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Voz da Tríplice Fronteira: Rádio Cultura de Foz do Iguaçu celebra 70 anos de história como patrimônio da memória coletiva

(R. Cultura)

Veja nesta matéria a lista das mais antigas

Há cidades que podem ser contadas pelas ruas que abriram, pelas pontes que ergueram ou pelos prédios que construíram. Foz do Iguaçu pode ser contada também por uma voz. Uma voz que acordou a cidade durante gerações, anunciou nascimentos e despedidas, celebrou conquistas, dividiu preocupações e informou sobre enchentes, eleições e inaugurações. Essa voz atende por um nome há setenta anos: Rádio Cultura de Foz do Iguaçu.

Dizem que o rádio fala, mas, na verdade, o rádio escuta a cidade antes mesmo de ela perceber que está mudando. Foi assim desde 22 de julho de 1956. Naquele tempo, Foz do Iguaçu ainda era uma cidade pequena, abraçada pelos rios Paraná e Iguaçu. Não existia a Ponte da Amizade, inaugurada apenas em 1965, nem o asfalto da BR-277, que chegaria em 1969 para ligar definitivamente a fronteira ao restante do estado. Itaipu era um projeto distante e as Cataratas encantavam poucos visitantes.


Foi nesse cenário que um grupo de homens decidiu construir algo invisível aos olhos, mas permanente na memória. Não levantaram paredes monumentais; construíram presença, companhia e confiança ao fundar a antiga ZYS-54. Eles inauguravam o mais antigo veículo de comunicação ainda em atividade em Foz do Iguaçu.

Como escreveu Rachel de Queiroz, a maior virtude do rádio não é tocar músicas ou transmitir notícias, mas criar pertencimento e fazer com que alguém, mesmo distante, sinta que faz parte do mundo. Desde o primeiro dia, a Rádio Cultura ligou pessoas, uniu comunidades e aproximou fronteiras. Em uma região onde três países dividem rios, culturas e sotaques, a emissora transformou suas ondas em pontes muito antes das estruturas de concreto.



A pioneira intercontinental e a disputa com Toledo

A trajetória do rádio no Oeste do Paraná também é marcada por uma saudável disputa histórica de pioneirismo técnico e temporal. Em Toledo, a Rádio Guaçu (nascida como Rádio Clube) iniciou suas transmissões em caráter de teste em dezembro de 1955. No entanto, a consolidação definitiva do rádio na região e o alcance de grandes proporções geográficas pertencem à Rádio Cultura de Foz do Iguaçu a partir de julho de 1956.

O grande diferencial da emissora iguaçuense foi a sua capacidade técnica. Enquanto a maioria das estações do interior nascia com transmissores locais de Ondas Médias (AM), a Rádio Cultura foi montada com uma estrutura potente que incluía também as Ondas Curtas (OC). Essa tecnologia permitia que o sinal vindo da fronteira saltasse as barreiras geográficas e alcançasse distâncias continentais. A Cultura tornou-se a primeira emissora intercontinental do Oeste paranaense, levando a realidade da Tríplice Fronteira para o restante do país e da América Latina.


O arquivo vivo do desenvolvimento regional

É possível reconstruir a história de Foz do Iguaçu apenas ouvindo aquilo que os microfones da emissora registraram ao longo de sete décadas. Eles anunciaram a inauguração da Ponte da Amizade em 1965, narraram a chegada do asfalto pela BR-277 em 1969 e acompanharam todas as etapas da construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, responsável por transformar o destino da cidade.

Os repórteres da emissora celebraram a inauguração da Ponte Tancredo Neves em 1985, fortalecendo a integração com a Argentina, e registraram a entrega da Ponte da Integração Brasil–Paraguai em 2025, símbolo recente de mobilidade e desenvolvimento regional. O rádio viu o turismo florescer, assistiu bairros nascerem onde antes existiam estradas de terra e contou o crescimento de uma cidade que nunca parou de se reinventar.

Maria da Glória Godoy, 3ª locutora da Rádio Cultura 1962




Testemunha da democracia e da censura

Ao longo dos 70 anos, a Rádio Cultura também ensinou a cidade a acompanhar a própria democracia. Durante décadas, quando os votos eram contados um a um sobre grandes mesas de apuração, a emissora atravessava a madrugada narrando cada boletim. Vieram as urnas eletrônicas e mudou a tecnologia, mas não mudou a confiança. A cada eleição, a estação continua sendo o lugar onde milhares de iguaçuenses buscam informação segura. Ali, candidatos apresentam propostas, debatem ideias e são entrevistados. Quando a campanha termina, os microfones continuam atentos às sessões da Câmara Municipal e às decisões da Prefeitura.

Nem sempre, porém, foi permitido dizer tudo. Os anos da ditadura militar também ecoaram dentro dos estúdios. As músicas precisavam ser autorizadas, as notícias eram vigiadas e os programas passavam pelo olhar dos censores. Mesmo assim, a emissora resistiu e permaneceu no ar quando informar exigia coragem silenciosa. Décadas depois, pesquisadores resgatam esse período para mostrar que a história da rádio também se confunde com a história da liberdade de imprensa na fronteira.


Antes de a televisão ocupar as salas e muito antes de a internet caber no bolso, era o rádio quem chegava primeiro nas casas, no comércio, nas oficinas, nos táxis, nos caminhões e na lavoura. Quando a televisão e a internet chegaram, muitos previram o fim do veículo. No entanto, o rádio permaneceu porque nunca foi apenas tecnologia, sempre foi relacionamento. Hoje, a mesma notícia que nasce na redação percorre a frequência AM, alcança o portal de notícias e chega aos celulares e redes sociais sem perder a essência construída desde 1956.

Como afirma o diretor da emissora, Dr. Nelso Rodrigues, a Rádio Cultura já não pertence aos seus proprietários, pertence à história de Foz do Iguaçu. Instituições não envelhecem quando deixam de ser empresas e passam a ser patrimônio da memória coletiva. A emissora ocupa lembranças, afetos e a identidade de uma região inteira. Setenta anos não representam o fim, mas a solidez de uma voz que continua ativa.

Radialista Dr. Neslo Rodrigues Diretor-Geral da Rádio Cultura e apresentador do Contraponto – a voz do povo


As dez emissoras mais antigas do Oeste do Paraná

O pioneirismo da Rádio Cultura faz parte de um movimento maior de radiodifusão que acompanhou a colonização do Oeste paranaense. Abaixo está a relação das dez emissoras mais longevas da região ainda em atividade, ordenadas pelo ano de fundação original:

Rádio Guaçu – Toledo (1955)
Rádio Cultura – Foz do Iguaçu (1956)
Rádio Colmeia – Cascavel (1958)
Rádio Difusora do Paraná – Marechal Cândido Rondon (1966)
Rádio Matelândia – Matelândia (1967)
Rádio Educadora – Marechal Cândido Rondon (1977)
Rádio Independência – Medianeira (1978)
Rádio Grande Lago – Santa Helena (1979)
Rádio Toledo – Toledo (1979)
Rádio Jornal – São Miguel do Iguaçu (1989)



Observação: Esta matéria foi construída com pesquisas no Google e também baseada em informações da própria Rádio Cultura. Qualquer discrepância em relação ao texto, poderá ser corrigida com a colaboração de nossos internautas.




Elder Boff/Fonte Extra: Tive a grata satisfação de ter feito pequena participação nesta história há mais de 30 anos, trabalhando com freelancer num campeonato paranaense de futebol)


Fotos: Rádio Cultura

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