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Guerra ao terror


Por Caio Gottlieb*




Há cenas que a história registra com a nitidez de um veredicto. Uma delas ocorreu nas ruas de Teerã e de outras cidades iranianas quando a notícia da morte do aiatolá Ali Khamenei se espalhou — e multidões foram às ruas não para chorar, mas para celebrar.

O país ainda estava sob bombardeio. Não importou. O povo iraniano, aquele que por décadas foi submetido à tirania teocrática, fez sua própria declaração: o luto não era deles.

Khamenei comandou por quase quatro décadas um dos regimes mais cruéis que o século conheceu. Presidente de 1981 a 1989, líder supremo desde então, conduziu um Estado que massacrou dezenas de milhares de seus próprios cidadãos para sufocar protestos iniciados por mulheres que se recusaram a aceitar o véu como lei. Que oprime ferozmente minorias religiosas. Que dita o que as pessoas podem ler, ouvir, vestir, amar. Que financia milícias assassinas. Que exportou terror de Bangkok a Buenos Aires, de Madri a Sydney — sempre com alvo em civis inocentes, sempre com as mãos do regime na sombra.

A clareza moral, aqui, não comporta ambiguidade: o Irã é um Estado pária. Um regime que busca a bomba atômica não como dissuasão estratégica, mas com o propósito declarado de apagar Israel do mapa — e que, no caminho, desenvolveu mísseis balísticos que já ameaçam países vizinhos e, em perspectiva não remota, alcançariam os próprios Estados Unidos e nações da Europa – porque os aiatolás querem, também, destruir o ocidente.

Negociar com esse regime era, como se confirmou, apenas assistir ao teatro do enrolamento. Os iranianos cediam palavras em mesas de negociação enquanto enriqueciam urânio nos subterrâneos.

Dentre as dezenas de dirigentes da ditadura xiita eliminados na manhã de sábado no bombardeio cirúrgico dos caças israelenses, também estava Mahmoud Ahmadinejad — ex-presidente, linha-dura do regime, símbolo da repressão brutal aos manifestantes de 2009.

E aqui o episódio ganha um detalhe que o Brasil não pode ignorar: Ahmadinejad era amigo próximo do presidente Lula. Os dois estiveram no poder simultaneamente, de 2005 a 2011, cultivaram uma relação que não era apenas diplomática — era de afinidade.

Essa proximidade, para nossa vergonha, afastou o Brasil dos governos ocidentais e aproximou Brasília de um dos regimes mais sanguinários do planeta.

Não surpreende, portanto, a nota do Itamaraty. Em linguagem asséptica e previsível, o governo brasileiro condenou os ataques e apelou a “todas as partes” para que respeitassem o direito internacional. A mesma exigência que Lula nunca fez com a mesma energia à Rússia, que invadiu a Ucrânia covardemente, arrasando cidades e massacrando civis — e recebeu do Palácio do Planalto, na melhor das hipóteses, uma condescendência deplorável.

O padrão duplo é a marca registrada desta política externa.

Quanto ao que ainda resta do governo iraniano, é revelador que o seu novo chefe da Guarda Revolucionária, Ahmad Vahidi, seja um homem procurado pela Interpol desde 2007 — acusado de ter coordenado aquele atentado em Buenos Aires, em 1994, quando um carro-bomba destruiu a sede da Associação Mutual Israelita e matou 85 pessoas.

É o homem certo no lugar certo.

O mundo não deve nada a essa gente. Nenhuma lágrima, nenhum protocolo de luto diplomático, nenhuma nota de pesar. Nessa história não existem dois lados: há apenas um lado possível — o daqueles empenhados em aniquilar um regime terrorista que por décadas envenenou o Oriente Médio e espalhou morte pelo mundo.

E não é de duvidar que até os aliados mais fiéis dessa teocracia monstruosa possam estar, no fundo, aliviados do constrangimento de apoiá-la e de fechar os olhos para seus crimes. O resto é retórica diplomática e hipocrisia.





*Caio Gottlieb, jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.

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