Por David Gertner*
Um levantamento recente do Instituto Datafolha sobre o espectro ideológico do eleitorado brasileiro, realizado no segundo semestre de 2025, revelou um dado que à primeira vista parece paradoxal: 34% dos eleitores petistas se dizem de direita, enquanto 14% dos bolsonaristas afirmam se identificar com a esquerda. Para alguns, isso soaria como confusão ideológica. Para outros, como ignorância política. Mas a leitura mais honesta — e talvez mais incômoda — aponta em outra direção.
O paradoxo não revela desinformação. Revela algo mais profundo: o voto, para uma parcela significativa do eleitorado, não é guiado por ideologia, mas por expectativa, identidade emocional e necessidade de pertencimento.
O eleitor não escolhe necessariamente um projeto de país. Escolhe uma promessa. Escolhe esperança. Escolhe alguém que diga, com convicção e simplicidade, que a mudança é possível — mesmo quando ela é estruturalmente improvável no curto prazo.
É aqui que entra a metáfora dos gêmeos univitelinos.
O populismo de esquerda e o populismo de direita brigam em público, se atacam em discursos inflamados e fingem ser opostos irreconciliáveis. Mas compartilham o mesmo DNA. Vestem roupas diferentes, usam símbolos distintos, apontam inimigos opostos — e operam de forma surpreendentemente semelhante.
Um fala em “povo contra as elites”; o outro em “nação contra o sistema”. Um promete justiça social imediata; o outro, ordem moral e prosperidade instantâneas. Ambos oferecem atalhos. Ambos simplificam problemas complexos. Ambos transformam frustrações legítimas em narrativas fáceis.
Como bons irmãos gêmeos, discordam nos detalhes, mas concordam no essencial: personalizar a política, deslocar o debate para o campo simbólico e oferecer soluções emocionalmente atraentes, ainda que materialmente frágeis. A verdade vira acessório. A responsabilidade, um incômodo. E o fracasso, quando aparece, nunca é deles — é sempre do passado, do inimigo, da imprensa ou do “sistema”.
Os dados do Datafolha ajudam a entender essa dinâmica ao mostrar que, no Brasil, grandes lideranças políticas funcionam menos como projetos ideológicos coerentes e mais como identidades guarda-chuva, capazes de absorver contradições internas. O eleitor pode ser conservador nos costumes e votar buscando estabilidade material. Pode defender pautas econômicas liberais e apoiar um discurso moralizante por identificação simbólica.
Não é incoerência. É pragmatismo emocional.
A pesquisa sugere algo ainda mais revelador: não é a ideologia que mobiliza grande parte desses eleitores, mas a necessidade de acreditar que alguém, enfim, romperá o ciclo de frustração. Quando a democracia falha em entregar educação, saúde, segurança e mobilidade social, ela abre espaço para narrativas salvacionistas — de esquerda ou de direita.
O populismo prospera onde a democracia falha em explicar seus limites. Onde ninguém diz que mudanças estruturais levam tempo, custam caro e exigem escolhas difíceis. O populista surge como o irmão mais carismático da família: fala alto, promete tudo, abraça todos — e nunca presta contas.
Há, sim, diferenças importantes entre esquerda e direita democráticas. Mas o populismo não é uma delas. Ele é uma caricatura dos dois lados. Um espelho distorcido que transforma frustração em raiva e esperança em ilusão.
Talvez o maior alerta do Datafolha não seja sobre quem vota em quem, mas sobre o estado da nossa democracia. Quando o eleitor se vê escolhendo entre dois gêmeos idênticos travestidos de salvadores, o problema não está apenas na escolha — está no cardápio.

*David Gertner, Ph.D., é professor aposentado, escritor e ensaísta. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, vive há mais de três décadas nos Estados Unidos, onde construiu carreira acadêmica na área de marketing. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.
Comentário originalmente postado em O Diário do Poder







