Por Caio Gottlieb*
Quando o biólogo Paul Ehrlich morreu, em 13 de março passado, aos 93 anos, os obituários da grande imprensa americana cumpriram o ritual previsível: reverenciaram o cientista de Stanford como uma voz corajosa, um visionário da causa ambiental, o homem que em 1968 publicou “A Bomba Populacional” e sacudiu a consciência do planeta.
O que nenhum deles fez — ou quis fazer — foi a pergunta que qualquer jornalista mediano deveria considerar irrecusável: por que alguém deveria confiar nas previsões de um homem cujas profecias mais célebres se revelaram, uma a uma, espetacularmente erradas?
É o que faz, com precisão cirúrgica e dados fartos, o artigo de Frank Lasee publicado no The Daily Signal.
Ex-senador estadual de Wisconsin e presidente da Truth in Energy and Climate, o autor desmonta o legado profético de Ehrlich com a ferramenta mais incômoda para qualquer alarmista: a realidade dos fatos. E o inventário do fracasso é constrangedor.
Ehrlich previu que a fome dizimaria centenas de milhões de pessoas nas décadas de 1970 e 1980. Vaticinou que a Inglaterra deixaria de existir como nação até o ano 2000. Profetizou que os Estados Unidos enfrentariam fome generalizada. Nada disso aconteceu.
Em vez da catástrofe anunciada, a população mundial dobrou, alcançou oito bilhões de seres humanos, e a prosperidade disparou. A Revolução Verde — impulsionada por sementes geneticamente aprimoradas, fertilizantes derivados de combustíveis fósseis e agricultura viabilizada por energia abundante — alimentou bilhões de pessoas a mais do que o profeta de Stanford julgava possível.
Tão confiante estava Ehrlich em suas previsões de escassez que, em 1980, aceitou uma aposta pública contra o economista Julian Simon: apostou mil dólares em que o preço de cinco metais subiria ao longo da década seguinte, reflexo da suposta exaustão de recursos.
Dez anos depois, todos os cinco metais haviam caído de preço. Ehrlich enviou a Simon um cheque de 576 dólares — e nunca mais aceitou repetir a aposta. O episódio tornou-se, nas faculdades de economia, o exemplo clássico de como o catastrofismo subestima sistematicamente a capacidade humana de inovar.
Mas o padrão que Lasee identifica não se limita ao autor de “A Bomba Populacional”.
Há décadas, vozes proeminentes do establishment climático vêm alertando sobre nações inteiras submersas, ausência de neve no Reino Unido, extinções em massa até 2010, fome global permanente — com prazos que vão sendo silenciosamente adiados à medida que a humanidade, teimosamente, continua prosperando.
Quando o prazo de uma profecia expira e nada acontece, ninguém cobra o profeta. A mídia simplesmente recalibra o alarme, empurra o apocalipse mais pra frente e volta às mesmas fontes para colher mais do mesmo catastrofismo requentado.
Os dados, aliás, contam uma história radicalmente diferente da narrativa apocalíptica. As mortes por fome e por desastres climáticos caíram cerca de 90% em relação aos picos históricos, segundo o Our World in Data.
As mortes anuais por eventos climáticos giram hoje em torno de 40 a 50 mil — uma fração minúscula dos níveis históricos quando ajustadas pelo crescimento populacional —, graças a sistemas de alerta mais eficientes, infraestrutura melhor e sociedades mais ricas.
Desde 1961, a produtividade global do trigo subiu 225%, a do milho quase dobrou, a produção de arroz aumentou 146% e a de cereais cresceu 3,5 vezes — num ritmo mais rápido que o crescimento populacional. O mundo nunca esteve tão bem alimentado.
E há uma ironia adicional que os profetas do apocalipse preferem ignorar. O próprio gás demonizado nas narrativas climáticas — o CO₂ — está atuando como fertilizante vegetal em escala planetária. Um estudo de referência da NASA, publicado em 2016 na Nature Climate Change e conduzido por 32 pesquisadores de 24 instituições em oito países, constatou que entre um quarto e metade das áreas vegetadas da Terra apresentaram significativo aumento de cobertura verde ao longo de 35 anos.
Cerca de 70% desse efeito foi atribuído à fertilização por dióxido de carbono. O acréscimo de vegetação equivale a duas vezes a área continental dos Estados Unidos. O Saara, por exemplo, encolheu 8% em três décadas por conta desse processo. O vilão da narrativa está, literalmente, esverdeando o planeta.
Nada disso — menos mortes por fome, menos mortes por desastres, colheitas recordes, um planeta mais verde — se encaixa no enredo catastrofista que sustenta trilhões de dólares em políticas públicas ao redor do mundo. Porque é disso que se trata, no fundo: de dinheiro.
Previsões apocalípticas alimentam agendas regulatórias, justificam subsídios bilionários para tecnologias intermitentes de energia, impõem restrições draconianas a economias inteiras e, sobretudo, concentram poder em quem controla a narrativa do medo. Quando um Paul Ehrlich aparece no “60 Minutes” e sentencia que a civilização está condenada, o programa lhe faz perguntas amáveis em vez de exigir responsabilidade pelo histórico de fracassos. Isso não é jornalismo. É proteção de narrativa.
Fenômenos climáticos existem, sempre existiram e continuarão existindo.
Secas, enchentes, ondas de calor, invernos rigorosos — tudo isso faz parte dos ciclos naturais de um planeta cujo clima nunca foi, em nenhum período da história geológica, um sistema estático. A Terra já atravessou eras de calor extremo e eras glaciais muito antes de o primeiro motor a combustão ser inventado.
O que não existe é evidência de que estejamos caminhando para o colapso civilizacional que os herdeiros intelectuais de Ehrlich insistem em profetizar — e que a realidade insiste em desmentir.
Lasee encerra seu artigo com uma cobrança que deveria ser óbvia, mas que no ecossistema midiático contemporâneo soa quase revolucionária: antes de virarmos economias e padrões de vida de cabeça para baixo com base nas últimas previsões dos profetas do clima, a mídia nos deve algo que raramente entrega — um exame honesto do histórico real.
Paul Ehrlich estava errado sobre a bomba populacional. Seus discípulos estão repetindo o mesmo erro com a bomba climática. E o preço de continuar acreditando em profetas sem cobrar-lhes a conta das profecias fracassadas não é pago por eles. É pago por todos nós — em impostos, em energia mais cara, em liberdade perdida e em políticas públicas construídas sobre o alicerce frágil do medo.
Enquanto isso, o apocalipse climático pede desculpas pelo atraso e remarca o fim do mundo para a próxima década.

*Caio Gottlieb: Jornalista e publicitário, fundador e diretor da Agência Caio. Apresentador do programa Conexão Tarobá, na TV Tarobá (afiliada Bandeirantes). Um espaço de opinião, bastidores e análise sem filtro.








