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Crime Organizado S/A: o império invisível que já opera na economia formal

Por Caio Gottlieb*

Se o crime organizado fosse um conglomerado empresarial, seria hoje uma das maiores corporações da América Latina. Teria capital aberto, presença internacional, atuação em múltiplos setores da economia, conexões com grupos insurgentes, divisão de lucros, cadeia produtiva própria e uma estrutura de governança mais eficaz que a de muitos ministérios. E, de fato, é isso que ele se tornou — especialmente o Primeiro Comando da Capital, o PCC, tratado hoje por especialistas como um verdadeiro cartel transnacional da droga, com braços na Ásia, América do Sul e Europa.

Enquanto isso, o governo brasileiro se enrola em disputas internas, disputa narrativa com a oposição e empaca há meses um projeto de lei crucial contra o crime organizado, que deveria ser tratado como prioridade de Estado — mas segue esquecido nas gavetas do Ministério da Justiça, como um rascunho inconveniente que ninguém quer assinar.

Foi para expor essa tragédia institucional que o promotor Lincoln Gakiya, há anos atuando no Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo — e hoje inimigo número um das facções criminosas —, subiu ao palco do Auditório Safra, na USP, sob escolta discreta. Jurado de morte pelo PCC, vive sob proteção constante, acompanhado por policiais mesmo fora do expediente. Conhecido e respeitado nacional e internacionalmente, Gakiya tem sido a voz mais firme e incômoda contra o avanço silencioso da criminalidade organizada no Brasil.

No seminário “Crime Organizado e Mercados Ilícitos na América Latina”, promovido pela Cátedra Oswaldo Aranha da USP, Gakiya foi direto: o PCC já é uma organização de perfil terrorista, opera em 13 setores da economia formal, domina o sistema prisional e se ramificou até Hong Kong, Líbano, Turquia e Japão, onde o quilo da cocaína pode chegar a US$ 150 mil. Uma engrenagem criminosa que gira com inteligência, audácia e ausência total de limites.

O relato é estarrecedor. Do tráfico local à internacionalização, da periferia ao sistema bancário, das celas ao câmbio global. O PCC é hoje dono de postos de gasolina, agências de veículos, construtoras, casas de câmbio, empresas de ônibus, igrejas, clínicas conveniadas ao SUS, mineradoras, operações de apostas, times de futebol e até fundos de investimento. Lavagem de dinheiro? Sim, mas com lucro real. As empresas já não são de fachada — prestam serviços, pagam impostos, empregam pessoas. São tão legais quanto legalizadas.

Enquanto isso, o governo Lula, com seus discursos sobre justiça social e democracia combativa, resiste a declarar as facções como organizações terroristas. Recusa-se, com desculpas esfarrapadas, a reconhecer o óbvio: que grupos que explodem bancos, sitiam cidades, sequestram agentes públicos e espalham medo sistemático entre os cidadãos são, sim, terroristas em sua essência. Negar essa classificação é como se recusar a chamar um incêndio de fogo por medo de apagar a tocha errada.

Atribuir ao governo, sem provas, qualquer cumplicidade com as facções criminosas, seria, obviamente uma leviandade. Mas o que se pode afirmar, sim, é que o Palácio do Planalto se esforça com dedicação, denodo e afinco para que a população alimente essa suspeita. Primeiro, priorizou uma PEC da Segurança — frágil, politicamente polêmica e de alto custo federativo — em detrimento da lei antimáfia, que já deveria ter sido enviada ao Congresso meses atrás. Depois, deixou a proposta emperrada, entre brigas corporativistas e hesitações inexplicáveis, mesmo após prometer que estaria pronta em maio. Depois em junho. Agora, ninguém mais aposta em datas.

Enquanto isso, a Itália, com sua longa história de enfrentamento à máfia, oferece modelos eficazes de combate e cooperação. O procurador nacional antimáfia da Itália, Giovanni Melillo, presente ao seminário, não deixou dúvidas: o combate à criminalidade organizada exige os mesmos instrumentos usados contra o terrorismo, porque ambas têm o mesmo poder de desestabilização social e institucional. “As organizações mafiosas não são apenas criminosas — são políticas, econômicas e culturais. Têm raízes profundas no tecido da sociedade. E combatê-las é mais difícil do que enfrentar o terrorismo.”

A colaboração entre Brasil e Itália já trouxe resultados: o mafioso Vincenzo Pasquino, preso no Brasil e extraditado em 2021, firmou acordo de delação que deu origem à Operação Mafiusi, da Polícia Federal, e à Operação Samba, da promotoria italiana. Essa conexão entre a máfia calabresa e o PCC revela que o crime já não tem passaporte — mas tem logística, contatos, assessoria jurídica e know-how transnacional.

A omissão brasileira, portanto, não é apenas negligência legislativa. É risco estratégico. É abrir mão da soberania sobre vastos territórios urbanos onde o poder já não é do Estado. O crime criou sua pax mafiosa em São Paulo e, como disse Gakiya, reduziu a taxa de homicídios não porque a segurança pública melhorou, mas porque eliminou os concorrentes. O domínio territorial, aliás, é um dos pontos centrais que a nova lei deveria transformar em delito autônomo — e até isso está parado.

É irônico — e doloroso — que um país com tanto empenho em regular discursos, censurar redes e patrulhar palavras, trate com tamanha lentidão o verdadeiro discurso do terror, armado até os dentes, financiado pelo narcotráfico e protegido pela inércia institucional.

As facções, no fim, não se tornaram apenas estados paralelos. Tornaram-se estados investidores, globalizados, lucrativos — e, cada vez mais, legais.

E diante disso, o governo segue recusando-se a nomear o problema pelo nome que tem. Declarar as facções como organizações terroristas não é uma questão semântica — é abrir caminho para o endurecimento das penas, permitir bloqueios de bens, articular cooperação internacional, acionar sistemas financeiros globais e tratar o crime como o que de fato é: uma ameaça transnacional.

Negar essa realidade é como assistir ao incêndio do país de braços cruzados, sob o pretexto de que não se quer espalhar pânico. Enquanto isso, quem espalha o pânico já tem CNPJ, contrato social e contas em paraísos fiscais.

O Brasil precisa urgentemente de um Nayib Bukele.


*Jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, agência de propaganda com mais de três décadas de atuação em Cascavel e no oeste do Paraná. Paranaense de Pato Branco, Caio Gottlieb é um dos pioneiros do telejornalismo no interior do Estado. Atuando na TV Tarobá desde os primórdios da emissora, ele produz e apresenta o tradicional programa de entrevistas Jogo Aberto, um dos mais tradicionais programas de entrevistas da TV brasileira, que está na grade da emissora desde a sua fundação em 1979.

Fonte Extra

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