Mensagens de ‘leitura única’ de Vorcaro expõem sua rede de influência
Um documento da Polícia Federal cujo sigilo foi retirado na noite de quinta-feira (10) descreve as movimentações de Daniel Vorcaro nos dias anteriores à Operação Compliance Zero e conclui que o ex-banqueiro já sabia da ação policial que resultaria em sua prisão.
Segundo a PF, o conjunto de registros, mensagens e contatos torna “improvável” que a viagem marcada para a véspera da operação tenha sido coincidência. O material passou a ser público após o ministro André Mendonça, do STF, atender pedido do presidente da Corte, Edson Fachin, e levantar o sigilo de inquéritos ligados ao caso do Banco Master.
- A cronologia apontada pela polícia é esta:
- – Em 21 de outubro de 2025, Vorcaro anotou no aplicativo Notas os nomes de representantes da PF que teriam participado de reunião reservada com o Banco Central.
- – Em 16 de novembro, dois dias antes da operação, registrou pergunta sobre a proximidade de um terceiro com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar medidas contra ele.
- – Na manhã de 17 de novembro, após mensagens urgentes do advogado Walfrido Warde, mudou os planos e informou que agendaria voo saindo de Congonhas.
- – No mesmo dia, tratou com o jornalista Diego Escosteguy de reportagem que citava inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília; o link foi imediatamente encaminhado a Warde, que protocolou pedido de acesso à investigação.
- – Também em 17 de novembro, Vorcaro manteve contato com servidores do Banco Central e articulou reunião virtual com o diretor Ailton Aquino. Depois do encontro, circularam informações sobre possível venda do Banco Master ao Grupo Fictor.
- – Na noite de 17 de novembro, ele foi interceptado no aeroporto de Guarulhos, prestes a embarcar em jato particular com destino final aos Emirados Árabes.
- – Em 18 de novembro, a PF deflagrou oficialmente a primeira fase da Operação Compliance Zero.
A polícia afirma que Vorcaro, ciente da iminente atuação policial, teria usado servidores do BC — descritos no documento como “subalternos” em razão de vantagens indevidas — para forçar a reunião no dia anterior à operação.
Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025. Cerca de dez dias depois, o TRF-1 determinou a soltura dele e de outros executivos; um dos argumentos usados na decisão foi o teor da reunião com o Banco Central. Em 27 de fevereiro de 2026, a PF protocolou novo pedido de prisão preventiva com base nesse panorama. Em março, ele foi preso novamente.
O documento também cita troca de mensagens entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Em 15 de novembro de 2025, o banqueiro perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Quarenta e oito horas depois, foi detido.
A PF resume que há “fortes elementos” de conhecimento antecipado de atos processuais, articulações com interlocutores em órgãos de controle e planejamento logístico para saída do país na janela próxima à deflagração das medidas.
Diário do Poder






