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Quando todos os caminhos levam ao Planalto

Por Caio Gottlieb*

Já não é mais possível tratar o caso Banco Master como um acidente de percurso, um desvio pontual ou um tropeço técnico do sistema financeiro.

O que se escancara, dia após dia, é algo muito mais profundo, mais estrutural e, sobretudo, mais incômodo: o escândalo do Banco Master é um retrato em alta definição do lulopetismo no poder. Um raio-X de como funcionam as engrenagens de uma máquina que confunde governo, Estado, Judiciário, mercado e advocacia numa mesma teia de interesses cruzados.

Quando todos os personagens centrais de uma crise bilionária gravitam em torno do mesmo campo político, não se trata de coincidência. Trata-se de método.

O primeiro ato dessa tragicomédia tem como protagonista o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli. No mesmo dia em que embarca em um jatinho de empresário, acompanhado de advogado ligado à direção do Banco Master, para assistir a uma partida do Palmeiras em Lima, no Peru, Toffoli decide impor sigilo absoluto às investigações sobre a fraude e, num movimento tão raro quanto revelador, avoca para si todo o processo. A justificativa jurídica — o suposto envolvimento de um parlamentar com prerrogativa de foro — não se sustenta. Não havia relação com os problemas de liquidez do banco, tampouco com a venda dos títulos podres que já produziram um rombo superior a 12 bilhões de reais. O pretexto cai, mas o gesto permanece.

Seguem-se idas e vindas desconcertantes: ora Toffoli determina que a Polícia Federal encaminhe ao Supremo todo o material apreendido, afastando-a do acesso às próprias provas; ora autoriza a Procuradoria-Geral da República a examiná-las; depois, recua novamente, permitindo que a PF volte a atuar. Um vaivém que não confunde apenas o observador externo, mas corrói a credibilidade mínima do processo. Some-se a isso os conflitos éticos indisfarçáveis, envolvendo familiares do magistrado com interesses empresariais ligados ao ecossistema do banco, e chega-se a um ponto em que sua permanência na relatoria se torna moralmente insustentável.

Tal constatação já não é reverberada apenas por adversários políticos: editoriais de grandes jornais, comentaristas de televisão e vozes internas do próprio Supremo Tribunal Federal, ainda que em tom discreto, apontam o mesmo óbvio constrangimento.

Quem é Dias Toffoli no tabuleiro? Ex-advogado do PT, indicado e nomeado ministro do Supremo por Lula, hoje agindo como relator de um caso que envolve diretamente o grupo político que o alçou ao topo do Judiciário. A impressão digital do governo aparece logo na primeira página.

O segundo ato amplia o escândalo institucional e traz à cena o ministro Alexandre de Moraes. O Banco Master celebrou contrato com o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, e de seus filhos, em valores que desafiam qualquer parâmetro do mercado jurídico: quase 4 milhões de reais por mês, por um período de 36 meses, totalizando algo próximo de 130 milhões de reais. Um contrato cujo objeto era a atuação do escritório junto a órgãos públicos — eufemismo elegante para aquilo que, no mundo real, se chama lobby. Estima-se que cerca de 80 milhões de reais já tenham sido pagos.

Alexandre de Moraes não foi indicado ao Supremo por Lula, mas há muito se bandeou, com armas e bagagens, para o lulopetismo. Tornou-se aliado central do governo e peça estratégica na cruzada intimidatória contra a direita e na perseguição implacável movida contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. No fim do dia, pouco importa a caneta que assinou sua nomeação: o que pesa é o papel que desempenha hoje no arranjo de poder. As informações de que Moraes teria conversado diretamente com o presidente do Banco Central sobre o caso apenas reforçam a sensação de promiscuidade institucional.

O terceiro ato é uma volta explícita ao passado. Surge Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma Rousseff, símbolo de uma política econômica que afundou o país na maior recessão de sua história. Mantega foi abduzido pelo Banco Master como consultor, ao custo de 1 milhão de reais por mês. A indicação teria partido do senador baiano Jaques Wagner, figura histórica do PT. O passado não apenas voltou — foi contratado, com salário premium.

Na sequência, aparece Ricardo Lewandowski, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, indicado por Lula, que mais tarde assumiria o Ministério da Justiça no atual governo. Seu escritório de advocacia firmou contrato de cerca de 6,5 milhões de reais com o Banco Master. Embora o comando formal tenha sido transferido ao filho quando Lewandowski ingressou no Executivo, o vínculo familiar permanece evidente. No Brasil do lulopetismo, cargos passam; sobrenomes ficam.

Enquanto isso, o silêncio do núcleo do governo fala alto. Em dezembro de 2024, Lula recebeu no Palácio do Planalto o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, já com a instituição enfrentando sérias dificuldades. Participaram da reunião, promovida por Mantega, o ministro da Fazenda Fernando Haddad e Gabriel Galípolo, então número dois da pasta e hoje presidente do Banco Central. O encontro não constou na agenda oficial. É improvável que tenham se reunido para falar de futebol.

Ao mesmo tempo, a farra continua: nos últimos dias veio à tona a notícia de que Dias Toffoli liberou o pagamento de cerca de 200 milhões de reais em honorários advocatícios a uma entidade ligada a familiares de magistrados do STF e do Superior Tribunal de Justiça, ignorando um alerta do Ministério Público de São Paulo que aponta graves irregularidades na contratação dos serviços. O negócio envolve uma disputa bilionária sobre royalties de petróleo no litoral do Estado. A cena se repete: parentes, bancas, causas milionárias, decisões convenientes. A promiscuidade institucional já não se esconde — ela desfila.

Tudo isso ocorre no momento em que o país afunda em um crescente descontrole das contas públicas. A dívida nacional já supera 80% do PIB. Os gastos seguem sem freio. O ano eleitoral promete turbinar ainda mais o populismo fiscal, com um governo gastador empurrando para frente a conta que, como sempre, recairá sobre o contribuinte. A festa segue interminável nos andares de cima; o aperto sobra para quem está embaixo.

Há um ditado antigo que ajuda a compreender o enredo: cachorro comedor de ovelha perde o pelo, mas não perde o vício. Mensalão. Petrolão. Agora, o Banco Master. Não são capítulos desconectados de uma história aleatória. São variações do mesmo tema, executadas por um sistema que muda os figurantes, mas preserva o roteiro.

O caso Banco Master, portanto, não é apenas um escândalo financeiro. É uma crise de governo. É o batom na cueca de um modelo de poder que se apresenta como moralmente superior, mas que, confrontado com os fatos, revela sempre o mesmo DNA.

Quando todos os caminhos levam ao Palácio do Planalto, já não há espaço para ingenuidade nem para o jogo de empurra. Como no filme “Todos os Homens do Presidente”, que levou para o cinema o famoso caso Watergate, o maior escândalo da história política dos Estados Unidos, que provocou a renúncia do presidente Richard Nixon, o mistério não está em descobrir o que aconteceu, mas em reconhecer quem sustenta, protege e se beneficia desse sistema.

E, a essa altura, fingir que não se sabe a resposta já não é ignorância — é cumplicidade.

*Caio Gottlieb, jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.

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