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No limiar do narcoestado

Por Caio Gottlieb*

Quando o crime deixa de bater à porta e passa a ocupar cargos públicos, o problema já não é de segurança: é de soberania.

A prisão de uma delegada recém-empossada da Polícia Civil de São Paulo, suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), não é um episódio isolado. É um sintoma. Um daqueles sinais que, quando ignorados por tempo demais, deixam de ser alerta e passam a ser diagnóstico.

Ao decretar a prisão preventiva da investigada, o juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores de São Paulo, foi direto ao ponto ao afirmar que se ficar comprovado que a maior facção criminosa do país arregimentou alguém para atravessar um concurso público e ingressar nos quadros da polícia do estado mais populoso do Brasil, com a maior estrutura policial da federação, a conclusão é inescapável: “se ainda não nos tornamos um narcoestado, estamos perigosamente próximos disso”.

A delegada, que se apresentava nas redes sociais como autoridade policial paulista, teria mantido relacionamento com integrante da facção e tomado posse no cargo há poucas semanas, no final de dezembro. O detalhe pessoal é irrelevante diante da dimensão institucional do problema.

O que assusta não é o romance — é a infiltração. É a possibilidade concreta de o crime organizado não apenas corromper agentes, mas planejar estrategicamente sua entrada no coração do Estado.

Uma reportagem da Gazeta do Povo ajuda a dimensionar o abismo. Levantamento sigiloso da Diretoria de Inteligência Penitenciária da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), vinculada ao Ministério da Justiça, aponta a existência de nada menos que 88 facções criminosas espalhadas por todos os estados brasileiros.

O conceito técnico é claro: grupos estruturados, voltados ao lucro contínuo por meio de atividades ilícitas de alta demanda, sobretudo o tráfico de drogas. Diante dessa capilaridade, negar o avanço do narcoestado já não é ingenuidade — é má-fé.

O Brasil não é mais um país com crime organizado. É um país organizado pelo crime, em múltiplas regiões.

Além do PCC e do Comando Vermelho, há dezenas de siglas menos conhecidas, mas igualmente violentas, ocupando territórios, impondo regras, financiando estruturas paralelas e, cada vez mais, penetrando na política, no Judiciário e nas forças de segurança.

A revista Veja escancara outra face desse colapso institucional na reportagem O País dos Foragidos.

São quase 300 mil mandados de prisão em aberto, inclusive contra criminosos no topo da hierarquia das facções.

Não se trata de falha pontual, mas de um Estado desarticulado, incapaz de fazer cumprir suas próprias decisões judiciais, enquanto a população vive sob permanente sensação de medo e abandono.

Os dados da pesquisa divulgada neste sábado pelo Instituto Paraná Pesquisas apenas confirmam o que já está nas ruas: 44,3% dos brasileiros afirmam que a segurança pública piorou no terceiro mandato do presidente Lula. Apenas 20% percebem melhora. Outros 32,4% dizem que ficou tudo igual — o que, nesse contexto, não é consolo algum.

Nada disso surgiu do nada. O descontrole atual é herança direta de décadas de políticas públicas orientadas por uma visão leniente, que romantizou o crime, tratou o criminoso como vítima estrutural e relativizou a responsabilização.

O pequeno furto virou assalto. O assalto virou tráfico. O tráfico virou facção. E a facção virou poder.

Hoje, o mesmo campo político que ajudou a construir esse cenário tenta, sem sucesso, vender uma narrativa tardia de combate ao crime e à corrupção. Não cola mais. A realidade se impõe.

O Brasil começa a colher, de forma amarga, tudo aquilo que foi plantado sob o discurso da complacência, da inversão moral e da desautoridade do Estado.

Quando uma facção criminosa já cogita — ou consegue — infiltrar seus quadros na polícia, o debate deixou de ser ideológico.

Passou a ser existencial.

É o próprio Estado brasileiro que está em jogo.




*Caio Gottlieb, jornalista, publicitário, fundador e sócio-proprietário da Caio Publicidade, atua na TV Tarobá desde a sua fundação em 1979, conduzindo o programa de entrevistas Jogo Aberto.

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