Por Caio Gottlieb*
Na história das nações, poucas trajetórias são tão rápidas e transformadoras quanto a do agro brasileiro.
O Brasil, que um dia dependia de navios estrangeiros para garantir comida na mesa de sua população, tornou-se em poucas décadas um protagonista incontornável do comércio agrícola mundial.
A transformação é de proporções épicas: hoje somos capazes de alimentar quase um bilhão de pessoas, com liderança consolidada em nove cadeias produtivas globais.
Foi essa trajetória que o engenheiro agrônomo Marcos Fava Neves, um dos brasileiros de maior prestígio internacional no agronegócio, rememorou em sua coluna Mundo Agro, publicada nesta semana pela revista Veja.

Marcos Fava Neves, colunista da revista Veja (Divulgação)
Mas o tom de celebração vem acompanhado de advertência: o futuro exigirá estratégia, sob pena de a abundância se converter em armadilha.
Nas últimas seis safras, o Brasil acrescentou 18 milhões de hectares ao cultivo de grãos — uma média de três milhões de novos hectares a cada ano. A colheita de soja, sozinha, já equivale a cerca de 60% da oferta mundial, enquanto o milho responde por algo em torno de 30%. Números monumentais que colocam o país no centro do tabuleiro da segurança alimentar global.
Mas Fava Neves chama a atenção: crescimento acelerado só é saudável se caminhar em sintonia com a demanda. Caso contrário, sobra produto, caem os preços, perdem os produtores.
A demanda recente, de fato, impressiona. Em dez anos, o consumo mundial de milho saltou de 1,02 para 1,28 bilhão de toneladas; no mesmo período, a soja subiu de 317 para 425 milhões, uma média anual de 11 milhões de toneladas adicionais. O ritmo, no entanto, ganhou ainda mais fôlego nos últimos três anos: 37 milhões de toneladas a mais de milho por ano e 19 milhões de soja.
O dilema está posto: devemos planejar o futuro pelo compasso histórico ou pelo compasso acelerado do presente?
Para responder a isso, Fava Neves introduz o conceito dos “três V’s”: a variação violenta das variáveis. Em outras palavras, um mundo onde a única certeza é a incerteza. E aqui ele lista, uma a uma, as nove forças que moldarão o futuro do agro brasileiro.
Primeiro, as adversidades naturais: secas, enchentes, geadas, incêndios e pandemias não são mais eventos isolados, mas parte de uma rotina que altera colheitas, encarece seguros e ameaça a estabilidade dos estoques. Em seguida, as turbulências políticas e econômicas: governos instáveis, mudanças de regras, crises cambiais e políticas comerciais erráticas podem fechar mercados e abrir guerras tarifárias de um dia para o outro.
Há ainda os conflitos armados, que colocam sob risco rotas de transporte, preços da energia e fornecimento de insumos estratégicos como fertilizantes.
Fava Neves também aponta os extremismos sociais e religiosos e as migrações em massa, fenômenos que pressionam governos, alteram padrões de consumo e geram tensões internas com reflexos no comércio internacional. As legislações e regulações, por sua vez, transformam-se a cada governo, impondo custos adicionais e reduzindo a previsibilidade.
O enfraquecimento das instituições multilaterais, organismos que deveriam zelar pela cooperação e pela paz, deixa o comércio mais vulnerável a interesses isolados. Soma-se a isso a pressão crescente de consumidores e ONGs, que exigem rastreabilidade, sustentabilidade e boas práticas — e que tornam a reputação um ativo tão valioso quanto a produtividade.
O avanço vertiginoso da tecnologia e dos modelos de negócio completa o quadro. Inovações disruptivas podem alterar cadeias inteiras em questão de meses, criando vencedores e inviabilizando estruturas tradicionais. Por fim, o fluxo instantâneo de informações: em tempos de redes sociais, um escândalo ou boato viralizado pode fechar mercados, derrubar ações e arranhar imagens construídas ao longo de décadas.
A lista revela um mundo em que produzir alimentos é, cada vez mais, caminhar num campo minado. E, para o Brasil, o desafio se multiplica: nosso agro é fábrica a céu aberto, com ciclos longos e investimentos que levam anos para maturar. Café, cacau e laranja exigem três anos para começar a dar retorno; a cana, pelo menos um; a celulose, sete.
Enquanto o mundo gira na velocidade da informação, o campo opera na cadência das estações — e esse descompasso é um risco que não pode ser subestimado.
Some-se a isso a questão ambiental. O crescimento do agro depende de terra, água e energia, e a pressão global para que essa expansão ocorra de forma sustentável é cada vez mais intensa. O professor lembra que não basta aumentar áreas e volumes: é preciso conquistar mercados mostrando responsabilidade, transparência e compromisso com a preservação.
Apesar de todos os riscos, Fava Neves não adota o tom do pessimismo, mas o da cautela estratégica. Ele enxerga um horizonte promissor se o Brasil souber aproveitar sua vantagem comparativa: temos clima, tecnologia tropical de ponta, empreendedores ousados e um mercado externo que seguirá faminto por proteína, grãos, fibras e bioenergia.
A diferença estará em como nos apresentaremos.
“Não basta vender toneladas”, adverte. O Brasil precisa vender segurança alimentar. Ser reconhecido como fonte confiável, previsível e sustentável de alimentos e energia renovável.
É dessa reputação que dependerá nossa capacidade de manter mercados abertos e conquistar novos.
Na encruzilhada entre a abundância e a incerteza, a mensagem é cristalina: o país que já provou ser capaz de alimentar o mundo precisa agora provar que sabe fazê-lo com responsabilidade, sustentabilidade e estabilidade.
Porque, no século da volatilidade, não haverá mercadoria mais valiosa do que a confiança.

*Jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.
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