Por Elder Boff*
Quando alertávamos sobre o perigo das promessas mirabolantes e dos cheques sem fundo distribuídos pelo Governo do Estado nos palanques do Paraná, a reação dos governistas de plantão era imediata. Fomos criticados, tachados de pessimistas e acusados de jogar contra o desenvolvimento do Estado. Mas o tempo, implacável senhor da razão, provou e vai continuar atestando que a realidade não aceita maquiagem contábil.
Nunca tivemos receio de expor a verdade, mesmo diante da clara pressão política sobre os municípios. Assistimos a um verdadeiro clima de pavor entre os prefeitos, submetidos a um jogo duro em que o medo de perder os benefícios prometidos falava mais alto do que o realismo fiscal. A lógica era cruel: assinar a ordem de serviço para a foto do palco eleitoral ou ficar de fora do mapa dos investimentos. Agora, os números frios do orçamento escancaram o tamanho da irresponsabilidade: a conta simplesmente não fecha.
A asfixia dos custos fixos sobre o orçamento
As peças orçamentárias oficiais, relatórios aos quais tive acesso, pois são registros públicos, revelam a margem de manobra cada vez mais estreita do governo estadual devido ao enrijecimento dos gastos obrigatórios com pessoal e custeio.
Para 2026, com uma receita prevista de R$ 78,88 bilhões, pessoal e custeio consomem R$ 67,05 bilhões (85,01%), reservando modesto 9,16% (R$ 7,22 bilhões) para investimentos gerais. A situação piora nas diretrizes para 2027: a receita estimada é de R$ 84,49 bilhões, mas as despesas correntes sobem para R$ 75,49 bilhões (89,35%), reduzindo os investimentos para escassos 6,26% (R$ 5,29 bilhões). O orçamento de 2027 já nasce no vermelho, apresentando um déficit projetado de R$ 1,69 bilhão.
A escassez de recursos livres para os municípios
Na Lei Orçamentária de 2026, a soma dos investimentos transferidos diretamente aos 399 municípios é de R$ 1,767 bilhão (2,24% do orçamento fiscal). Dentro dessa quantia, o valor destinado a convênios diretos via secretarias soma R$ 1,077 bilhão, concentrado na Secretaria das Cidades (R$ 547,40 milhões) e na Agricultura (R$ 302,09 milhões), deixando sobras para Infraestrutura, Saúde e Tecnologia.
Diante das carências das cidades, a verba própria disponível no Tesouro Estadual é insignificante.
A maquiagem do superávit e os compromissos sem lastro
A execução orçamentária até agosto de 2026 escancara a ilusão da sobra de caixa. A expansão do orçamento de investimentos para R$ 10,766 bilhões só ocorreu porque o governo usou R$ 8,390 bilhões de saldos de exercícios anteriores, e não por desempenho extraordinário da arrecadação.
O superávit oficial de R$ 1,547 bilhão entre receitas e despesas liquidadas é uma manobra contábil: as despesas já empenhadas somam R$ 59,336 bilhões, superando a arrecadação em R$ 4,852 bilhões.
Para piorar, a despesa com pessoal atingiu 44,88% da Receita Corrente Líquida, ultrapassando o limite de alerta de 44,10% da Lei de Responsabilidade Fiscal, apesar de ficar abaixo do limite prudencial, limiar de precaução que gira em torno de 46% se não me falha a memória.
O faroeste de promessas no Oeste do Paraná
O Oeste paranaense foi um dos palcos preferidos para a distribuição de ilusões eleitorais, com maquetes e anúncios que contrastam de forma gritante com o caixa do Estado.
Cascavel e Toledo receberam destaques como a promessa de concretação das rodovias PR-239 e PR-317 (entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões), além de pacotes urbanos e hospitalares superiores a R$ 400 milhões.
Assis Chateaubriand e Medianeira tiveram lançamentos como o novo Hospital Municipal/Regional (R$ 72,6 milhões) e dezenas de milhões para pavimentação e frotas.
Santa Helena e microrregião: A população local foi presenteada com anúncios do anel viário, de pavimentação rural do Programa Estrada Boa, obras de conservação de solo, adequação de vicinais e infraestrutura turística, acumulando dezenas de milhões em compromissos no papel. Foram propagandeados 80 milhões…
O grande entrave é que a dotação própria do Tesouro Estadual para repasses a todos os 399 municípios em 2026 é de apenas R$ 1,077 bilhão. Apenas o conjunto de obras prometido para o Oeste consumiria praticamente todo esse saldo.
Assinar convênios no período eleitoral garantiu o palanque, mas não o dinheiro no caixa e, esperto, o povo percebeu isso, foi alertado né e entendeu a jogada. O Oeste foi o que menos votou no candidato de Ratinho Junior.
A herança bendita que virou dívida para o futuro
O cenário expõe um grave descompasso ético e administrativo. Com as receitas comprometidas e o limite de pessoal no nível de alerta, a execução da montanha de obras prometidas para Santa Helena, Toledo, Cascavel, Assis Chateaubriand e Medianeira e outros, dependerá obrigatoriamente de novos empréstimos de longo prazo ou do calote dos restos a pagar.
Sergio Moro, que venceu as eleições no primeiro turno, aparenta ser muito cético em relação à responsabilidade orçamentária, mas ele disse que não interromperia bons projetos e não são ruins o que se usou de isca eleitoral, são coisas que já deveriam ter sido feitas há muito tempo.
Aqueles que nos criticavam por alertar sobre o risco das promessas eleitoreiras hoje preferem o silêncio. A verdade é inescapable: o atual governo assinou compromissos cujas faturas pesadas terão de ser pagas pela próxima gestão e por toda a sociedade paranaense.
Mas Moro terá que voltar os olhos para o Oeste e dar um impulso a esta região escanteada. Estaremos atentos à criatividade que ele e sua equipe terão para pôr em prática o que nos legaram de expectativa.

* Elder Boff é articulista e editor-chefe do Fonte Extra






