Por Elder Boff*
A decisão do governo paranaense de cortar a tarifa de água da Sanepar a pouquíssimos dias do pleito reativa a mais clássica das táticas da política tradicional. Conceder um alívio financeiro justamente às vésperas de a população ir às urnas não passa de uma jogada ensaiada para faturar dividendos eleitorais imediatos. Se o caixa da estatal permitia tal flexibilização, a medida deveria ter sido implementada muito antes para socorrer o bolso das famílias.
A justificativa de utilizar os recursos de um antigo precatório federal para bancar o desconto revela uma conveniente oportunidade de calendário. O litígio judicial de décadas se resolveu, e o dinheiro surgiu exatamente no momento ideal para servir de vitrine de bondade administrativa. Estruturar uma medida social de tamanho impacto apenas quando a conveniência das urnas bate à porta escancara a prioridade do mandato.
O formato do benefício, limitado estritamente a um período de 30 meses, expõe o caráter temporário e calculista da manobra. Em vez de uma reestruturação tarifária sólida e permanente que beneficie o consumidor no longo prazo, entrega-se uma ajuda com data de validade garantida. Trata-se de um alívio passageiro que dura o suficiente para atravessar o período eleitoral e diluir cobranças posteriores.
Fixar a redução apenas sobre os primeiros cinco metros cúbicos de consumo e atinge a faixa mínima, mas deixa o excedente intacto na tabela normal. Embora auxilie a população de menor renda, o arranjo serve perfeitamente para criar uma manchete impactante sem comprometer excessivamente a arrecadação futura. O desconto estético na fatura funciona melhor como peça de propaganda do que como reforma estrutural no saneamento básico.
Dividir a bolada do precatório entre investimento em infraestrutura e abatimento na conta é a narrativa perfeita para blindar o governo de críticas diretas. A gestão tenta se posicionar como eficiente e sensível, enquanto usa metade de um recurso extraordinário para fazer cortesia com o chapéu da própria estatal. A estratégia busca mascarar o oportunismo sob a aura de uma administração fiscalmente responsável e preocupada com o povo.
O cálculo político por trás do anúncio aposta abertamente na volatilidade e na memória de curto prazo do eleitorado local. Historicamente, benefícios concedidos na reta final de mandato tendem a apagar anos de tarifas altas, reajustes pesados e prestação de serviços questionável. O Palácio Iguaçu joga com a expectativa de que a gratidão pelo desconto imediato se traduza em votos na urna.
O paranaense precisa enxergar além da maquiagem tarifária de momento e questionar os reais motivos de tamanha generosidade repentina. Cidadania consciente exige discernimento para separar direitos fundamentais e gestão pública de estratégias de cooptação eleitoral na véspera da votação. Resta saber se o povo aceitará o presente de última hora ou se lembrará de quem segurou a conta durante todo o mandato, nas alturas.

* Elder Boff é articulista e editor-chefe do Fonte Extra






