Por Caio Gottlieb*
A COP30 nasceu como a grande vitrine internacional do governo Lula, um palco cuidadosamente montado para exibir compromisso climático, protagonismo amazônico e liderança ambiental diante dos olhos do planeta.
Mas bastou a primeira semana do evento para mostrar que o brilho pretendido não resistiria ao contato com a realidade. Em vez do espetáculo impecável imaginado por Brasília, surgiu um retrato desconfortável: falhas, improviso e contradições expostas com a frieza de quem não deve nada ao anfitrião.
A carta enviada ao governo brasileiro por Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima, dispensa esforço interpretativo.
Com o rigor de quem perdeu a paciência, ele relata a invasão de cerca de 150 ativistas à área restrita da conferência — zona onde protestos são proibidos. Houve depredação, seguranças feridos e, segundo a ONU, a polícia brasileira, embora presente, não agiu.
A orientação de não intervir teria partido do gabinete presidencial. É o tipo de anotação que nenhum país anfitrião gostaria de receber.
No documento, Stiell descreve portas sem vigilância, efetivo insuficiente e ausência de garantias de que novas invasões seriam contidas. Para ele, tudo isso configura “grave violação” da estrutura de segurança acertada com o Brasil.
E o quadro piora quando se passa aos problemas de infraestrutura: calor sufocante, ar-condicionado inoperante, delegados passando mal, falta de água até para os banheiros, infiltrações após chuvas amazônicas e água escorrendo pelas luminárias — um cenário que transforma risco elétrico em decoração temática.
Se o propósito da conferência era alertar o mundo sobre extremos climáticos, Belém acabou oferecendo uma demonstração involuntária.
O desgaste já era visível antes mesmo da abertura do evento. A cidade não comporta o volume de visitantes: faltam hotéis, sobram preços abusivos e se multiplicam improvisos.
A contradição atingiu o ápice quando veio à tona que cerca de 100 mil árvores foram derrubadas para construir a chamada Avenida Verde, destinada a melhorar a mobilidade durante a COP. Poucos símbolos expõem tão bem o abismo entre narrativa e prática quanto desmatar floresta para celebrar a preservação da floresta.
A isso somou-se o descompasso entre discurso e ação: dias antes da conferência, o governo autorizou a exploração de petróleo na Margem Equatorial do Amazonas, enquanto condenava combustíveis fósseis nos palcos oficiais.
O contraste foi percebido imediatamente, e a COP30 passou a chamar atenção menos pelos debates e mais pelos tropeços.
Foi nesse ambiente instável que surgiu, com precisão cirúrgica, a intervenção de Leandro Narloch. O escritor — que viajou a Belém para divulgar seu novo livro, o Guia Politicamente Incorreto do Meio Ambiente, jogou água no chope do alarmismo climático — instalou dois outdoors desafiando diretamente a retórica dominante da conferência.
Um deles exibe um gráfico do Centro Internacional de Epidemiologia de Desastres mostrando que, em cem anos, as mortes causadas por desastres climáticos caíram 96%.
Uma curva tão eloquente que dispensa interpretação: de 500 mil mortes em 1925 para menos de 50 mil hoje.
Em seu livro, Narloch afirma que os combustíveis fósseis — vilões oficiais da COP — foram justamente os motores que permitiram crescimento econômico, avanços tecnológicos, produção de alimentos em larga escala, transporte eficiente e prosperidade humana.
Critica mantras como o da “justiça climática” e denuncia o incentivo ao catastrofismo: prever o fim do mundo, diz ele, dá mais prestígio do que reconhecer que muitos indicadores melhoraram.
Enquanto isso, nos pavilhões, teto e discurso competiam para ver qual cederia primeiro. O ar-condicionado falhava, a segurança vacilava e o anfitrião tentava explicar como um evento ambiental nasceu da derrubada de uma floresta inteira.
Assim, a conferência que pretendia ser o triunfo climático brasileiro acabou se transformando na COP das contradições — e numa vitrine involuntária de tudo o que o governo preferia deixar fora de foco.
No fim, a COP30 era para ser o grande cartão-postal ambiental do país. Mas nada arranha uma narrativa tão rapidamente quanto a realidade entrando pela porta — ou, em Belém, pelo teto.
Quando até a ONU precisa enviar cartas cobrando o básico e quando 100 mil árvores tombam para recepcionar ambientalistas, não há discurso que resista ao calor. Literalmente.

*Jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.
Fonte Extra







