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Humorista do centro da discussão sobre N. S. Aparecida é o mesmo que retratou Jesus “gay”

Fábio Porchat (esquerda) como Orlando e Gregório Duvivier como Jesus em imagem de divulgação do especial de Natal do Porta dos Fundos. Netflix/Divulgação

Por Elder Boff*

O mesmo humorista que retratou Jesus como “gay”, agora insinua Flávio Bolsonaro como racista no caso de Nossa Senhora Aparecida.

A publicação do humorista Antonio Tabet uniu acidez política e identidade racial ao declarar que a “família miliciana odeia tanto mulher preta que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida”.

O comentário satirizava boatos de que o senador Flávio Bolsonaro pretendia destituir a santa de seu posto, acendendo um pavio de proporções imprevisíveis no cenário digital.

A piada rapidamente deixou de ser apenas um meme e provocou uma verdadeira guerra jurídica que mobilizou os tribunais superiores brasileiros mais importantes.

A defesa do parlamentar acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), obtendo ordens imediatas para a remoção da postagem sob alegação de desinformação eleitoral grave.

Contudo, o caso ganhou contornos de crise institucional com decisões cruzadas e divergentes entre ministros dentro do próprio Supremo Tribunal Federal (STF).

Enquanto entendimentos iniciais nas cortes apontavam para a contenção de fake news, outras instâncias invocaram a liberdade de expressão para revogar a censura prévia.

Essa polarização judicial em torno de símbolos sacros evocou imediatamente na memória coletiva o polêmico especial de Natal do grupo “Porta dos Fundos”.

No especial de Natal do Porta dos Fundos de 2019, intitulado A Primeira Tentação de Cristo (produzido para a Netflix), o grupo, com este mesmo humorista Tabet, retratou Jesus Cristo retornando de uma viagem de 40 dias pelo deserto acompanhado por um homem chamado Orlando (interpretado por Fábio Porchat), sugerindo um relacionamento amoroso entre eles.

A sátira gerou imensa repercussão, forte oposição de grupos religiosos, petições públicas, debates jurídicos sobre liberdade de expressão e até mesmo um atentado com coquetéis molotov contra a sede da produtora no Rio de Janeiro.

Assim como a representação satírica de Jesus gerou revolta e censura cruzada anos antes, a figura de Nossa Senhora Aparecida dividiu profundamente a nação.

Setores conservadores viram nas manifestações uma ofensa inadmissível às crenças religiosas da maioria, enquanto defensores do humor alertaram contra os riscos autoritários.

O episódio escancarou como a fé e a imagem de figuras sagradas continuam a ser instrumentalizadas como armas letais no tabuleiro da polarização ideológica e na busca insana por votos.

No fim, o embate envolvendo Tabet e os tribunais demonstra a extrema volatilidade de misturar religião, eleições e sátira ácida na política contemporânea do país.

A disputa jurídica e cultural sinaliza que o limite entre a crítica humorística e o combate à desinformação permanece como um desafio complexo e sem trégua.




* Elder Boff é articulista e editor-chefe do Fonte Extra

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