Por Caio Gottlieb*
Nem sempre as instituições corroídas caem de uma vez. Elas vão cedendo, camada por camada, até que um fato concreto rompe a encenação. O escândalo do Banco Master chegou exatamente a esse ponto.
Ao longo de semanas acumulou-se uma sequência de decisões consideradas controversas, para dizer o mínimo, no inquérito sob relatoria do ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli. Avanços seguidos de recuos, intervenções incomuns, movimentos que — para juristas, imprensa e opinião pública — pareciam apontar menos para a condução de uma investigação e mais para o controle dela.
O ato final foi a ordem de Toffoli para que a Polícia Federal lhe entregasse imediatamente os celulares apreendidos dos investigados. Um gesto interpretado por muitos como tentativa de acesso antecipado ao que a perícia ainda revelaria.
Pouco depois, veio o fato incontornável: informações extraídas do telefone do banqueiro Daniel Vorcaro chegaram ao Supremo e mencionavam diretamente o magistrado. A partir daí, não havia mais zona de conforto institucional.
Em nota pública, Toffoli confirmou ser sócio de empresa administrada por familiares que realizou negócios com fundo ligado ao banqueiro. Declarou não haver amizade e negou recebimento de valores do empresário. Porém, as próprias mensagens divulgadas indicavam interlocução direta entre ambos — elemento suficiente para tornar sua permanência na relatoria eticamente insustentável.
A pressão já não vinha apenas de adversários ideológicos. Tornou-se transversal. Juristas, imprensa e entidades ligadas ao direito exigiam a retirada de Toffoli do cargo
Até o Palácio do Planalto entrou em pânico: afinal, entre os ministros da Corte, Dias Toffoli é o mais vinculado ao atual governo, não apenas por ter sido nomeado por Lula, mas também pelos muitos anos de serviços prestados como advogado do PT. O envolvimento dele no escândalo deslocou o problema do campo jurídico para a arena política, com potencial de causar grandes danos na campanha de reeleição do presidente.
Foi então que, na noite de quinta-feira, o STF, não suportando mais o desgaste, reuniu-se para enquadrar Toffoli.
E o país assistiu a uma peça curiosa.
Os dez ministros divulgaram nota afirmando não haver suspeição, reconheceram a validade de todos os atos praticados, prestaram apoio pessoal ao parceiro e registraram que, voluntariamente, ele pediu a redistribuição do processo.
Em resumo: o ministro não precisava sair, mas saiu. Não havia problema algum, mas o caso foi redistribuído. Tudo estava regular, porém mudou-se o relator.
Foi a forma encontrada para preservar simultaneamente duas coisas incompatíveis: o colega e a credibilidade institucional mínima.
Na prática, foi uma retirada. Formalmente, um gesto espontâneo.
Livre e espontânea pressão.
O processo está agora nas mãos do ministro André Mendonça. A expectativa é de condução mais ortodoxa: reunião já marcada com delegados da Polícia Federal e sinalização de que a investigação seguirá sem limitações externas.
Aqui surge o aspecto mais simbólico do episódio.
Durante anos, questionamentos sobre decisões do Supremo eram tratados como inconformismo político de um grupo específico. Agora, diante de fatos concretos envolvendo ministros, as mesmas perguntas passaram a ser feitas por setores amplos da sociedade e da imprensa.
Mas há um efeito colateral ainda mais profundo — e talvez mais duradouro — provocado por este evento.
No julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus aliados pela suposta tentativa de golpe, praticamente não houve questionamento relevante sobre a idoneidade dos julgadores. A maior parte da grande imprensa, adversária política declarada do então presidente, aceitou decisões excepcionais como se fossem rotina institucional.
Medidas duríssimas foram recebidas como defesa da democracia. Procedimentos heterodoxos passaram a ser chamados de proteção constitucional. O devido processo legal tornou-se secundário diante do objetivo político considerado legítimo.
Hoje, porém, o cenário mudou.
Diante das revelações envolvendo um ministro diretamente relacionado ao caso investigado — e das suspeitas ainda pendentes sobre o contrato milionário do escritório da esposa de outro integrante da Corte — a pergunta passou a existir: eram aqueles julgamentos conduzidos por magistrados cuja honestidade estava acima de qualquer suspeita?
Até pouco tempo atrás, levantar essa hipótese era tratado como ataque às instituições. Agora, tornou-se debate público.
Não se trata mais de quem foi julgado, mas de quem julgou.
O escândalo do Banco Master deslocou o eixo da discussão nacional: saiu da política e entrou na magistratura. Pela primeira vez em muitos anos, a trajetória, as relações e os interesses de ministros do Supremo passaram a ser objeto de escrutínio aberto.
O tribunal que investigava tornou-se investigado pela opinião pública.
E talvez esteja aí a maior consequência deste episódio: a percepção de que, sem reação social, casos como este teriam destino previsível — o silêncio institucional. O recuo ocorrido não foi espontâneo; foi imposto pela impossibilidade de ignorar os fatos.
Pela primeira vez em muito tempo, não foi a política que pressionou o Supremo — foi a opinião pública difusa, transversal, sem liderança centralizada. E a Corte recuou.
Tentou chamar o recuo de procedimento administrativo. Chamou constrangimento de normalidade. E crise de estabilidade institucional.
Mas o país viu.
A retirada da relatoria não encerra o escândalo. Apenas marca o momento em que a investigação deixou de poder ser contida dentro do próprio tribunal.
Agora começa a fase realmente perigosa para qualquer sistema fechado: a etapa em que os fatos passam a conduzir o processo.
A propósito, certa vez um repórter perguntou ao primeiro-ministro britânico Harold Macmillan qual era o maior perigo para um governante.
Ele respondeu: “Os acontecimentos, meu rapaz, os acontecimentos”.
É exatamente disso que se trata.

*Caio Gottlieb, jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto







