Em um discurso confuso na Organização das Nações Unidas (ONU), em 2015, a ex-presidente Dilma Rousseff lamentou a falta de tecnologia para “estocar” vento. A fala, que virou piada nacional, referia-se à energia e à necessidade de armazenar a geração excedente, principalmente de usinas eólicas e solares.
Uma década depois, essa necessidade apenas cresceu, a ponto de especialistas do setor vislumbrarem um colapso nos próximos meses caso a gestão do Sistema Interligado Nacional (SIN) não adote baterias para compensar as variações no fornecimento: sobra de dia e falta à noite.
A diferença é que agora há tecnologia disponível, conhecida como BESS (Battery Energy Storage System ou, traduzindo, Sistema de Armazenamento de Energia em Baterias), amplamente utilizada na China, nos EUA e na Europa, e que tem ganhado cada vez mais mercado no Brasil.
Um anúncio oportuno ocorreu no início do mês. A brasileira WEG, uma das maiores fabricantes de equipamentos elétricos do mundo, apresentou o projeto de uma fábrica em Itajaí (SC). A unidade será dedicada à produção de sistemas BESS, com capacidade de estocar a energia gerada por fontes renováveis como o sol e, sim, o vento.
O que tornou o anúncio ainda mais estratégico foi a declaração, há duas semanas, na quarta-feira (11), do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, de que o país realizará o primeiro leilão de baterias de armazenamento do Brasil até junho deste ano.
Fábrica automatizada e com robôs
A nova fábrica da WEG em Santa Catarina não é a primeira do grupo voltada à produção de baterias BESS. Equipamentos com essa tecnologia já integravam a linha de montagem do ecossistema industrial da empresa em Jaraguá do Sul (SC), cidade onde a gigante foi fundada.
A diferença da unidade em Itajaí será a dedicação exclusiva, o que deve ampliar a capacidade produtiva do grupo para até 2 GWh ao ano. Isso representa 400 sistemas de 5 MWh, capazes de manter cerca de 400 mil residências em funcionamento por um dia inteiro, exclusivamente com a energia das baterias.
Um dos diferenciais da nova planta é o alto nível de automação, com linhas automáticas e semiautomáticas de montagem, além do uso de robôs móveis autônomos para movimentações internas. Para se ter uma ideia do grau de modernidade, o anúncio da empresa menciona a geração de 90 novos empregos diretos, número que pode soar pequeno para uma estrutura cujo investimento é de R$ 280 milhões.
O complexo também abrigará um laboratório dedicado a testes, desenvolvimento e qualificação de produtos, responsável por aprimorar processos, reforçar o controle de qualidade e acelerar a criação de novas soluções. A infraestrutura incluirá, ainda, uma subestação de energia para a simulação de condições reais de operação.
“Trata-se de um investimento alinhado com o objetivo estratégico de posicionar a WEG e o Brasil de forma mais competitiva no cenário global de transição energética, mitigando riscos e fortalecendo a presença nacional nesse segmento em expansão”, explicou o presidente da WEG, Alberto Kuba.
Para viabilizar o projeto, o grupo contou com financiamento do programa BNDES Mais Inovação, aprovado no âmbito da chamada pública voltada à transformação de minerais estratégicos para a transição energética e descarbonização, realizada em parceria com a Finep.

Apagão geral’ é, na verdade, um eclipse lunar total que acontecerá no dia 3 de março. (Foto: Canva/ND Mais)
Leilão é alternativa para evitar apagão
Os sistemas de armazenamento de energia em baterias são essenciais para a estabilidade das redes elétricas, especialmente com o avanço das fontes renováveis, como a solar e a eólica. Eles permitem armazenar energia em períodos de alta geração para liberá-la quando necessário, contribuindo para a confiabilidade do sistema e reduzindo os riscos de apagões.
No Brasil, a Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae) identifica três usos mais representativos da tecnologia BESS atualmente. Um deles está em operação no Amazonas, estado onde mais de 200 localidades estão desconectadas do SIN e são altamente dependentes de termelétricas à base de óleo diesel. Outro projeto relevante foi instalado no município de Registro (SP), voltado à segurança energética do agronegócio local. Além desses dois, há iniciativas isoladas em indústrias e comércios por todo o país.
“O leilão é necessário para ampliar essa capacidade de armazenamento, que hoje gira em torno de 1 GWh, mas também é a única alternativa para evitar um apagão”, afirmou o presidente da Absae, Markus Vlasits.
Para ele, o Brasil está atrasado em relação ao restante do mundo, onde já há uma capacidade instalada de 250 GWh, com operações consolidadas em países como China, Alemanha, Estados Unidos e até no Chile. A estimativa é de que, até 2034, essa tecnologia movimente globalmente mais de R$ 80 bilhões em investimentos.
As peças no tabuleiro começam a se mover
No caso do leilão brasileiro de baterias, previsto para junho de 2026, Vlasits estima que o certame possa atrair até R$ 10 bilhões em projetos. Isso ocorre porque o Ministério de Minas e Energia já havia anunciado um leilão do tipo para a metade do ano passado, o que acabou não se concretizando.
“Os interessados estão com as propostas prontas para essa concorrência desde o ano passado e a expectativa é que sejam oferecidos mais de 20 GW em projetos, o equivalente a dez vezes o que o governo espera contratar [2 GW]”, comentou.
Isso não quer dizer, contudo, que o certame não possa ser adiado novamente. Há uma preocupação no setor de que o prazo seja apertado, visto que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ainda não incorporou as mudanças da reforma do setor elétrico (Lei nº 15.269/2025) na regulamentação sobre o uso da tecnologia BESS no país.
Por outro lado, a necessidade urgente de integração de um sistema de armazenamento ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e alguns movimentos recentes do governo dão indícios de que a viabilização é real. No final de janeiro deste ano, o ministro de Minas e Energia esteve na China para atrair o interesse de gigantes como a Huawei e a CATL, a maior fabricante de baterias do mundo.

Baterias Weg (divulgação)
Por que o armazenamento de energia importa?
Grande parte da necessidade de integrar baterias do tipo BESS ao sistema elétrico brasileiro advém do aumento no número de usinas eólicas e solares. Ambas apresentam um obstáculo logístico: o descompasso temporal.
Como a eletricidade gerada por ventos e painéis fotovoltaicos é injetada no sistema no exato momento da produção, nem sempre a oferta coincide com os horários de maior consumo. O cenário atual apresenta os seguintes desafios:
- Vento: os picos de intensidade geralmente ocorrem durante a madrugada, período em que a demanda industrial e residencial é mínima.
- Sol: a geração encerra-se justamente antes do “horário de ponta” (entre 18h e 21h), momento em que o consumo de energia no país atinge seu ápice.

Eólica e solar. (Divulgação/Solar Prime)
Essa falta de sincronia faz com que, em muitos casos, o excedente de energia limpa seja desperdiçado por não haver meios de aproveitá-lo ou armazená-lo de imediato.
Para resolver essa lacuna, os sistemas de armazenamento em baterias surgem como uma solução vital. Eles permitem “estocar” o excesso produzido para uso posterior, diminuindo a dependência de fontes mais caras e poluentes, como as termelétricas, que atualmente são acionadas para compensar a variação de potência na rede.
Fonte Extra com Marcone Tavella/Gazeta do Povo







