Por André Becker*
Vivemos um tempo perigoso — não apenas pelos escândalos que surgem, mas pela forma como eles são tratados. No Brasil de hoje, já não basta que haja denúncias graves. É preciso, antes de tudo, torcer para que se permita investigar.
O encerramento das investigações da CPMI do INSS escancara uma distorção que não pode ser normalizada: desde quando o papel do Judiciário é interferir na investigação, e não julgar os fatos apurados?
Quando se bloqueia o caminho da apuração, não se está fazendo justiça — está se impedindo que ela exista.
Sim, é verdade: havia, possivelmente, interesses políticos na condução da investigação. Mas essa constatação não pode servir como álibi para enterrar fatos, ignorar indícios e proteger envolvidos. Quando há suspeitas consistentes, quando há nomes e quando há vítimas reais — como milhares de aposentados — o dever das instituições é aprofundar, não silenciar.
O que se viu, no entanto, foi mais um roteiro conhecido.
Em vez de enfrentar as denúncias, atacou-se quem denunciava. A acusação de assédio sexual contra o relator — grave por natureza — ganhou espaço e desviou o foco. Posteriormente, diante de elementos que apontam inconsistência e possível falsa acusação, o que fica evidente é o método: destruir reputações para enfraquecer investigações.
Não é erro. É estratégia.
As Escrituras já advertiam sobre esse tipo de inversão moral. No Evangelho de João 7:24, está escrito: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.”
Mas o que se vê é exatamente o oposto: julgamentos apressados sobre pessoas e uma estranha cautela quando o alvo são os fatos.
O profeta é ainda mais direto em Livro de Isaías 5:20: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem chamam mal.”
Quando denunciar vira suspeito e suspeitos são protegidos por omissão, essa inversão deixa de ser retórica e passa a ser prática institucional.
E então chegamos ao ponto mais doloroso dessa história: os aposentados.
Homens e mulheres que trabalharam a vida inteira, que confiaram no sistema e que agora assistem, mais uma vez, à sensação de abandono. E como se não bastasse o prejuízo, surge um agravante difícil de justificar: ainda no início do caso, o Supremo Tribunal Federal afastou a possibilidade de restituição em dobro aos lesados.
Na prática, isso levanta uma pergunta incômoda: quem paga a conta?
Se não são os responsáveis diretos, o peso recai sobre o Estado. E quando o Estado paga, quem sustenta essa conta é o contribuinte — o mesmo cidadão já sufocado por uma das maiores cargas tributárias do mundo.
Ou seja: o lesado paga duas vezes — primeiro pelo prejuízo, depois pelo sistema que não responsabiliza quem causou o dano.
Isso não é apenas falha. É injustiça institucionalizada.
Diante disso, a pergunta deixa de ser jurídica e passa a ser moral: a quem recorrer quando as estruturas que deveriam proteger parecem agir para conter a verdade?
A impunidade, quando reiterada, deixa de ser exceção e passa a ser mensagem. E a mensagem que se consolida é perigosa: no Brasil, o crime pode compensar — desde que bem protegido.
Ainda assim, há um alerta que atravessa os séculos. Em Evangelho de Lucas 8:17, está escrito: “Nada há oculto que não venha a ser revelado.”
A verdade pode ser retardada — mas não eliminada.
O problema é o custo dessa demora.
O Brasil se aproxima de novas eleições, e o ambiente político tende a se tornar ainda mais tenso. Se o nível do debate já se mostra contaminado por ataques pessoais, narrativas manipuladas e bloqueios institucionais, o que esperar do futuro próximo?
Quando investigar vira ameaça, denunciar vira risco e a verdade vira inconveniente, não estamos apenas diante de uma crise política — estamos diante de uma crise de justiça.
E sem justiça, não há democracia que se sustente.
No fim, a questão não é mais sobre quem tem razão neste ou naquele caso.
A pergunta que realmente importa é outra:
quem ainda está disposto a enfrentar a verdade — custe o que custar?

* André Lino Becker: Cidadão santa-helenense, defensor da fé cristã, da família e da sobriedade como caminho de restauração pessoal e social. Atuou como professor, bacharel em administração de empresas pela Unioeste e pós-graduado em gestão pública. Servidor público aposentado, foi dirigente sindical e líder comunitário atuando em pastorais. Atualmente é prestador de serviços na área da construção civil, como sócio-proprietário da Tecnobrocas.








