O Ibovespa fechou ontem (26) em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos, o pior desempenho diário em seis anos, segundo o Money Times. O dólar saltou 8,21% e terminou a R$ 5,40, a maior alta em um só dia desde janeiro de 1999.
O tombo veio porque o resultado das urnas contrariou as pesquisas e o que o mercado esperava. O presidente Lula (PT) foi reeleito com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), e investidores que apostavam em um ajuste mais firme nas contas públicas correram para vender. Logo na abertura, a B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe os negócios, algo que não acontecia desde março de 2020.
Os juros futuros também dispararam, e o mercado passou a projetar juros altos por mais tempo. O varejo e a construção civil sentiram o golpe mais forte. As ações da Magazine Luiza caíram 58,23% no fechamento, e as da Cyrela, uma das maiores construtoras do país, chegaram a perder mais de 43% pela manhã. C&A, Assaí e Localiza também tiveram quedas superiores a 40% em alguns momentos do dia.
Esses setores dependem de crédito e financiamento, e juros mais altos encarecem o consumo e a compra de imóveis. Do outro lado, só oito ações do Ibovespa fecharam em alta, todas de empresas exportadoras. A Suzano subiu 10,08%, e Vale, Embraer, WEG, Klabin e Gerdau também fecharam no azul, favorecidas pelo dólar mais caro, que aumenta a receita em reais de quem vende para fora.
No Paraná, o efeito mais direto é no campo. O preço da soja no porto de Paranaguá subiu 2,06% e a saca fechou a R$ 155,55, de acordo com o indicador Cepea/Esalq. Antes da eleição, na sexta-feira (23), a saca valia R$ 152,41 no estado. O analista Ronaldo Fernandes, da Royal Rural, ponderou que ainda é incerto se a alta se sustenta, e o Cepea apontou que os compradores resistem a fechar grandes volumes.
Para quem produz, o dólar alto também pesa no custo. Fertilizantes, diesel, peças e equipamentos são em grande parte importados ou atrelados ao câmbio, e ficam mais caros. O Compre Rural destacou que o resultado para o bolso do produtor depende do equilíbrio entre a receita em dólar e essa pressão nas despesas.
No Oeste, onde a agropecuária tem peso grande na economia e ficam cooperativas como C.Vale e Copagril, esse jogo entre receita e custo deve ser acompanhado de perto nas próximas semanas. O setor já se mexeu. O Sistema Faep, que representa o agro paranaense, divulgou posicionamento após o resultado e cobrou do governo medidas para enfrentar o endividamento rural, os custos de produção e ampliar o acesso ao crédito e ao seguro agrícola. A entidade reuniu propostas elaboradas com 163 sindicatos rurais, segundo a Tribuna PR.
Para o comércio e para quem pensa em financiar um imóvel ou um carro, o recado do mercado é de cautela. Com os juros futuros em alta, o crédito tende a ficar mais caro, e o Morgan Stanley chegou a projetar dólar a R$ 6 caso o governo não sinalize ajuste nas contas públicas nas próximas semanas. O movimento dos próximos dias dependerá dos primeiros sinais da equipe econômica do novo mandato.
Lucas Oruam/FE com informações de Money Times, Canal Rural, Cepea/Esalq e Tribuna PR.






