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A arte de envelhecer sem pedir desculpas ao espelho

Por Caio Gottlieb*

Há uma conversa que o tempo trava com o corpo em surdina, sem avisos formais, sem hora marcada. Começa devagar — um reflexo que demora um segundo a mais, uma escada que exige atenção onde antes exigia apenas pernas —, e vai se tornando, com os anos, um diálogo cada vez mais explícito. A questão não é silenciar essa conversa. É aprender a participar dela com inteligência, com alguma graça e, se possível, com bom humor.

Durante décadas, a sabedoria popular tratou o envelhecimento saudável como sinônimo de uma única coisa: não adoecer. Uma definição pobre para um fenômeno tão complexo.

O tema ganhou tratamento cuidadoso numa recente reportagem produzida pelo jornal O Estado de S. Paulo, que reuniu estudiosos para discutir o que a ciência hoje compreende sobre envelhecer bem.

Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP, traduz com precisão essa mudança de paradigma: envelhecer com saúde é envelhecer livre das condições crônicas que comprometem a qualidade de vida. O foco, portanto, se desloca do simples acúmulo de anos para algo muito mais exigente e muito mais belo — viver com autonomia, clareza mental, mobilidade e vínculos afetivos preservados.

Essa visão encontra respaldo num estudo publicado no periódico Geriatrics, em que pesquisadores da Universidade de Cagliari, na Itália, vasculharam cinco décadas de conceitos sobre envelhecimento saudável e chegaram a uma conclusão que qualquer pessoa sensível já intui: trata-se de um fenômeno multifatorial, que envolve corpo, mente, relações sociais, cultura, espiritualidade e a forma como cada um lida com as inevitáveis mudanças que a vida apresenta sem pedir licença.

Em outras palavras, envelhecer bem é menos uma questão de sorte genética e mais uma obra em construção permanente.

E o corpo, generoso como é, não guarda segredo. Ele fala — às vezes em voz alta, às vezes em sussurros que só quem presta atenção consegue decifrar.

Caminhar com segurança, manter o equilíbrio sem drama, recuperar-se de uma gripe sem precisar de semanas de cama, acordar com energia e desfrutar de um sono que de fato repara: esses são sinais de que a máquina está bem regulada.

A geriatra Isadora Crosara, do Hospital Israelita Einstein em Goiânia, acrescenta outros indicadores que a medicina valoriza e o senso comum tende a negligenciar — força preservada, boa coordenação, apetite regular e, não menos importante, curiosidade pelas novidades da vida. Essa última, aliás, é talvez a mais reveladora de todas. Quem perdeu a curiosidade envelheceu de verdade, independentemente dos anos que carrega.

Isadora chama esse conjunto de capacidades de reserva fisiológica — uma espécie de poupança biológica que o corpo vai acumulando ou dilapidando ao longo dos anos, conforme os hábitos, os afetos e as escolhas de cada um. O bem-estar mental integra essa reserva com o mesmo peso que a saúde física: humor estável, disposição e boa libido não são caprichos da existência, mas indicadores concretos de saúde cardiovascular, metabólica e neurológica.

Há um marcador clínico que a geriatria elegeu como um dos mais confiáveis e que, à primeira vista, parece trivial: a força de preensão manual. Apertar um dinamômetro pode soar como exame de feira, mas o que esse simples gesto revela é notável. Valores baixos estão associados a maior risco de mortalidade, doenças cardiovasculares, perda funcional, quedas, fraturas, declínio cognitivo e depressão.

Em determinados contextos, seu poder prognóstico supera até o da pressão arterial. É o tipo de dado que convida a uma reflexão incômoda: às vezes, aquilo que parece insignificante diz mais do que achamos.

Naturalmente, nem toda mudança que o corpo apresenta ao longo dos anos é sinal de alarme — e saber distinguir o esperado do preocupante é parte essencial desse aprendizado. Dores articulares persistentes, porém, não devem ser naturalizadas com um encolher de ombros. A dor não é componente obrigatório do envelhecimento, como alerta Isadora.

Fadiga desproporcional merece investigação: pode indicar anemia, distúrbios hormonais, problemas de sono ou sarcopenia, essa perda silenciosa de massa e força muscular que avança com os anos sem pedir permissão. Infecções que se tornam frequentes ou que demoram cada vez mais a recuar também merecem atenção — são possíveis sinais da imunossenescência, queda progressiva da eficiência imunológica que, em grau moderado, faz parte do processo, mas que em excesso acende um alerta real.

No campo da cognição, os esquecimentos ocasionais — aquele nome que some na hora errada e reaparece minutos depois — são, em geral, parte do ritmo mais lento com que o cérebro que envelhece processa informação. O problema surge quando o esquecimento passa a interferir nas tarefas do cotidiano, compromete a orientação no espaço, ou vem acompanhado de alterações de comportamento e julgamento. Antes de concluir qualquer coisa, a geriatra lembra que transtornos de humor, deficiências vitamínicas, alterações da tireoide e distúrbios do sono podem mimetizar declínio cognitivo — e são tratáveis.

A genética, claro, tem a sua palavra a dizer. Mas ela não tem a última palavra. A maioria das diferenças observadas no envelhecimento entre pessoas de mesma faixa etária deriva de fatores físicos e sociais acumulados ao longo da vida: alimentação, atividade física, sono, vínculos afetivos, acesso a condições dignas de existência. São variáveis que, em grande medida, passam pelas mãos de cada um — e isso é, ao mesmo tempo, uma responsabilidade e uma razão de otimismo.

Gualano é enfático num ponto que precisa ser repetido com frequência, porque a cultura do desempenho físico extremo às vezes espanta mais do que convida: não é preciso ser atleta. Pequenas doses de atividade física distribuídas ao longo do dia já produzem benefícios reais e mensuráveis. O corpo humano tem plasticidade biológica notável — e ela não expira com a idade. Isadora Crosara vai além: há evidências de que pessoas que começam a se exercitar aos 80 anos ainda ganham força, mobilidade e autonomia. Nunca é tarde — não como consolo, mas como dado científico.

Abandonar o cigarro e o abuso de álcool e outras drogas compõem o restante dessa equação. Não como moralismo, mas como higiene de futuro.

No fim, o que a ciência confirma é o que a intuição de quem viveu bem já sabia: envelhecer é menos sobre resistir ao tempo do que sobre saber habitá-lo.

O corpo que se cuida, que se move, que dorme, que se alimenta com critério e que mantém laços vivos com o mundo ao redor não está lutando contra os anos — está, simplesmente, fazendo bom uso deles. E há uma diferença enorme entre os dois.


*Caio Gottlieb: Jornalista e publicitário, fundador e diretor da Agência Caio. Apresentador do programa Conexão Tarobá, na TV Tarobá (afiliada Bandeirantes). Um espaço de opinião, bastidores e análise sem filtro.

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