Um relatório de quatro páginas, divulgado na plataforma X e apresentado como “Relatório Pericial Independente”, circula nas redes desde a quarta-feira (28), apontando que mais de 8 milhões de eleitores votaram sem a identificação biométrica no segundo turno das eleições de 2026. O documento sugere que o número, somado aos votos registrados depois das 17h, teria influenciado o resultado da disputa presidencial. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) classificou o material como apócrifo e disse que ele distorce os dados.
O número principal do relatório existe e vem de dados públicos. Segundo os boletins de urna do 2º turno, disponíveis no Portal de Dados Abertos do TSE, 8.632.488 eleitores com biometria cadastrada foram liberados para votar sem o reconhecimento da digital. Isso corresponde a 6,73% dos 128.236.074 eleitores que compareceram às urnas em 25 de outubro, segundo levantamento do Jornal Razão. No segundo turno de 2022, o total foi de 10.011.347 eleitores, ou 8,06% do comparecimento.
O ponto central da discussão é o significado desse dado. Não se trata de votos sem identificação, e sim de eleitores que não tiveram a digital reconhecida pela urna. Nesses casos, o TSE explica que existe um procedimento alternativo, com conferência do documento com foto, confirmação do ano de nascimento, assinatura no caderno de votação e identificação do mesário responsável. Das 158,7 milhões de pessoas aptas a votar, 141,3 milhões (89,01%) tinham biometria cadastrada.
O relatório compara os 8,6 milhões de habilitações sem digital com a diferença entre os candidatos, de 4.430.191 votos, e atribui a vitória às seções que permaneceram abertas depois das 17h. Também cita um teste com a Lei de Benford e alega que boletins de urna ficaram indisponíveis por 72 horas. Segundo reportagem do Via Pantanal, os próprios autores afirmam que os padrões merecem investigação, mas que o documento, por si só, não comprova irregularidade.
A Justiça Eleitoral rebate ponto a ponto. Conforme o TSE, 34.393 votos foram registrados depois das 17h no segundo turno, em seções que ainda estavam abertas por causa da prorrogação da votação até as 19h, determinada pelo STF. O número é muito inferior ao que o relatório apresenta e não alteraria o resultado, já que o vencedor teve 64.256.232 votos contra 59.826.041 do adversário. O órgão afirma ainda que o relatório mistura o horário em que o voto foi dado, o fechamento da urna e a entrada do boletim na totalização, que ficou suspensa durante a prorrogação.
O TSE também diz que o sigilo do voto impede saber em quem votaram os eleitores habilitados sem digital ou depois das 17h, já que o registro digital do voto não está ligado à identidade de quem votou. Segundo o tribunal, comparar o total de habilitações com a margem de vitória não mede quantos votos foram realmente dados depois das 17h e não permite atribuí-los a um candidato. Sobre a Lei de Benford, o órgão aponta que usar apenas o primeiro dígito é inadequado para concluir que houve fraude, e nega que tenha havido “apagão” de dados, lembrando que os boletins foram impressos nas seções, divulgados na página de Resultados e continuam disponíveis para conferência pública.
Os boletins de urna dos dois turnos seguem abertos para consulta no Portal de Dados Abertos do TSE, e qualquer pessoa pode conferir os números por seção eleitoral.
Lucas Oruam/FE com inf. do TSE (Fato ou Boato)






