crime organizado. Já em julho, durante a Operação Ágata, cerca de 590 kg foram apreendidos depois que os traficantes abandonaram embarcação e carga ao perceberem a chegada das equipes.
No início de agosto, PF, PM e Marinha do Brasil apreenderam juntas 672 kg de maconha e duas embarcações, e, em meados do mês, mais 373 kg foram encontrados em um veículo cujo motorista desobedeceu ordem de parada e fugiu a pé.
Em praticamente todos os casos, o padrão se repete: embarcações vindas do Paraguai desembarcam de madrugada em pontos afastados da margem, e o material é rapidamente transferido para veículos que aguardam nas proximidades. Quando os suspeitos percebem a aproximação das equipes, abandonam carga, embarcação e veículo e fogem para a mata, o que resulta em uma alta taxa de apreensões sem prisões correspondentes.

Recentemente, apreensão de 1,5 t em Toledo. Imagem: Plantão 190
Toledo também entra na rota
Em uma varredura realizada em junho pela Polícia Militar, Polícia Federal e PRF, mais de 5 toneladas de maconha foram retiradas de circulação em Toledo, Santa Helena, Santa Tereza do Oeste e Foz do Iguaçu. A maior apreensão do grupo aconteceu justamente em Toledo, quando um caminhão frigorífico foi abordado carregando droga na BR-467.
Guaíra: o crime ataca a própria infraestrutura
A dimensão da estrutura logística do tráfico ficou evidente quando forças de segurança do Paraná, com apoio da Polícia Federal, precisaram usar cargas explosivas controladas para demolir um porto clandestino em Guaíra, considerado um dos principais pontos de recepção e escoamento de droga na fronteira, dentro da Missão Paraná.
Facções de fora reforçam a disputa
A movimentação na região não se limita a grupos locais. Segundo levantamento do serviço de inteligência do Paraguai, a fronteira com o Paraná é hoje território de maior força do Comando Vermelho, enquanto o Primeiro Comando da Capital (PCC) tem presença mais forte na divisa com o Mato Grosso do Sul. As duas facções foram classificadas pelo governo paraguaio como organizações terroristas, medida anunciada após uma megaoperação da polícia do Rio de Janeiro contra o CV.
Um pesquisador com tese de doutorado pela Universidade Autônoma de Lisboa descreve o fenômeno como o mercado das “commodities ilícitas”, em que o crime se apropria de infraestrutura pública, como o próprio lago da hidrelétrica de Itaipu, para movimentar drogas, armas e produtos contrabandeados, usando a mesma lógica das cadeias globais de comércio legal.
Números da fronteira
Apenas no primeiro semestre de 2025, o Paraná registrou 271 mil kg de drogas apreendidas, ficando atrás apenas do Mato Grosso do Sul entre os estados de fronteira, segundo o Sinesp. Em 2026, a Polícia Militar já retirou 156 toneladas de drogas de circulação em todo o Estado, sendo quase 24 toneladas somente em junho na região de fronteira, além de 204 prisões.
Lucas Oruam/FE com informações da Polícia Federal, do governo do Paraná (SESP/PMPR) e da BPFron






