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A guerra do petróleo. Quando o seu preço dispara, nenhuma economia do planeta permanece intacta

Por Caio Gottlieb*

Existe uma commodity que, quando o seu preço dispara, nenhuma economia do planeta permanece intacta.

Não importa o grau de sofisticação do sistema financeiro, a robustez das reservas cambiais ou a disciplina da política monetária — quando o barril de petróleo escala patamares de crise, o efeito sísmico atravessa fronteiras, cadeias produtivas e orçamentos domésticos sem pedir licença.

É o que estamos vivendo agora.

Desde que Estados Unidos e Israel deflagraram operações militares contra o Irã, em 28 de fevereiro, o petróleo tipo Brent acumula valorização superior a 50%.

O barril, que era negociado na casa dos 73 dólares na véspera do primeiro ataque, hoje orbita os 108 dólares — e já tocou 115 dólares em picos intradiários nesta segunda-feira, a maior cotação desde 2022.

Não se trata de oscilação técnica ou ajuste de mercado. É um choque de oferta clássico, potencializado por aquele que é o trunfo estratégico mais poderoso de Teerã: o Estreito de Ormuz.

O corredor marítimo de 33 quilômetros por onde transita cerca de um quinto de toda a produção mundial de petróleo foi bloqueado pelo Irã nos primeiros dias de conflito. O Irã controla uma das margens do estreito e já declarou ter mísseis apontados para a região.

Nas últimas semanas, apenas navios de países considerados aliados — China, Rússia, Paquistão, Índia — têm obtido autorização para cruzá-lo, e ainda assim com tráfego lento e sob permanente tensão.

Para agravar o cenário de escassez da principal matriz energética do mundo, os bombardeios entre os dois lados também começaram a mirar campos de petróleo e gás, refinarias e depósitos de combustíveis nos países produtores da região.

O impacto no Brasil já é concreto.

Segundo dados da ANP, a gasolina nos postos subiu oito por cento desde o início da guerra — cerca de 50 centavos por litro. O diesel S-10, componente vital para o transporte de carga que movimenta a economia real do país, registrou salto de 24 por cento, com acréscimo de 1,48 real por litro.

E é aqui que a aritmética se torna implacável: combustível mais caro encarece o frete; frete mais caro encarece o alimento; alimento mais caro corrói o poder de compra do salário, que já convive com juros na estratosfera.

É o efeito dominó que o planejador financeiro Alexander Engroff descreveu com precisão ao analisar os desdobramentos do conflito sobre a economia brasileira: uma reação em cadeia na qual, ao final da sequência, o dinheiro de todo mundo compra menos.

O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira pelo Banco Central confirma a deterioração.

A projeção do mercado para o IPCA de 2026 saltou para 4,31 por cento — há apenas quatro semanas, a expectativa era de 3,91 por cento.

Antes do conflito, os analistas projetavam inflação abaixo de quatro por cento para este ano. A meta do Banco Central é de três por cento, e mesmo com a margem de tolerância de 1,5 ponto percentual, a trajetória aponta para um aperto que não se resolve com discurso.

A Selic projetada para o fim do ano está em 12,50 por cento, e o mercado já revisou para baixo a expectativa de corte na próxima reunião do Copom, agora estimando redução de apenas 0,25 ponto percentual em abril.

A curva de juros, que não negocia com expectativas, está dizendo com todas as letras: os juros não vão cair rápido. O cenário ainda não está controlado.

E é aqui que o quadro ganha uma camada adicional de complexidade que parece escapar ao radar de muita gente: 2026 é ano eleitoral.

E ano eleitoral no Brasil é, por definição, um ano em que a política econômica tende a subordinar-se ao calendário das urnas, com pressão por gastos, promessas fiscais de ocasião e o tipo de voluntarismo governamental que os mercados traduzem em prêmio de risco.

Somem-se ao xadrez geopolítico do Oriente Médio a turbulência doméstica de uma campanha presidencial, e o resultado é um ambiente em que a visibilidade para decisões de investimento e gestão patrimonial se reduz a quase zero.

Não existe, portanto, resposta simples. O que existe — e é o que separa quem atravessa tempestades com o patrimônio preservado de quem descobre os estragos quando a poeira baixa — é planejamento.

Ajustar carteira, reforçar a posição em ativos de proteção, repensar exposição a risco, cuidar do caixa.

Como observou Engroff, quem tem estratégia cresce; quem não tem, reage. E reagir, num cenário em que o petróleo é arma de guerra, a inflação se desancora e os juros resistem a cair, é apenas outro nome para perder patrimônio em câmera lenta.

Resumindo tudo, é hora de colocar as barbas de molho. Prudência, afinal de contas, nunca quebrou ninguém. A falta dela, sempre.​​​​​​​​​​​​​​​​


*Caio Gottlieb: Jornalista e publicitário, fundador e diretor da Agência Caio. Apresentador do programa Conexão Tarobá, na TV Tarobá. Um espaço de opinião, bastidores e análise sem filtro.

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