Por Caio Gottlieb*
Houve um tempo em que o Brasil entrava no carnaval. Hoje é o carnaval que tomou conta do Brasil — e já não tem data para acabar.
Era uma festa com começo, meio e fim.
Do sábado à terça-feira, famílias nos clubes, crianças correndo entre serpentinas, marchinhas que zombavam da vida sem degradá-la. Na quarta-feira de cinzas restava o “enterro dos ossos”: a despedida elegante de uma alegria que sabia a hora de parar.
O mundo via espontaneidade. Hoje vê avisos de segurança.
O mesmo país que antes exportava música agora exporta recomendações: cuidado com furtos, com golpes, com celulares, com o Pix, com a bebida adulterada, com a multidão comprimida, com o empurrão que vira pânico, com a rua que vira armadilha.
Neste ano, o carnaval deve movimentar R$ 14,5 bilhões. E junto com ele prospera a economia paralela: maquininhas adulteradas, QR codes falsos, clonagem de aparelhos, estelionato em escala industrial. A festa virou também a temporada nacional do golpe.
O folião já não escolhe apenas fantasia — escolhe risco.
Em São Paulo, na Avenida Consolação, 1,5 milhão de pessoas espremidas produziram o retrato literal do país: calor, desmaios, correria, ambulâncias tentando abrir caminho onde não havia mais caminho.
Não era exatamente alegria. Era escape coletivo. E então chega o capítulo inevitável do Brasil contemporâneo: a política.
Em 2022, nas comemorações do Bicentenário da Independência, Jair Bolsonaro discursou em atos públicos. O Tribunal Superior Eleitoral entendeu que houve abuso de poder político e econômico e, em 2023, declarou sua inelegibilidade.
O entendimento jurídico foi claro: um evento público não poderia ser utilizado como instrumento de promoção eleitoral.
É justamente esse precedente que traz a comparação inevitável ao presente.
Como de praxe, o governo federal destinou recursos públicos ao desfile das escolas de samba do Rio, só que uma delas levará para a avenida um samba-enredo em homenagem ao presidente Lula — que está no cargo e concorre à reeleição neste ano.
Não se discute aqui o financiamento do carnaval em si com dinheiro do contribuinte, prática antiga e já incorporada ao modelo da festa, ainda que discutível.
O ponto é outro: a personalização política do espetáculo.
Segundo juristas, em ampla maioria, situações dessa natureza se enquadram como propaganda eleitoral antecipada — tipificada como crime na legislação eleitoral.
Falta apenas que, no meio da Sapucaí, alguém peça votos.
A percepção pública, porém, é mais simples do que a linguagem jurídica: a severidade aplicada a um caso jamais se repetirá no outro.
Bolsonaro foi julgado por uma maioria formada por ministros indicados por governos do campo político hoje no poder. Lula, por sua vez, será eventualmente analisado por essa mesma composição. Tudo gente dele.
No Brasil atual, a punição muda de intensidade ou simplesmente some.
Aos inimigos, o rigor da lei. Aos amigos, lei nenhuma.
Mas talvez o aspecto mais revelador não esteja nos tribunais — e sim nas ruas.
Multidões alcoolizadas, consumo de drogas sem cerimônia, nudez explícita diante de crianças, violência oportunista, cidades tomadas, forças de segurança mobilizadas permanentemente.
Uma celebração que perdeu o limite e já não distingue liberdade de excesso.
O carnaval sempre foi metáfora nacional. Antes simbolizava leveza.
Hoje simboliza permissividade.
Antes era uma pausa da realidade.
Agora é a própria realidade sem disfarces.
O mundo ainda vê cores e música —
mas também enxerga desordem, esculhambação, selvageria e libertinagem.
E a pergunta inevitável permanece: é esse o Brasil que queremos mostrar ao mundo?

*Caio Gottlieb, jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.







