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Escala 6×1: a marcha da insensatez

Por Caio Gottlieb*

O Brasil descobriu, às vésperas de mais uma eleição, que trabalhar seis dias por semana é um escândalo civilizatório.

A escala 6×1, que regula a jornada da maioria dos trabalhadores brasileiros desde a Consolidação das Leis do Trabalho, virou de repente o símbolo de um atraso que Brasília promete, num golpe de caneta, varrer da história.

Congresso e Executivo disputam a paternidade da bondade. O trabalhador, supõe-se, deveria aplaudir. O empresário, que pagará a conta, não foi convidado para o espetáculo.

Não se trata aqui de defender a exaustão como virtude, nem de erguer bandeira contra mais dias de descanso para o trabalhador brasileiro. O problema não é o destino. É a pressa. É a superficialidade. É o calendário eleitoral disfarçado de senso de urgência histórica.

O presidente da Câmara, Hugo Motta, chegou a comparar os críticos do projeto àqueles que, no passado, teriam sido contrários à abolição da escravatura ou à criação da carteira de trabalho. A analogia é tão intelectualmente pobre que quase dispensa comentário — mas não dispensa.

Colocar no mesmo patamar uma causa civilizatória, como o fim da escravidão, e uma mudança na legislação trabalhista cujos impactos econômicos são profundos e controversos não é argumento. É demagogia com verniz histórico, do tipo que floresce bem em ano eleitoral.

A realidade, teimosa como sempre, apresenta números incômodos. O Brasil ocupa a 58ª posição, entre 69 países, no Ranking de Produtividade do IMD. Ficamos atrás de Bulgária e Quênia. Entre 1995 e 2024, apenas o agronegócio registrou ganhos consistentes de produtividade no país — o restante da economia patinou ou regrediu.

Reduzir a jornada de trabalho sem enfrentar esse abismo é como decorar a fachada de uma casa com a fundação rachada.

Os números da FGV são objetivos: uma redução da jornada para 40 horas semanais implicaria perda de 2,6% da renda da economia. Se chegasse a 36 horas, o tombo seria de 7,4% — comparável à recessão do governo Dilma. Inflação, custo empresarial, desemprego: a conta não desaparece porque ninguém a menciona no palanque.

E é exatamente essa a questão central que o debate atual teima em ignorar. Quem produz, quem emprega, quem assina o cheque no fim do mês não está sentado à mesa. O setor produtivo foi convocado apenas para pagar — não para argumentar, apresentar dados ou propor alternativas. Numa democracia que se quer séria, isso seria chamado pelo nome que merece.

Reduzir a jornada de trabalho pode ser, sim, um objetivo legítimo e desejável — para um país que primeiro enfrente sua produtividade medíocre, que construa as condições econômicas para absorver esse custo sem transferi-lo ao preço do pão e ao salário de quem se quer proteger.

Mas esse não é o Brasil de hoje. É o Brasil que se quer vender nas urnas de outubro.

E quando a campanha acabar, quando os palanques desmontarem e os discursos históricos evaporarem, a conta estará lá — concreta, silenciosa e inevitável.

A ser paga, como sempre, por quem não estava no palco.




*Caio Gottlieb, jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto

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