Por Caio Gottlieb*
Há uma especialidade que Luiz Inácio Lula da Silva aperfeiçoou ao longo de décadas de vida pública e que nenhum curso de ciência política ensina: a arte de governar sem nunca ter governado.
De assinar sem ter assinado. De fazer sem ter feito. É um talento raro, quase circense, que exige do praticante uma memória seletiva de ouro, um rosto de bronze polido e uma capacidade infinita de olhar nos olhos da nação e dizer, com voz grave e pausada, que sempre pensou exatamente o contrário do que acabou de fazer.
O roteiro se repetiu, desta vez em dose dupla, com a graça característica de quem já não se dá ao trabalho de disfarçar.
Cena um. A chamada “taxa das blusinhas” — o imposto de 20% sobre compras internacionais de até 50 dólares, aprovado pelo Congresso para proteger a indústria nacional da concorrência predatória dos grandes marketplaces asiáticos, onde camisetas são produzidas por salários que constrangem qualquer noção de dignidade humana — virou, de repente, uma injustiça insuportável.
A lei foi sancionada pelo presidente em agosto de 2024, atravessou 2025 rendendo à Receita Federal a bagatela de R$ 5 bilhões em arrecadação, batendo recorde histórico. Mas eis que, no calendário eleitoral, maio de 2026 chegou com a urgência de quem precisa de palanque, e o imposto foi zerado por Medida Provisória, com direito a post triunfal nas redes do governo: “A-CA-BOU a taxa das blusinhas! O Governo do Brasil tá do lado do povo brasileiro.”
E então veio o truque. Nada acontece no Palácio do Planalto sem o sinal verde de Lula — seu governo é notoriamente centralizado na figura do presidente, que cuida pessoalmente até do que outros chefes de Estado delegariam sem pestanejar.
Mas quando o tema ficou indigesto, ele se transformou subitamente em espectador do próprio governo: declarou em entrevistas que “sempre disse” ser contra a taxa, depositando na conta do ministro da Fazenda a autoria integral de uma decisão que ele mesmo chancelou.
Fernando Haddad, convocado a servir de para-raios, aceitou o papel com a resignação de quem conhece o chefe.
Quanto ao povo, devidamente presenteado, não precisa saber que a partir de janeiro de 2027 a reforma tributária reintroduz a tributação federal sobre as mesmas compras — desta vez embutida no novo sistema, longe dos holofotes. A isenção tem prazo de validade. O eleitor, espera-se, não tem memória.
Cena dois. Esta é mais grave. Esta tem cheiro de enxofre.
O Brasil regulamentou as apostas esportivas online. Lula sancionou a lei. Seu governo elaborou toda a regulação do setor, autorizou dezenas de plataformas, cobrou outorgas de R$ 30 milhões por licença. As bets proliferaram como erva daninha em terra molhada, sugando o salário de trabalhadores, drenando recursos do Bolsa Família, endividando famílias em proporções que já perturbam os próprios índices de consumo do país.
Agora, com as pesquisas eleitorais acusando o impacto, Lula descobre que é, na verdade, radicalmente contra tudo aquilo que fez. “Se depender da vontade do presidente da República, eu vou dizer durante a campanha: eu sou favorável a acabar com todas aquelas bets.”
Só não proibiu, explica com a solenidade de um estadista, porque não é dono do Brasil — o mesmo presidente ungido pelas urnas eletrônicas que vetou o marco temporal, vetou a Lei da Dosimetria aprovada pelo Congresso e governa por Medida Provisória sempre que a conveniência manda.
O veto presidencial, prerrogativa constitucional que ele mesmo exerceu em múltiplas ocasiões, de repente não existe quando o assunto é inconveniente.
Mas há um detalhe que transforma o grotesco em algo mais sombrio.
Quando jornalistas do Estadão tentaram, via Lei de Acesso à Informação, obter os documentos que explicam como o governo autorizou a 1xBet no Brasil — empresa de origem russa, banida em vários países da Europa por histórico de ilegalidades, associada a lavagem de dinheiro, evasão de divisas e manipulação esportiva, apelidada nos fóruns internacionais de “Grupo Wagner das Apostas” —, a resposta do Ministério da Fazenda foi o silêncio burocrático em sua forma mais eloquente: sigilo de cem anos.
Cem anos. O mesmo prazo que Lula, durante a campanha de 2022, bradou como símbolo máximo da opacidade bolsonarista. O mesmo instrumento que prometeu revogar no primeiro dia de governo. Hoje aplicado pelo seu próprio Ministério da Fazenda para encobrir os bastidores da liberação de uma plataforma russa que operava ilegalmente no Brasil enquanto aguardava o aval oficial — e que, segundo registros judiciais, já não funciona nem no endereço que informou à Receita Federal.
A Fazenda explicou que liberar os documentos mesmo com dados pessoais suprimidos exigiria “um esforço administrativo desproporcional” e que seus sistemas “não possuem mecanismos de anonimização”.
O mesmo governo que regula trilhões em receitas, fiscaliza centenas de empresas e cobra outorgas milionárias não encontrou um funcionário capaz de ocultar um nome num documento. A criatividade da desculpa é, em si, uma confissão.
E aqui o quadro se fecha com uma moldura que nenhum roteirista ousaria propor: o presidente que cultiva relações fraternas com Vladimir Putin, que jamais condenou com a clareza que a história exige a invasão covarde e imotivada da Ucrânia — esse presidente autorizou uma plataforma de apostas russa, banida no Ocidente, a operar livremente no Brasil, e depois decretou sigilo centenário sobre os documentos que explicariam por quê.
Não é necessário concluir nada. Os fatos, alinhados, concluem sozinhos.
O que une as blusinhas e as bets não é apenas a hipocrisia e o cinismo — palavras que a essa altura já parecem insuficientes para Lula.
O que as une é o método: fazer, negar ter feito, culpar os outros, reverter em ano eleitoral, apresentar a reversão como heroísmo e esconder, atrás de sigilo centenário ou de reforma tributária silenciosa, a conta que o povo pagará depois da eleição.
Há governantes que deixam obras. Há governantes que deixam ideias. Lula está deixando um manual.

*Caio Gottlieb: Jornalista e publicitário, fundador e diretor da Agência Caio. Apresentador do programa Conexão Tarobá, na TV Tarobá (afiliada Bandeirantes). Um espaço de opinião, bastidores e análise sem filtro.








