Lei Magnitsky: chantagem geopolítica e a conta empurrada ao Brasil
Por André Becker*
A decisão de revogar a Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes não foi gesto de equilíbrio institucional nem respeito à soberania brasileira. Foi negócio. Um acordo silencioso, típico do jogo pesado da geopolítica. O governo brasileiro cedeu — ou já sinalizou que cederá — em áreas sensíveis aos interesses americanos, especialmente no acesso a terras raras e metais estratégicos, (além de sinalizar através do congresso a PL da dosimetria), insumos vitais na corrida global por energia limpa, semicondutores e controle da inteligência artificial. Quem dominar esses recursos, dominará o mundo.
Nesse tabuleiro, o uso da Lei Magnitsky serviu como instrumento de pressão. E ninguém domina esse tipo de negociação como o governo Trump. Pragmatismo bruto, sem rodeios: cria-se a ameaça, eleva-se o custo político e, quando o objetivo é alcançado, a sanção sai de cena. Não por justiça, mas por conveniência. O recado foi claro: coopere nos pontos estratégicos ou arque com as consequências.
Resolvida a parte que interessa aos “gringos”, o restante vira problema doméstico. Aos olhos de Washington, o Brasil que se entenda com suas próprias crises institucionais. Que o Parlamento legisle, que o Judiciário se contenha, que o povo pressione — desde que nada disso atrapalhe os acordos maiores. A democracia vira detalhe administrativo quando os interesses centrais estão protegidos.
E aqui está o ponto mais grave: o Brasil foi empurrado a resolver sozinho um conflito que já extrapolou o razoável. A pressão internacional diminui não porque tudo está bem, mas porque o preço já foi pago em outra moeda. Se houver democracia real, eleições livres e alternância de poder, o país pode reencontrar seu rumo. Se não houver, o problema não será externo — será nosso.
Que fique claro: soberania não é discurso, é postura. E um país que aceita chantagem externa enquanto empurra sua crise para debaixo do tapete institucional não está negociando — está sendo negociado. A história não costuma ser generosa com nações que terceirizam sua dignidade e silenciam diante dos próprios abusos. Certamente a retomada da verdadeira democracia no Brasil terá um custo elevadíssimo.

* Professor, bacharel em administração de empresas pela Unioeste e pós-graduado em gestão pública. Servidor público aposentado, foi dirigente sindical e líder comunitário atuando em pastorais. Atualmente é prestador de serviços na área da construção civil, como sócio-proprietário da Tecnobrocas.







