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Os sinais incontestáveis de uma economia doente

Por Caio Gottlieb*

Por décadas, as Casas Bahia ajudaram a transformar o consumo no Brasil. Seu famoso carnê abriu as portas do crédito a milhões de famílias que dificilmente teriam acesso a uma geladeira, um televisor ou um móvel novo pagando à vista.

Por isso, há algo de profundamente simbólico no pedido de recuperação judicial apresentado agora pela companhia. Com R$ 17,3 bilhões em dívidas e depois de uma recuperação extrajudicial realizada em 2024, a gigante do varejo voltou à mesa dos credores.

O prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre — ainda que majoritariamente provocado por efeitos não recorrentes — apenas tornou mais dramática uma situação que já vinha se deteriorando.

Seria mais confortável se o caso pudesse ser explicado apenas por erros de gestão. Eles existem. Assim como existem uma estrutura pesada, uma dívida gigantesca e um modelo de negócios que precisa se adaptar a um consumidor que migrou rapidamente para o mundo digital.

O comércio eletrônico cresce, carregando muito menos tijolos nas costas do que as grandes redes tradicionais. Mas a Casas Bahia está longe de ser uma ilha. Desde 2023, grandes varejistas já tiveram de reestruturar cerca de R$ 68 bilhões em dívidas. Marabraz, Tok&Stok, Polishop, Dia e outras redes entraram nessa lista; em março, até o Grupo Pão de Açúcar recorreu a uma recuperação extrajudicial para renegociar R$ 4,5 bilhões.

Quando tantos barcos começam a fazer água ao mesmo tempo, talvez seja prudente olhar também para a tempestade.

E a tempestade é pesada. A Selic em 14% encarece o dinheiro para quem vende e para quem compra. O crédito, que durante décadas foi combustível do varejo, tornou-se parte do problema. Em julho, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas, o maior percentual da série histórica da CNC; outro levantamento, da CNDL e do SPC Brasil, contabilizou mais de 75 milhões de adultos com contas em atraso.

Com boa parte da renda comprometida antes mesmo de chegar ao bolso, o consumidor faz o óbvio: preserva supermercado e farmácia e adia o sofá, a televisão e a geladeira.

O carnê que ajudou a construir um império já não encontra o mesmo espaço no orçamento doméstico.

Há ainda um novo ralo disputando esse dinheiro escasso. Em 2025, brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões nas bets legalizadas pelo governo federal.

Evidentemente, boa parte desse dinheiro retornou aos apostadores em prêmios, mas R$ 36,9 bilhões ficaram como receita das casas de apostas.

É renda que passou a disputar espaço com o comércio, o lazer e outras despesas familiares. Há nisso uma ironia amarga: num país afogado em dívidas, milhões de pessoas procuram nos jogos de azar a sorte capaz de tirá-las do vermelho — e muitas acabam apenas acrescentando mais uma parcela à conta.

O problema é que o endividamento não termina nas famílias nem nas empresas. Chega ao Estado. E é justamente aí que economistas de diferentes origens vêm acendendo o sinal amarelo.

Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, um dos mais respeitados economistas brasileiros e nome de grande credibilidade e trânsito internacional, definiu recentemente o quadro como “desastroso”. A observação ganha peso adicional por uma circunstância que não é irrelevante: Armínio declarou voto em Lula na eleição de 2022. Não se trata, portanto, de um militante da oposição fazendo um diagnóstico político, mas de uma voz técnica, além de abalizada, insuspeita nesse aspecto.

Ele reconhece os bons números de emprego e o crescimento observado até aqui, mas alerta para aquilo que não aparece com a mesma força na fotografia: investimento baixo, ausência de ganhos relevantes de produtividade, deterioração fiscal e um mercado de crédito sob enorme pressão.

Sobre as contas públicas, foi especialmente duro: disse que o governo criou o arcabouço fiscal e logo depois “chutou o pau da barraca”. Em pleno 2026, levantamento da CNN já contabilizava R$ 256,9 bilhões em programas, medidas de crédito e outras ações federais lançadas ou implementadas no ano eleitoral — embora boa parte desse montante corresponda a operações financeiras ou extraorçamentárias, e não simplesmente a gasto público convencional.

Outro economista igualmente renomado, José Roberto Mendonça de Barros chega por outro caminho a uma preocupação semelhante: sem produtividade, investimento e confiança, não há crescimento sustentável. É esse o ponto que os bons números conjunturais não deveriam esconder. Emprego é fundamental. Renda é fundamental. Programas sociais são necessários para quem deles precisa.

Mas nenhuma economia consegue prosperar indefinidamente apenas estimulando demanda, multiplicando crédito e transferindo renda enquanto investimento e produtividade permanecem anêmicos e as contas públicas se deterioram. Mais cedo ou mais tarde, alguém recebe a fatura.

Talvez o mercado financeiro já esteja começando a apresentá-la.

Somente em agosto, até o dia 13, a saída de capital estrangeiro da Bolsa brasileira ultrapassou R$ 15 bilhões, a maior retirada mensal desde janeiro de 2022.

Há razões externas importantes: guerra, petróleo, tensão no Oriente Médio e uma natural fuga global de ativos de maior risco. Seria simplista atribuir tudo ao Brasil. Mas também seria ingenuidade imaginar que a fragilidade fiscal, os juros elevados e as incertezas domésticas não pesam na decisão de quem escolhe onde colocar bilhões.

Dinheiro não tem ideologia nem patriotismo: procura segurança, previsibilidade e retorno.

A recuperação judicial das Casas Bahia, portanto, é mais do que a crise de uma empresa histórica. É um daqueles acontecimentos que funcionam como espelho.

Nele aparecem o varejo pressionado, empresas sem fôlego para rolar dívidas, famílias com o orçamento estrangulado, juros proibitivos, investimento baixo e um Estado que também luta para equilibrar suas próprias contas.

Durante muito tempo, o Brasil aprendeu a comprar o futuro em prestações. O problema é que os carnês vencem. E talvez tenha chegado a hora de perguntar quem vai pagar a última parcela.





*Caio Gottlieb: Jornalista e publicitário, fundador e diretor da Agência Caio. Apresentador do programa Conexão Tarobá, na TV Tarobá (afiliada Bandeirantes). Um espaço de opinião, bastidores e análise sem filtro.

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