Por Caio Gottlieb*
Há um velho recurso na política brasileira — tão antigo quanto ineficaz — que consiste em transformar o antecessor em bode expiatório permanente.
O governo Lula, por intermédio do ministro Fernando Haddad, elevou essa prática a um novo patamar retórico: chamou de “estupro das contas públicas” a gestão fiscal de Jair Bolsonaro e denunciou o que seria “a maquiagem contábil mais ardilosa já vista na história do Brasil”.
São palavras fortes. Fortes o bastante para merecerem o confronto com aquilo que costuma ser mais teimoso do que qualquer discurso: os números.
A reportagem de Vandré Kramer na Gazeta do Povo reconstrói, com dados oficiais, a trajetória fiscal dos últimos governos — e o que emerge dessa reconstrução é um retrato constrangedor para quem aponta o dedo na direção do Planalto anterior.
Em 2022, último ano de Bolsonaro, o Brasil registrou superávit primário de 1,25% do PIB, o melhor resultado em oito anos.
Houve, sim, contribuição de receitas extraordinárias e da retomada pós-pandemia. Mas houve, sobretudo, contenção.
O crescimento real da despesa ao longo de todo o governo Bolsonaro — incluídos os gastos emergenciais da pandemia, que levaram o déficit primário ao pico de 9,2% do PIB em dezembro de 2020 — foi de 5,6%.
Nove meses depois daquele pico, o déficit já havia recuado para menos de 1%. A correção de rota foi célere e verificável.
O que fez o governo Lula com a casa que, segundo alega, recebeu em desordem? Desordenou-a de fato.
Em 36 meses de gestão, as contas públicas registraram resultado positivo em apenas sete, sempre amparado por receitas extraordinárias — aquele mesmo expediente que Haddad critica no antecessor, mas do qual se vale sistematicamente sem lograr sequer sair do vermelho.
O déficit primário encerrou 2025 em 0,43% do PIB, ligeiramente pior que os 0,4% de 2024. O crescimento real da despesa no período de 2023 a 2025 alcançou 15,4% — quase três vezes o registrado em todo o quadriênio anterior —, o equivalente a mais de R$ 324,5 bilhões adicionais.
Não se trata de herança. Trata-se de escolha.
A dívida pública, esse termômetro implacável da responsabilidade fiscal, saltou sete pontos percentuais no terceiro mandato de Lula, alcançando 78,7% do PIB — crescimento equivalente ao acumulado nos sete anos anteriores.
O esforço fiscal necessário para estabilizar a dívida já se aproxima de 4% do PIB, superior ao exigido após o governo Dilma — aquele mesmo governo cujas contas o próprio PT reconhecia, à época, como problemáticas.
A comparação histórica, aliás, é a peça mais reveladora desse quebra-cabeça.
Quando Bolsonaro deixou o Planalto, o ajuste necessário era de 0,7% do PIB. Ao fim do governo Temer, de 1,2%. Ao fim de Dilma, de 3,5%.
O terceiro mandato de Lula caminha para superar até mesmo a desastrosa marca dilmista — e isso a três anos do fim.
A trajetória se assemelha menos aos dois primeiros mandatos de Lula, que mantiveram superávits mesmo sob a crise global de 2008, e mais ao descalabro fiscal que culminou no impeachment de 2016.
As projeções são de causar vertigem. Segundo o boletim Focus do Banco Central, a dívida deve alcançar 83,8% do PIB ao fim de 2026, 90% em 2028 e 100% em 2035.
A Instituição Fiscal Independente do Senado é ainda mais sombria no horizonte mais longo: projeta 117,7% do PIB em 2035 no cenário base e, no adverso, 162,2% — um patamar que colocaria o Brasil em território de crise soberana.
O déficit nominal, que inclui os juros da dívida, saltou de 4,9% do PIB no início do mandato para 9,3% ao fim de 2025, o maior nível do período.
Diante desse quadro, insistir na tese da “herança maldita” é um exercício de prestidigitação narrativa que os próprios dados desautorizam.
A herança que Bolsonaro deixou foi um superávit, um ajuste fiscal de 0,7% do PIB e uma trajetória de dívida em desaceleração.
O que veio depois foi obra do inquilino seguinte. E nenhuma retórica, por mais inflamada que seja, consegue transformar três anos consecutivos de déficit, explosão de gastos e endividamento galopante em culpa de quem já saiu de cena.
O resto é desculpa esfarrapada, melodrama eleitoreiro e a pura demagogia de quem gasta demais e explica de menos.
E quando a conta chegar — porque sempre chega — não será o Planalto quem apertará o cinto: serão os brasileiros, pagando mais impostos, recebendo menos serviços e sustentando, do próprio bolso, a ressaca de uma festa para a qual não foram convidados.
Em resumo: nada é tão ruim que não possa piorar.

*Caio Gottlieb: Jornalista e publicitário, fundador e diretor da Agência Caio. Apresentador do programa Conexão Tarobá, na TV Tarobá. Um espaço de opinião, bastidores e análise sem filtro








