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Ficção científica ou profecia?

Por Caio Gottlieb*

Existe uma pergunta que a economia nunca precisou fazer antes: o que acontece quando o recurso mais escasso do planeta deixa de ser escasso?

Durante séculos, a inteligência humana foi o ativo insubstituível que moveu civilizações e justificou salários. Era o único insumo que nenhuma máquina conseguia replicar. Até agora.

Dias atrás, um post publicado numa plataforma de newsletters foi suficiente para derrubar bilhões de dólares em valor de mercado das maiores companhias do mundo.

O culpado não era um banco central, nem uma guerra deflagrada de madrugada. Era um blog post. As ações de Datadog, CrowdStrike e Zscaler despencaram mais de 9% cada. A IBM registrou queda de 13% — seu pior desempenho em um único dia desde 2000. American Express recuou 7%; JPMorgan, Citigroup e Morgan Stanley perderam mais de 4%; Mastercard e Visa cederam mais de 4%.

Tudo isso por causa de um texto que seus próprios autores classificam como hipotético.

A publicação é obra da Citrini Research, um dos canais mais lidos do mercado financeiro internacional, fundado pelo investidor James van Gleek.

Intitulado “A Crise Global de Inteligência de 2028”, é um exercício de futurologia — uma viagem ao amanhã com data de retorno marcada para 30 de junho de 2028. Ficção, portanto. Ou quase.

O enredo é simples e brutal: agentes de inteligência artificial replicam funcionalidades de softwares corporativos, tornando desnecessárias as licenças que hoje sustentam empresas inteiras.

As desenvolvedoras respondem demitindo humanos e contratando mais IA para cortar custos. A economia gerada pela substituição de trabalhadores financia ferramentas ainda mais sofisticadas para substituir mais trabalhadores.

Um ciclo que se alimenta de si mesmo com a elegância perversa de uma cobra devorando a própria cauda.

Em 2027, os agentes de IA já tomam decisões de compra em nosso lugar — e passam a transacionar entre si em criptomoedas, eliminando as taxas que sustentam gigantes como Visa e Mastercard.

Parte do tombo da IBM, vale registrar, veio de uma notícia real: o Claude, assistente da Anthropic, demonstrou capacidade de atualizar COBOL, a linguagem que sustenta sistemas bancários há décadas. Serviço que consultores cobram fortunas para prestar. A IA faz o mesmo. Mais barato. Sem pedido de aumento no fim do ano.

O conceito central do memorando é o que van Gleek batizou de “ghost GDP” — o PIB fantasma. A inteligência artificial aumenta a produtividade e o tamanho nominal das economias, mas provoca desemprego em massa. O resultado é uma riqueza ilusória: o PIB cresce no papel, mas o dinheiro para de circular porque máquinas não consomem bens. Não pagam aluguel. Não adoecem. Não tiram férias.

Sem consumo real, o crédito privado desmorona, o mercado imobiliário afunda e economias baseadas em serviços entram em colapso.

É apocalíptico? Sem dúvida. É improvável? Nem tanto. A Citrini não inventou nada: apenas projetou, em velocidade acelerada, tendências que já estão em curso. Amazon, Expedia, Pinterest e milhares de empresas ao redor do mundo já promovem cortes profundos de pessoal atribuídos à automação por IA.

Trabalhadores altamente qualificados migram para funções operacionais com salários menores, porque aquilo que faziam com anos de formação a máquina executa em segundos.

O que antes exigia talento humano raro tornou-se commodity. E commodities têm o preço inexoravelmente comprimido.

Refeitos do exagerado pânico inicial provocado por um mero ensaio futurístico, os mercados se recuperaram. O alívio voltou. Mas a pergunta permanece — e ela não tem prazo de validade.

Se tudo aquilo que nos tornava insubstituíveis pode agora ser replicado por uma máquina, o que exatamente nos resta?

A resposta, convenhamos, ainda está sendo escrita. E desta vez, nem todos os autores são humanos.



*Caio Gottlieb, jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.


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