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Banco Master e o colapso moral do Supremo

(Reprodução)


Por Caio Gottlieb*

O escândalo do Banco Master já não é mais, como se isso fosse pouco, apenas a maior fraude financeira da história do país. O rombo astronômico, estimado em mais de R$ 12 bilhões, provocado por operações lastreadas em títulos sem valor real, que lesaram investidores e correntistas, seria, por si só, matéria suficiente para ocupar manchetes por semanas e meses.

Mas o que se revelou em torno desse episódio ultrapassa em muito a esfera bancária. O caso tornou-se um retrato escancarado da degradação institucional do Brasil.

O ponto de inflexão não está no banco. Está no Supremo Tribunal Federal.

Nos últimos anos, o STF passou a conviver com uma prática que corrói sua credibilidade: a naturalização de conflitos de interesse envolvendo ministros e escritórios de advocacia de familiares diretos — esposas, filhos, parentes próximos — atuando em causas bilionárias que orbitam o próprio poder que deveriam ser julgadas com distância, sobriedade e isenção.

Criou-se um ambiente onde a promiscuidade institucional deixou de ser exceção e passou a ser método.

Nesse contexto emerge a fraude do Master.

Reportagens amplamente documentadas revelaram que o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes firmou contrato com o banco prevendo representação jurídica junto ao Banco Central, à Receita Federal, ao Cade e ao Congresso Nacional. O detalhe devastador: nenhuma dessas instituições recebeu petições, pedidos formais ou qualquer atuação processual concreta do escritório em nome do banco.

Não houve trabalho técnico. Não houve advocacia no sentido clássico. Houve lobby. Influência. Pressão.

A partir daí, a história ganhou contornos ainda mais graves.

Segundo apuração da imprensa, o ministro Alexandre de Moraes chegou a telefonar seis vezes, no mesmo dia, ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar da operação de venda do Banco Master ao BRB, o Banco de Brasília. Não se tratou de um contato isolado, mas de uma sequência de conversas, em meio à análise de uma operação que poderia salvar uma instituição cliente do escritório de sua esposa.

As versões oficiais, divulgadas em notas, sustentaram que os contatos teriam tratado exclusivamente de temas genéricos, como os efeitos da Lei Magnitsky, que havia sido aplicada a Moraes pelo governo Trump por violação dos direitos humanos. A imprensa, porém, amparada em fontes do meio jurídico e financeiro com acesso direto aos bastidores, desmentiu essa narrativa.

E aqui entra o episódio que escancara, com tintas ainda mais fortes, o cinismo com que os brasileiros vêm sendo tratados.

O ministro Dias Toffoli, no mesmo período em que avocava para si processos relacionados ao caso, assumia o comando da investigação e decretava sigilo absoluto, viajava em jatinho particular de um empresário, ao lado de um advogado diretamente ligado a um dos diretores do Banco Master, para assistir a uma partida do Palmeiras em Lima, no Peru. A explicação oficial, oferecida com naturalidade desconcertante, foi a de que “não se tratou do assunto”.

Sim, claro. Nós acreditamos. Conversaram apenas sobre futebol.

Do mesmo modo, espera-se agora que o país acredite que seis telefonemas, no mesmo dia, e ao menos cinco conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e o presidente do Banco Central não tenham tido qualquer relação com a situação de um banco que pagava mensalidades milionárias ao escritório de sua esposa — escritório que, por contrato, deveria atuar justamente junto ao Banco Central, entre outros órgãos. Também aqui, segundo as notas oficiais, nada se discutiu além de temas laterais. Sim, claro, nós acreditamos.

É um cinismo que pressupõe um país de ingênuos, carimbados como inocentes úteis, convidados a engolir que nada foi tratado, nada foi pedido, nada foi pressionado — apesar do dinheiro, dos contratos, das relações e das evidências convergentes.

Felizmente, o Banco Central manteve uma postura institucional, não cedeu à pressão e liquidou o banco, já quebrado, falido e responsável por um dos maiores golpes financeiros recentes contra o país.

Quando o lobby informal se converte em pressão direta sobre a autoridade monetária máxima da nação, deixa-se o terreno da mera inadequação ética. Entra-se no campo da advocacia administrativa, do conflito de interesses explícito e do crime de responsabilidade.

Esse episódio retira de vez a máscara da imagem que Alexandre de Moraes tentou construir ao longo dos últimos anos.

O magistrado que se apresentou como salvador da democracia, acumulando as funções de investigador, polícia, promotor, acusador e juiz, conduziu ações que atropelaram garantias básicas do devido processo legal, especialmente na perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro, ancorada numa narrativa fantasiosa de tentativa de golpe de Estado sem soldados, sem tanques e sem comando militar.

Sob o pretexto de proteger a pátria de supostos golpistas violaram-se salvaguardas jurídicas elementares, para encarcerar um adversário político e impor penas desproporcionais — inclusive a cidadãos que, embora responsáveis por atos de vandalismo, jamais poderiam receber condenações de 15 ou 20 anos de prisão.

A aura de austeridade e rigor moral transmitida nesse período se desfaz agora, revelando não um guardião da República, mas um negociador instalado no coração da Suprema Corte.

Os números dão materialidade ao escândalo. O contrato firmado renderia, se cumprido integralmente, cerca de R$ 129 milhões. Até sua interrupção, aproximadamente R$ 80 milhões já haviam sido pagos. Em 2024, a distribuição de lucros do escritório destinou à esposa do ministro cerca de R$ 57 milhões. Em apenas um ano, seu patrimônio pessoal saltou de R$ 24 milhões para quase R$ 80 milhões. Valores sem paralelo, inclusive entre os maiores e mais caros escritórios de advocacia do país.

Não se paga isso por trabalho inexistente. Paga-se por acesso. Por influência. Por resultado.

A situação torna-se ainda mais simbólica quando se observa a criação de novas estruturas jurídicas da mesma família em Brasília, em datas que coincidem com episódios sensíveis envolvendo sanções internacionais e investigações. A advocacia, aqui, deixa de ser meio técnico e passa a ser instrumento político.

O envolvimento de Dias Toffoli no rolo do Master foi o prenúncio. O envolvimento de Alexandre de Moraes foi a consolidação. Não se trata mais de aparência de conflito. Trata-se de fatos convergentes.

A palavra impeachment, antes tratada como exagero retórico da oposição, entra agora no vocabulário institucional com outro peso. Não por decisões polêmicas ou divergências ideológicas, mas por condutas. Por relações. Por dinheiro. Por pressão indevida.

Tudo isso ocorre sob o silêncio cúmplice de uma Corte que, ao longo dos últimos anos, anulou condenações, descondenou corruptos confessos, desmontou sentenças e consolidou um ambiente de impunidade estrutural. O Supremo, que deveria ser o fiscal da Constituição, tornou-se um poder sem fiscalização. A pergunta é inevitável: quem fiscaliza o fiscal?

O Banco Master é apenas o gatilho. O escândalo real é institucional. A moral do Supremo, já profundamente avariada, encontra-se hoje em estado avançado de decomposição. Não se trata mais de crise de imagem. Trata-se de falência ética.

Ignorar isso é aceitar que o país seja governado por um condomínio de poder no qual interesses privados, o governo Lula e a cúpula do Judiciário se confundem, operando sem freios e sem pesos e contrapesos reais.

Enfrentar essa realidade é o único caminho para que o Brasil volte a ter instituições que inspirem respeito e poderes verdadeiramente independentes, com controles efetivos e limites claros. Fora disso, estaremos seguindo, a passos acelerados, o caminho da Venezuela.


*Jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.

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