Por Caio Gottlieb*
Não é apenas mais um escândalo financeiro. O caso do Banco Master já se impõe como um capítulo didático da história brasileira recente, desses que no futuro serão estudados não pelo tamanho da fraude, mas pela engenharia institucional montada para que não se apure coisa alguma.
Há método, há estratégia e há determinação. Nada do que se vê é improviso.
Quando o Banco Central fez o que lhe cabia — desvendou fraudes bilionárias e determinou a liquidação do banco —, criou-se um constrangimento. Não para o sistema financeiro, mas para o sistema de poder. A partir daí, a investigação passou a ser tratada não como dever de Estado, mas como ameaça a ser contida.
A Polícia Federal, também, agiu com presteza. Investigou, apreendeu, avançou. O problema não estava na apuração técnica, mas nas conexões políticas e jurídicas do dono do banco, Daniel Vorcaro, personagem absolutamente integrado ao establishment que hoje manda no país.
É nesse ponto que o Supremo Tribunal Federal deixa de ser observador e passa a ser ator central do enredo.
O ministro Dias Toffoli, relator do caso, decretou sigilo total nas investigações. No mesmo dia, embarcou em um jatinho rumo a Lima para assistir a um jogo do Palmeiras — ao lado de empresários e do advogado de um diretor do banco investigado. A justificativa formal para o sigilo? Um deputado federal supostamente envolvido, jamais identificado.
O que se seguiu foi um balé processual digno de manual de nulidades futuras: primeiro, o material apreendido sai da Polícia Federal e vai para o STF; depois, parte dele é liberada à PGR; em seguida, retorna à PF para perícia.
Investigadores e juristas não têm dúvidas: o caminho está sendo deliberadamente contaminado, não para esclarecer, mas para inviabilizar punições lá na frente.
Como se não bastasse, surgem vínculos familiares envolvendo o próprio relator — circunstância que, em qualquer democracia minimamente funcional, resultaria em suspeição imediata. No Brasil atual, virou apenas mais um detalhe inconveniente.
O quadro se agrava com a atuação do ministro Alexandre de Moraes que entra em cena quando vem à tona o espantoso contrato do escritório de advocacia de sua esposa com o Banco Master: cerca de 130 milhões de reais, em 36 suaves parcelas mensais. O contrato previa atuação junto a instituições públicas. Lobby puro.
A reação do magistrado não foi explicação, afastamento ou transparência. Foi a abertura, de ofício, de um inquérito para apurar o “vazamento” de informações sobre ministros da Corte — mirando a Receita Federal e o Coaf, órgãos sem prerrogativa de foro no STF.
Em outras palavras: investiga-se quem revelou o problema, não o problema.
Tudo isso acontece sob um pano de fundo já conhecido: um Supremo em condomínio com o governo federal, um Congresso em parte acumpliciado com as falcatruas e uma Brasília que tem interesse objetivo em salvar o banco e seu dono, sobretudo para evitar uma possível delação premiada do banqueiro, que poderia jogar meia República na fogueira.
Se dependesse dessa turma, o caso jamais teria sido investigado. Como não deu para segurar — diante da pressão da opinião pública, de setores do Congresso e de uma parte da imprensa que finalmente despertou —, optou-se pela segunda melhor alternativa: prejudicar ao máximo a investigação.
E então surge uma das pérolas da temporada.
Ao abordar o caso em uma cerimônia palaciana, o presidente Lula declarou, sem rubor algum, que “Nós nunca estivemos tão perto e nunca tivemos tanta oportunidade, tanta chance de chegar ao andar de cima da corrupção e do crime organizado neste país como agora”.
É o suprassumo da desfaçatez e do cinismo.
Ele bem sabe que Brasil já chegou, sim, ao andar de cima. Chegou com a Lava Jato. Chegou quando grandes empreiteiras foram desnudadas, quando políticos e empresários de alto coturno foram presos, quando bilhões foram recuperados, quando a roubalheira na Petrobras veio à tona.
Chegou, sim — e o próprio Supremo Tribunal Federal se encarregou de desmontar tudo, anular sentenças, penas e multas, e sepultar o maior esforço de enfrentamento à corrupção da história republicana, coroando a obra com o cancelamento das condenações do próprio Lula, reabilitando-o para voltar à presidência.
Agora, o petista posa de paladino tardio de uma limpeza que a confraria de poder que ele lidera fez questão de impedir.
Para completar o retrato, os três maiores jornais do país — Folha de S. Paulo, Estadão e O Globo — publicaram editoriais duros contra os abusos e distorções do STF. Fazem bem. Mas fariam melhor se reconhecessem que também ajudaram a construir esse estado de coisas, ao tolerar e normalizar arbitrariedades cometidas contra o governo Bolsonaro, durante o mandato, na campanha eleitoral e nas ações judiciais instauradas para perseguir o ex-presidente, ancoradas em narrativas que jamais se confirmaram.
O caso Banco Master não é somente o escândalo do momento.
É o manual definitivo da impunidade brasileira contemporânea, escancarando a podridão das relações promíscuas que envolvem membros da alta cúpula do judiciário e figurões do governo, da Câmara e do Senado com empresários desonestos, verdadeiros meliantes de colarinho branco.
Uma organização criminosa de fazer inveja ao PCC e ao Comando Vermelho.
Não faltam provas. Não faltam fatos. Não falta indignação pública.
O que falta é gente séria no comando das instituições que formam a nação, hoje entregues nas mãos de um bando de vigaristas.
Estamos num beco sem saída.

- Caio Gottlieb é jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.







