Edit Template

A mordaça só serviu para reforçar a desconfiança


Por Caio Gottlieb*

Há um fenômeno curioso, batizado de Efeito Streisand, que os pesquisadores de comunicação conhecem bem e os censores insistem em ignorar. O nome vem de um episódio protagonizado pela cantora norte-americana Barbra Streisand, que, ao tentar suprimir da internet uma fotografia aérea de sua mansão, conseguiu o efeito diametralmente oposto: a imagem se expandiu pelo mundo digital com uma velocidade que nenhuma campanha publicitária seria capaz de comprar.

No Brasil, o fenômeno ganhou até um apelido doméstico — o Efeito Cicarelli —, em referência a um caso similar envolvendo a modelo Daniela Cicarelli que, ao acionar a Justiça para retirar do ar um vídeo comprometedor, viu o conteúdo se espalhar com a velocidade e a irresistibilidade de uma fofoca de esquina.

A lição é antiga e universal: proibir é a forma mais eficiente de divulgar.

Pois bem. O jornalista Leonardo Desideri, em brilhante e oportuna reportagem publicada na Gazeta do Povo, debruçou-se sobre uma pesquisa Genial/Quaest que merece ser lida com toda a atenção que os dados exigem. Quarenta e três por cento dos brasileiros — quase metade da população — discordam da afirmação de que as urnas eletrônicas são confiáveis. O número, por si só, já seria digno de nota. Mas o que o torna verdadeiramente eloquente é a comparação com o passado: em maio de 2022, o mesmo instituto registrava apenas 22% de brasileiros desconfiantes do sistema.

Em outros termos, a desconfiança mais que dobrou. Dobrou exatamente no período em que o Judiciário brasileiro se empenhou, com energia e determinação notáveis, em tornar as dúvidas sobre a decantada “inviolabilidade” das urnas não apenas ilícita, mas um crime contra a democracia.

Ou seja, o feitiço virou contra o feiticeiro.

Entre as muitas decisões que marcaram esse período, um ex-presidente foi declarado inelegível até 2030 por ter levantado questionamentos sobre o sistema eleitoral numa reunião com embaixadores. Um engenheiro que pedia maior transparência sobre as urnas foi condenado a sete anos de prisão, classificado como “golpista”. A coisa ganhou ainda maior dimensão nas eleições de 2022 quando uma onda de censura varreu das redes sociais as postagens críticas ao processo eleitoral.

Parlamentares que antes se aventuravam em questionamentos passaram a medir cada palavra, atentos à ameaça concreta de perda de mandato. O silêncio foi imposto. A desconfiança, contudo, não aceitou a imposição.

O especialista em liberdade de expressão Pedro Franco, ouvido por Desideri, resume com precisão o que qualquer observador de bom senso já intuía: “É claro que, quando você proíbe um assunto de ser discutido, as pessoas vão desconfiar da conclusão prevalente sobre o assunto.” E vai além, apontando para a ferida mais profunda: o Supremo Tribunal Federal, instituição cuja credibilidade se deteriora a olhos vistos, transformou-se no fiador de uma verdade que não admite contestação — o que, em qualquer sociedade com algum senso crítico preservado, é receita garantida para o resultado oposto ao pretendido.

O caso do economista Marcos Cintra ilustra, com particular clareza, a extensão do problema.

Cintra não acusou ninguém de fraude. Não atacou o TSE. Não convocou ninguém às ruas. Apenas fez o que qualquer cidadão numa democracia tem não só o direito, mas talvez o dever de fazer: levantou dúvidas e exigiu explicações. Assinalou que havia resultados estatisticamente improváveis — como Lula ter cem por cento dos votos em centenas de urnas, sem que Bolsonaro tivesse atingido a mesma marca em uma sequer.

Perguntou, em suma, por que não se avança até a fronteira do possível para dissipar as suspeitas, como fazem democracias maduras ao redor do mundo, que adotam o voto eletrônico com registro físico impresso como camada adicional de segurança e transparência. Por isso, foi censurado.

O mundo inteiro usa voto eletrônico com backup físico”, observa Cintra. “Por que não fazemos aqui também?” É uma pergunta simples. Perturbadoramente simples. E é exatamente a perturbação que ela provoca nos guardiões do sistema que diz mais do que qualquer resposta que eles poderiam oferecer.

A democracia não se defende pela supressão do debate. Defende-se pela qualidade das respostas que oferece às perguntas legítimas que lhe são feitas.

Quando um sistema prefere calar o questionador a responder à questão, o que cresce é a suspeita. E a suspeita, como nos ensina o Efeito Streisand, não some quando é proibida. Ela se multiplica.




*Caio Gottlieb, jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto

Compartilhar:

Notícias Relacionadas

  • All Post
  • Saúde e Bem-Estar
Edit Template

© 2024 Todos os Direitos Reservados a FONTE EXTRA
Desenvolvido com o por VRCLIC – Soluções Digitais 

Pressione ESC para sair

Temos um número de máximo de 30 caracteres para cada busca.