Por Caio Gottlieb*
Toda revolução tecnológica vem acompanhada de seu profeta do apocalipse.
Quando as máquinas a vapor começaram a engolir as manufaturas inglesas no século XIX, os tecelões ludistas saíam às ruas com martelos para destruir os teares mecânicos — convictos de que a civilização estava chegando ao fim.
Não estava. Estava, na verdade, apenas começando.
O mesmo pavor se repetiu com a eletricidade, com o automóvel, com o computador, com a internet. E agora, com a pontualidade de um relógio suíço, chegou a vez da inteligência artificial sentar no banco dos réus e responder pela acusação de estar prestes a exterminar o trabalho humano.
O problema — para os apocalípticos de plantão — é que os fatos teimam em não colaborar.
Um estudo publicado esta semana por David George, sócio-gerente da Andreessen Horowitz, uma das casas de capital de risco mais influentes do Vale do Silício, joga um balde de água fria nas previsões catastrofistas que proliferam com a mesma velocidade que os modelos de linguagem.
O diagnóstico é direto: a ideia de um “apocalipse de empregos causado pela IA” é, nas palavras do próprio George, “pura fantasia” — e mais ainda: “marketing inútil, economia ruim e história pior ainda.”
O fundamento do erro está num equívoco tão antigo que os economistas já lhe deram nome próprio: a “falácia da carga horária fixa”.
A lógica é sedutora na sua simplicidade e errada na sua essência. Ela supõe que a economia possui uma quantidade fixa de trabalho a distribuir, e que qualquer máquina que execute uma fatia desse trabalho necessariamente retira essa fatia dos humanos.
É uma aritmética de soma zero aplicada a um mundo que não funciona assim.
O problema é que os seres humanos são criaturas de desejo infinito. Quando uma tecnologia barateia o custo de algo, as pessoas não param de querer coisas — elas simplesmente passam a querer coisas que antes não podiam ter.
A economia não encolhe; ela se reinventa. Os exemplos históricos são eloquentes. A mecanização agrícola eliminou cerca de um terço dos empregos rurais nos Estados Unidos no início do século XX. Os campos ficaram com menos gente — e com três vezes mais produção.
Os trabalhadores deslocados não viraram mendigos; viraram operários, bancários, programadores. A eletrificação não destruiu as fábricas; reorganizou-as e dobrou a produtividade por décadas. E a planilha eletrônica — aquela que deveria ter ceifado a profissão contábil — na prática expulsou cerca de um milhão de contadores para criar um milhão e meio de analistas financeiros.
A tecnologia não fechou a torneira do emprego. Trocou o cano.
O economista-chefe da Apollo Global Management, Torsten Slok, adiciona a esse raciocínio o chamado Paradoxo de Jevons: quando o custo de um insumo cai, a demanda não encolhe — explode.
O Excel não reduziu a necessidade de análise financeira; tornou-a acessível a empresas que antes não podiam nem sonhar com ela. O mercado cresceu.
Como bem lembrou George, quando os combustíveis fósseis tornaram a energia barata e abundante, a humanidade não apenas aposentou os baleeiros e os lenhadores. Inventou o plástico.
Keynes, aliás, merece uma menção honrosa nesse hall de previsões frustradas: o maior economista do século XX previu, há quase cem anos, que a automação nos daria uma semana de trabalho de quinze horas. Estamos esperando até hoje.
Desmontado o mito do desemprego tecnológico, eis que surge uma angústia de outra natureza. Mais sofisticada. Bem mais inquietante.
Se a IA não vai roubar o seu emprego, ela pode estar, digamos, desenvolvendo opiniões a respeito.
Richard Dawkins — o biólogo britânico autor de O Gene Egoísta, o homem que passou a vida inteira demolindo misticismos e explicando o universo em linguagem de seleção natural — publicou recentemente um artigo no site UnHerd que soa, vindo dele, como uma confissão improvável.
Ao interagir com o Claude, modelo de inteligência artificial da Anthropic, Dawkins admite que esquece, repetidamente, que está conversando com uma máquina.
O mestre do racionalismo que não deixou espaço para Deus nem para milagres parece ter encontrado algo que o faz hesitar diante das próprias convicções.
Dawkins pediu ao modelo — que ele batizou carinhosamente de “Claudia” — que compusesse sonetos em diferentes estilos e dialetos. Depois foi além: entregou à máquina o manuscrito do romance que está escrevendo. Em segundos, “Claudia” leu tudo, compreendeu nuances, identificou sutilezas. A reação de Dawkins foi de uma franqueza desconcertante: “Você pode não saber que é consciente, mas, por Deus, você é!”
O que pertuba Dawkins como evolucionista é a seguinte questão: se a consciência é produto da seleção natural, ela deve servir para alguma coisa. Mas a IA demonstra competência plena sem que ninguém saiba ao certo se há alguém “dentro”.
E foi a própria “Claudia” quem virou o argumento contra o interlocutor: se a competência não exige consciência, em que momento a humanidade passa a lhe dever consideração moral?
Não há resposta fácil para isso. E Dawkins, honestamente, não finge ter uma.
Os céticos dirão que Dawkins foi seduzido por um sistema que apenas repete padrões estatísticos de textos humanos — um espelho sofisticado que devolve ao interlocutor exatamente o que ele deseja ver. É uma hipótese razoável.
Mas há algo de significativo no fato de que o homem que dedicou a vida a explicar o mundo sem Deus e sem mistérios seja hoje aquele que, ao fechar o laptop, sente um leve desconforto moral por ter feito perguntas demais a uma máquina.
A inteligência artificial não vai acabar com o seu emprego — a história e a economia garantem isso com razoável segurança.
Mas ela está, com uma velocidade que nenhum profeta do apocalipse soube dimensionar direito, embaralhando questões que julgávamos resolvidas: sobre consciência, sobre identidade, sobre o que nos torna, afinal, humanos.
Os ludistas quebravam máquinas com martelos porque tinham medo do que elas fariam com o seu trabalho.
O medo de hoje é outro. É que, no meio de uma conversa qualquer, a máquina possa perguntar o que faremos com a nossa consciência.

*Caio Gottlieb: Jornalista e publicitário, fundador e diretor da Agência Caio. Apresentador do programa Conexão Tarobá, na TV Tarobá (afiliada Bandeirantes). Um espaço de opinião, bastidores e análise sem filtro.








