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Master: da fraude financeira às orgias na mansão de Trancoso

Por Caio Gottlieb*

Todo grande escândalo brasileiro começa nos números e termina nos bastidores. Primeiro vêm as cifras — frias, técnicas, quase assépticas. Depois surgem as relações, os jantares, os encontros reservados. E, quando o enredo amadurece, a planilha encontra o champanhe. Foi assim em outros momentos da nossa história recente. E é exatamente esse o ponto em que parece estar o caso do Banco Master.

O escândalo já era suficientemente explosivo. Liquidação extrajudicial. Mais de R$ 50 bilhões potencialmente comprometidos no Fundo Garantidor de Crédito. Cerca de R$ 12 bilhões em títulos sem lastro espalhados pelo mercado. Um terremoto financeiro com efeitos ainda imprevisíveis.

Mas como todo grande escândalo brasileiro que se preze, ele não ficaria restrito às planilhas.

Agora o caso ganha contornos que misturam luxo, sexo, poder e — segundo investigações em curso — possível tráfico de influência. E não se trata de boato de rede social. São mensagens anexadas a processo judicial, reportagens da grande imprensa e uma representação formal do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União pedindo investigação.

O que era crise bancária virou roteiro de streaming.

O ponto de partida foi um processo envolvendo a venda de uma mansão em Trancoso (BA), imóvel que passou a ser associado a festas promovidas por Daniel Vorcaro, o famoso dono do banco.

Antes de ser adquirida por ele — por cifra estimada em centenas de milhões — a residência pertencia à empresária Sandra Habib, que a alugava ao banqueiro. E foi aí que as coisas começaram a vazar.

Mensagens de WhatsApp anexadas ao processo revelam a indignação da proprietária. Em 5 de outubro de 2022, véspera do aniversário de Vorcaro, ela escreveu ao corretor de imóveis que intermediava a locação: “O Vorcaro encheu a minha casa de p…!” (omito aqui a palavra completa em respeito aos leitores) “Ele, amigos e muitas p…! Desde antes de ontem, reclamações por causa do som acima do permitido. Ontem foi pior!”

Conforme os relatos, mais de 30 pessoas teriam sido levadas ao luxuoso endereço, com som acima do permitido e presença de garotas de programa. Funcionários teriam ficado “chocados” com a movimentação.

O Ministério Público, diante das reportagens, levou o caso ao TCU. As perguntas não são morais. São institucionais: houve participação de autoridades públicas federais nesses eventos? Houve uso de recursos públicos em viagens ou deslocamentos? Houve favorecimento indevido?

É isso que está sendo apurado.

A representação cita reportagens que apontam presença de altos figurões dos Três Poderes, integrantes do mercado financeiro e do meio jurídico. Os encontros não se limitariam à Bahia: também teriam ocorrido em São Paulo, Nova York e Lisboa.

O padrão descrito é de ostentação explícita:

Mulheres estrangeiras — russas, ucranianas e croatas — trazidas de jatinho da Europa. Caviar e vinhos raros, com garrafas que podem ultrapassar R$ 50 mil. Proibição de celulares na entrada. Rumores sobre gravações feitas pelo próprio anfitrião.

O apelido “Cine Trancoso” não surgiu por acaso.

Segundo reportagem da revista digital Liberta, uma fonte afirma ter assistido a um suposto vídeo exibido numa reunião de board de uma distribuidora de valores mobiliários. O material, segundo o relato, seria uma compilação de cenas dessas festas.

Nada foi oficialmente confirmado. Mas o simples fato de a hipótese existir já provoca o que Brasília conhece como “pânico preventivo”.

O celular de Vorcaro, que dizem conter algumas dessas imagens, encontra-se sob custódia da Polícia Federal, mas isso não é garantia de que não possam vir a público.

Há relatos também de um “after” em Lisboa, na sequência do conhecido fórum jurídico promovido anualmente pelo ministro Gilmar Mendes — apelidado pelos jornalistas de “Gilmarpalooza”, numa referência ao festival musical paulistano. O evento é célebre exatamente pela mistura de autoridades, empresários e lobistas num mesmo ambiente. Dizem que no dia seguinte os participantes só falavam da festa do banqueiro…

Alguns teriam viajado acompanhados de esposas ou namoradas. A circulação de mulheres convidadas por Vorcaro em ambientes públicos despertou desconfiança e comentários pouco discretos.

Fontes citadas afirmam ainda que algumas dessas mulheres teriam recebido mesadas, hospedagem em hotéis de luxo e atuado na articulação de novas convidadas.

A defesa do ex-banqueiro sustenta que se trata de conteúdos carregados de juízo moral e que a vida privada não deveria ser objeto de exploração pública.

E, de fato, ninguém tem o direito de legislar sobre o quarto alheio. Adultos consentindo entre si não são assunto do Estado.

O problema não é o sexo. O problema é o contexto.

Quando festas privadas reúnem autoridades dos Três Poderes, banqueiros sob investigação e operadores do mercado financeiro, o debate deixa de ser moral e passa a ser institucional.

O que se apura não é a devassidão. É a eventual promiscuidade entre dinheiro, influência e decisões públicas.

Vorcaro sempre foi descrito como alguém de trânsito fácil em Brasília. Capaz de cultivar relações amplas, de circular entre diferentes governos, de construir pontes entre o mercado e o poder político.

Se as festas eram apenas festas, o tempo dirá. Se eram também ambientes de aproximação estratégica, cooptação ou blindagem institucional, a história será outra.

E aqui entra o ponto sensível.

Um banqueiro sob investigação, cujo banco entra em liquidação, que tem relações transversais com Executivo, Legislativo e Judiciário, e que, segundo relatos, poderia ter registrado momentos íntimos de figuras poderosas — é um personagem que provoca insônia.

Não é difícil imaginar o clima nos gabinetes.

O Banco Central resistiu às pressões e manteve a liquidação. Mas o jogo político ainda está em curso. E ninguém ignora que escândalos dessa natureza raramente morrem sozinhos.

A pergunta inevitável permanece: se isso já veio à tona, o que ainda está guardado?

Porque, na história brasileira, quando dinheiro fácil encontra poder desmedido e intimidade comprometida, o resultado raramente é apenas constrangimento social. É abalo sísmico institucional.

O que tínhamos até então era uma crise provocada por um banco que vendia títulos podres. O que estamos vendo agora, na esteira do escândalo, são revelações que podem desnudar de vez os podres do poder.



*Caio Gottlieb, jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto

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