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Considerações sobre as eleições de domingo

Por Caio Gottlieb*

Baixada a poeira das urnas, os analistas de plantão debruçam-se sobre os números, à procura de acertos, erros e presságios.

Mais adiante entrarão em cena os historiadores. Com o distanciamento que o calor dos acontecimentos não permite, eles oferecerão outras interpretações para o que hoje ainda parece fumaça.

Entre um tempo e outro, cabe ao menos o registro de algumas percepções.

Não se pretende aqui uma grande análise. Ela exigiria fôlego de tratado, e os comentaristas dos órgãos de imprensa já se ocupam do assunto à exaustão.

O que se pode dizer de concreto é que um devastador tsunami de direita varreu o país de norte a sul. O PL, partido de Flávio Bolsonaro, elegeu 121 deputados federais, a maior bancada da Câmara. Conquistou 19 das 54 cadeiras do Senado em jogo e terá 28 senadores a partir de 2027. Elegeu ainda, de saída, cinco governadores.

Juntando-se a isso o desempenho expressivo de parceiros como o Novo, o Podemos e outras legendas de centro-direita, configura-se um Congresso Nacional amplamente dominado pelo espectro conservador das forças políticas.

No topo da pirâmide, Flávio passou ao segundo turno à frente de Lula, com uma dianteira de cerca de 2,25 milhões de votos. E a história das eleições diretas no Brasil mostra que quem lidera o primeiro turno acaba eleito.

Muitos cientistas políticos convergem num ponto: o bolsonarismo é forte e está consolidado, mas não tem, sozinho, o tamanho do que se viu. O resultado se deve menos às qualidades de Flávio e mais aos defeitos de Lula e do PT.

O principal sentimento que moveu as urnas foi o antipetismo, o antilulismo, que já vinha crescendo nos últimos anos. Era robusto, mas ainda minoritário, e passou a alcançar a maior parte do eleitorado. Havia um desejo difuso de honestidade, de probidade, de combate implacável à corrupção. E havia, sobretudo, fadiga.

Fadiga de quem está há quase duas décadas no poder. Fadiga de pautas socialistas anacrônicas, fracassadas em toda parte do mundo, bandeiras de uma esquerda antiga e atrasada, hostil ao empresariado e ao agronegócio e dissociada da realidade moderna.

Fadiga da retórica populista do nós contra eles, do rico contra o pobre. Insatisfação com o crescimento da criminalidade e com o aumento do custo de vida. E ojeriza aos escândalos que marcaram as passagens do PT pelo Planalto: o mensalão, o petrolão e, mais recentemente, o Banco Master, cujas conexões alcançam integrantes do governo e ministros do STF.

As benesses que o partido foi distribuindo ao longo dos anos para fidelizar o eleitor de baixa renda já não bastam para segurá-lo. Pesou também o consórcio com a Suprema Corte. O ativismo judicial começou interferindo no governo Bolsonaro e foi se acentuando, tolerado à época sob o pretexto farsesco de proteger a democracia.

Pesou o cansaço de mentiras, malabarismos e ilusionismos: a prestidigitação do “governo dos pobres”, enquanto educação, saúde, segurança e infraestrutura colhem melhorias pífias.

O terceiro mandato de Lula acabou visto como medíocre até por aliados. O saldo é uma rejeição monolítica.

Nada disso apaga a força de Jair Bolsonaro. Foi ele quem, em 2018, aglutinou uma direita dispersa, levou-a ao protagonismo e tornou-se seu grande símbolo. Desta vez, mesmo fora da disputa, transferiu o prestígio ao filho mais moderado, bem menos carismático que o genitor.

E Flávio se saiu melhor que o próprio pai: teve 47% dos votos válidos, contra os 43% de Jair no primeiro turno de 2022, quando perdeu a reeleição.

O PT elegeu seis senadores e manteve as nove cadeiras que tinha, mas sofreu derrotas estratégicas. A lista de nomes emblemáticos do campo governista que ficaram pelo caminho dá a dimensão do revés: Gleisi Hoffmann, Fernando Haddad, Simone Tebet, Soraya Thronicke, Marina Silva, Erika Kokay, Paulo Pimenta, Benedita da Silva, Randolfe Rodrigues, Renan Calheiros, Manuela D’Ávila, Túlio Gadelha, Roseana Sarney e José Dirceu.

Diante desse Congresso, uma reeleição de Lula, hoje improvável, teria governabilidade ainda mais precária que a atual.

O improvável tem razões. Desde a redemocratização, todo candidato que venceu em Minas Gerais terminou eleito presidente. Em 2022, Lula superou Bolsonaro em território mineiro por apenas 49,7 mil votos; agora Flávio venceu lá com folga de algo como 592 mil.

Os eleitorados estão cristalizados, e é impensável que eleitores de Flávio migrem para Lula, ou vice-versa.

Resta o espólio da terceira via. Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado somaram mais de 9 milhões de votos, e as pesquisas indicam que, entre os que escolherem um dos finalistas, o grosso deve pender para Flávio.

Até na partilha dos derrotados o candidato do PL sai ganhando. A eleição parece desenhada.

Os ventos da mudança chegaram fortes, e a tempestade deve seguir nos segundos turnos estaduais.

No Paraná, o enredo foi outro. Ao contrário do que se viu no plano federal, as urnas paranaenses não foram um julgamento. Não estava em causa a administração de oito anos de Ratinho Júnior, que deixa o cargo com mais de 80% de aprovação.

O próprio Sergio Moro, senador e ex-juiz da Lava Jato, repetiu ao longo da campanha que não era opositor do governo e que daria continuidade aos bons programas. Havia nisso uma leitura realista e correta de um eleitorado amplamente satisfeito com o que via.

Talvez parte da explicação do que aconteceu no pleito estadual esteja no calendário, embora eleições sejam, por natureza, imprevisíveis e quase nunca admitam diagnósticos simples.

Sandro Alex foi apresentado em abril como candidato de Ratinho Júnior e era, sem dúvida, um nome com credenciais: experiente, competente, com trajetória política sólida e participação importante nas realizações do governo, especialmente na infraestrutura.

Ainda assim, é inegável que teve pouco tempo para alcançar o grau de identificação popular que o governador cultivou ao longo de dois mandatos.

Ratinho, afinal, consolidou uma liderança própria, sustentada pelos bons frutos de sua gestão e por um trabalho de comunicação profissional e consistente, que ampliou sua projeção para além das fronteiras do Paraná e o pôs entre os nomes cogitados para a Presidência da República.

Popularidade desse calibre não se transfere da noite para o dia. Sandro fez uma campanha séria e propositiva, mas enfrentava uma tarefa hercúlea: medir forças com o magistrado que condenou Lula e outros personagens do escândalo da Petrobras, justamente no berço da Lava Jato, diante de um adversário conhecido em todo o país e com reputação de integridade.

Moro, filiado ao PL e apoiado por Flávio Bolsonaro, contou com o vento a favor que soprava de fora, embora, por aqui, as sondagens apontassem nítida preferência pela continuidade.

Mas a missão dele tampouco era simples. Cabia-lhe apresentar-se como alternativa num dos melhores estados do país, com ótimos indicadores em educação, saúde, infraestrutura e segurança. Nesses oito anos, o crescimento levou o Paraná da quinta para a quarta maior economia brasileira.

Parece evidente que a campanha de Moro foi mais eficiente em vender uma ideia: a de que um estado que progrediu muito ambiciona mais.

Eleição, em suma, é também venda de esperança. Não se trata de mostrar o que foi feito, mas o que resta por fazer.

Mesmo com propostas não tão claras no início, Moro convenceu de que havia mais estrada pela frente, e esse se revelou um argumento decisivo.

O desfecho comporta duas leituras. Moro venceu em 287 das 399 cidades, teve quase o dobro da votação de Sandro Alex e liquidou a fatura já na primeira rodada.

Mas o fez com 50,10% dos votos válidos, pouco acima do necessário. Sandro ficou com 25,37% e Requião Filho com 23,47%. Quase metade dos votantes, portanto, fez outra escolha.

Eis o desafio que o aguarda: montar uma equipe à altura das expectativas, converter conceito em gestão e unir o estado.

No Paraná não há a polarização que separa Lula e Bolsonaro no cenário nacional, longe disso.

Nem por isso Moro estará dispensado de construir pontes com a política, a começar pela Assembleia Legislativa, nem de conquistar a confiança dos paranaenses que não votaram nele.

Para facilitar, chega ao Palácio Iguaçu com um capital que poucos políticos ostentam, o da credibilidade. E dispondo de algo mais raro: herda uma casa em ordem.

Se souber combinar essas duas vantagens com a arte de agregar, o Paraná, que já acumula notáveis avanços, terá tudo para ir ainda mais longe.


Caio Gottlieb: Jornalista e publicitário, fundador e diretor da Agência Caio. Apresentador do programa Conexão Tarobá, na TV Tarobá (afiliada Bandeirantes). Um espaço de opinião, bastidores e análise sem filtro.
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