Por Caio Gottlieb*
Há um silêncio que precede as crises de abastecimento. Não é o silêncio da calmaria — é o dos motores que começam a falhar, o das bombas que secam nos postos das cidades menores, o dos caminhoneiros que calculam se o tanque leva até o próximo ponto de parada.
É um silêncio que o Brasil já conhece, já sofreu e que, por decisão política, parece condenado a revisitar.
Enquanto o Oriente Médio arde — e com ele as rotas que alimentam o mercado global de petróleo —, o governo brasileiro escolheu apostar numa velha ilusão: a de que é possível decretar preços, como quem decreta feriados.
Segurar o valor do diesel na refinaria, manter a gasolina artificialmente domada, fingir que o País opera numa redoma impermeável às oscilações de uma commodity que não respeita bandeiras, fronteiras nem ciclos eleitorais.
Os números, porém, não se deixam domesticar. Segundo a Abicom, a associação dos importadores de combustíveis, o diesel da Petrobras é vendido hoje com uma defasagem de oitenta e seis por cento em relação à paridade internacional. A gasolina, sessenta e quatro por cento abaixo.
São números que não traduzem economia — traduzem represamento. E todo represamento, como qualquer engenheiro hidráulico sabe, termina em rompimento.
O Brasil não é autossuficiente em derivados. Não produz gasolina nem diesel em volume capaz de abastecer a integralidade do mercado interno. Depende, portanto, de importações. E nenhum importador — por mais patriota que se pretenda — opera no prejuízo.
Quando o preço doméstico se descola do internacional a ponto de tornar a importação inviável, o combustível simplesmente não chega.
Não é sabotagem, não é especulação: é aritmética. E a aritmética já começou a cobrar sua conta.
O diesel escasseia em diversas regiões do país, justamente no limiar do período de plantio, quando o agronegócio — essa máquina que sustenta a balança comercial e alimenta o mundo — mais precisa dele.
Não apenas de combustível para mover colheitadeiras e caminhões, mas de fertilizantes, cuja cadeia logística também depende de derivados de petróleo e de uma política de preços que não afugente fornecedores.
É um jogo perigoso, e o governo sabe disso. Ou deveria saber. A tentativa de isolar o Brasil das turbulências do mercado internacional não é apenas ingênua — é reincidente.
Foi exatamente esse o roteiro executado durante o governo Dilma Rousseff, quando a Petrobras foi transformada em instrumento de política macroeconômica, sacrificando caixa, credibilidade e valor de mercado no altar do controle inflacionário.
O resultado foi um rombo de noventa e oito bilhões de reais na estatal. Não um acidente de percurso: uma política deliberada, cujas cicatrizes foram tão profundas que obrigaram a reformulação do próprio estatuto da Petrobras, com mecanismos criados justamente para blindar a empresa de novas aventuras intervencionistas.
Pois bem. Os mecanismos existem. Mas a vontade política de ignorá-los também.
E é aqui que a memória recente oferece um contraponto instrutivo.
Em artigo publicado na Gazeta do Povo, o ex-ministro de Minas e Energia Adolfo Sachsida relembra como o governo Bolsonaro enfrentou, em dois mil e vinte e dois, uma crise de magnitude comparável.
O petróleo disparava no mundo inteiro, impulsionado pela invasão russa da Ucrânia. A pressão sobre os combustíveis era brutal, global, inescapável. A Europa, em sua maioria, reagiu com o receituário intervencionista clássico: impostos sobre exportações, tributos ampliados sobre o setor, tentativas de congelar preços e tarifas de energia.
O resultado, como Sachsida observa, foi previsível: combustíveis que permaneceram caros, economias travadas, consumidores penalizados.
O Brasil de dois mil e vinte e dois tomou o caminho inverso — o caminho, nas palavras do ex-ministro, da liberdade econômica.
Em vez de aumentar tributos, reduziu-os. Em vez de cercear a concorrência, ampliou-a. Permitiu a importação de diesel russo, medida pragmática adotada também pelos Estados Unidos e por diversas nações europeias.
Reduziu custos regulatórios para produtores, importadores e distribuidores. Conferiu maior transparência à formação de preços. Respeitou contratos. Estimulou a entrada de investimento estrangeiro, o que fortaleceu o câmbio e, por consequência, barateou os combustíveis importados.
O resultado, como o próprio Sachsida registra, fala por si. O preço dos combustíveis caiu no Brasil por dezesseis semanas consecutivas. O País registrou, pela primeira vez em sua história, três meses seguidos de deflação — julho, agosto e setembro daquele ano.
Foi também a única ocasião em que a inflação brasileira ficou abaixo da inflação norte-americana. E as contas públicas fecharam superavitárias, demonstrando que a redução de tributos, longe de ser irresponsabilidade fiscal, era a resposta correta — estrutural, permanente e compatível com o equilíbrio das finanças do Estado.
Agora compare-se. O governo Lula, diante de uma crise que ainda nem atingiu a intensidade daquela de dois mil e vinte e dois, apresenta um pacote que Sachsida qualifica, com precisão cirúrgica, de “confuso e contraditório”.
Reduz alguns tributos federais — copiando, reconheça-se, a iniciativa do governo anterior — mas, ao mesmo tempo, aumenta outros.
Cria impostos sobre exportações de petróleo. Institui mecanismos intervencionistas na formação de preços, como multas por supostos “preços abusivos” — conceito tão vago quanto conveniente para quem pretende arbitrar o mercado por decreto. Oferece subsídios financiados pelo contribuinte, numa engenharia fiscal que transfere o custo da demagogia para o bolso de quem já paga a conta mais pesada.
São medidas conjunturais, temporárias, com inequívoco viés eleitoral. Não resolvem o problema estrutural — adiam-no, e o agravam.
O custo fiscal do pacote tende a ser elevado, a eficiência limitada, e as contas públicas caminham novamente para o vermelho.
A dívida pública já dá sinais claros de deterioração. E o impacto real sobre os preços dos combustíveis e sobre a inflação, no fim das contas, tende a ser modesto.
O gesto político, porém, estará feito — e a fatura, como sempre, ficará para o povo brasileiro.
Há uma frase que a imprensa de certa inclinação repete com a frequência de um mantra: “Lula erra igual Bolsonaro”.
Sachsida desmonta essa falsa equivalência com a paciência de quem explica o óbvio a quem finge não entender.
As medidas de Bolsonaro eram estruturais e permanentes. As de Lula são paliativas e eleitoreiras.
Confundir as duas abordagens não é erro jornalístico — é escolha editorial. E das menos honrosas.
O diesel falta nos postos. Os fertilizantes encarecem às vésperas do plantio. A guerra no Oriente Médio não dá sinais de trégua, e o preço do barril obedece à lógica dos senhores da guerra — não à dos marqueteiros de Brasília.
O Brasil já teve, há menos de quatro anos, o exemplo vivo de como enfrentar uma crise energética com realismo, competência e respeito ao mercado.
O roteiro está escrito, os resultados são públicos, as lições estão disponíveis.
Mas para aprender com elas, seria preciso algo que governos populistas raramente possuem: a humildade de reconhecer que a realidade não se governa por decreto — e que o preço de fingir o contrário é sempre cobrado. Com juros.

*Caio Gottlieb: Jornalista e publicitário, fundador e diretor da Agência Caio. Apresentador do programa Conexão Tarobá, na TV Tarobá. Um espaço de opinião, bastidores e análise sem filtro.








