Por André Becker*
As recentes declarações do presidente Lula sobre a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos merecem uma reflexão séria. Não porque o Brasil deva abrir mão de sua soberania, mas porque o problema enfrentado pela população ultrapassou, há muito tempo, o campo das disputas diplomáticas.
Ao afirmar que “nós queremos os terroristas brasileiros que estão lá”, o presidente talvez tenha recorrido a uma expressão casual. Ainda assim, a frase soa estranha aos ouvidos de uma sociedade que convive diariamente com o medo imposto por facções criminosas. Afinal, não existem “nossos terroristas”. Existem criminosos que desafiam o Estado, dominam territórios, recrutam jovens, movimentam bilhões de reais e espalham violência por todo o país.
O debate central não deveria girar em torno da semântica adotada por Washington, mas sim sobre o motivo de o crime organizado nacional ter alcançado um patamar que hoje desperta preocupação internacional.
O cidadão comum não está preocupado com as minúcias diplomáticas entre Brasília e Washington; sua urgência é com a realidade das ruas. Preocupa-o ver cidades onde o tráfico dita as regras, fronteiras vulneráveis, o avanço das facções sobre setores da economia legal e a sensação crescente de que o crime possui uma capacidade de articulação que desafia o próprio poder público.
Outro ponto que chama a atenção é a cobrança de reciprocidade feita pelo presidente. A quem, exatamente, ela se refere? A criminosos procurados pela Justiça brasileira? Se for esse o caso, a cooperação internacional é desejável e necessária. No entanto, a declaração ambígua acabou abrindo margem para interpretações que geram mais dúvidas do que esclarecimentos.
Também é legítimo questionar o timing do discurso. O Partido dos Trabalhadores (PT) esteve no comando do governo federal durante grande parte dos últimos vinte anos. Se a crise da segurança pública é tão grave — e de fato é —, por que apenas agora surgem discursos mais contundentes?
- O que foi feito ao longo dessas duas décadas?
- O que deu certo e o que fracassou?
- Quais são as novas medidas concretas para além das declarações públicas?
Não se trata de defender a interferência estrangeira nos assuntos brasileiros — nenhum país soberano aceita isso —, tampouco de ignorar que os Estados Unidos agem movidos por seus próprios interesses estratégicos e econômicos na América Latina. A história demonstra que as grandes potências raramente operam por altruísmo. Contudo, não se pode permitir que a bandeira da soberania nacional seja usada como cortina de fumaça para evitar o debate essencial: o crime organizado tornou-se a maior ameaça ao desenvolvimento, à segurança e à liberdade dos brasileiros.
Se uma medida adotada por outro país aumenta a pressão sobre organizações que aterrorizam a nossa população, a reação mais adequada talvez não seja a indignação diplomática, mas a demonstração prática de que o Brasil lidera esse combate com firmeza, eficiência e resultados.
O povo brasileiro espera menos retórica e mais ação; menos debates sobre nomenclaturas e mais operações eficazes; menos justificativas e mais segurança. Porque, no final das contas, o pai que perde um filho para o tráfico, o comerciante extorquido e a família refém da violência não estão preocupados com a definição jurídica do terrorismo. Eles apenas querem o direito de viver em paz.

* André Lino Becker: Cidadão santa-helenense, defensor da fé cristã, da família e da sobriedade como caminho de restauração pessoal e social. Atuou como professor, bacharel em administração de empresas pela Unioeste e pós-graduado em gestão pública. Servidor público aposentado, foi dirigente sindical e líder comunitário atuando em pastorais. Atualmente é prestador de serviços na área da construção civil, como sócio-proprietário da Tecnobrocas.








