Por Elder Boff*
De conviver com o pessoal do lado de lá há muito tempo, me sinto à vontade para versar a respeito de algumas informações que podem surpreender muita gente.
Olhei com detalhe dados do Setor de Infraestrutura Fluvial e Obras Públicas do Ministerio de Obras Públicas y Comunicaciones (MOPC) e pela Administración Nacional de Navegación y Puertos (ANNP) do Paraguai para formatar este texto, que considero indispensável para aqueles que tinham uma visão míope sobre o potencial paraguaio no campo da navegação comercial.
Digo isso neste momento de investimentos arrojados e engenharia de ponta no Porto Índio, no município paraguaio de Mbaracayú (departamento de Alto Paraná), que entra definitivamente para a história da indústria naval do cone sul.
O moderno estaleiro da empresa, situa-se estrategicamente bem em frente ao município brasileiro de Santa Helena, onde opera o dinâmico Porto Internacional.
Após fazer história com a balsa Nuestra Señora Stella Maris 1, impulsionada pelo rebocador Mbaracayú 1, a empresa responsável superou seus próprios limites e lançou ao lago a versão número 2 do conjunto.
As novas embarcações já estão devidamente batizadas, prontas e posicionadas nas águas do Lago de Itaipu para transformar e dinamizar a travessia internacional entre o Paraguai e o Brasil.
Se a primeira embarcação impressionava por suas dimensões, esta segunda demonstra a imponência da frota: mais de um quarteirão, ou seja 101 metros de comprimento por 23 metros de largura.
O rebocador Mbaracayú 2, conta com dois motores de 750 kW cada, garantindo alto desempenho, máxima agilidade e conforto superior em todas as viagens de travessia.
Em termos práticos, a Stella Maris 2 tem capacidade para transportar, simultaneamente, 30 caminhões de grande porte, 20 veículos leves e dezenas de passageiros — superando os 23 caminhões de sua antecessora.
Sem mar, mas com potência naval absoluta
Embora o Paraguai seja um país sem saída direta para o oceano, sua frota fluvial figura entre as mais imponentes e eficientes do mundo.
O sistema hidroviário é a principal artéria do comércio exterior paraguaio, responsável por escoar mais de 80% das exportações do país. Os principais rios navegáveis são:
O Rio Paraguai, a principal hidrovia do país. Corta o Paraguai de norte a sul, permitindo navegação de grande calado durante quase todo o ano e conectando a capital, Assunção, aos portos do Rio da Prata (Argentina e Uruguai) rumo ao Oceano Atlântico.
O Rio Paraná, delimita a fronteira sul e leste com a Argentina e o Brasil. É crucial para o transporte de grãos e mercadorias no Alto Paraná e pela hidrovia Tietê-Paraná, além de abrigar o reservatório do Lago de Itaipu, essencial para a integração com o oeste do Paraná, justamente onde está inserido o porto de Santa Helena, PR.
Os rios Pilcomayo e Apa atuam como afluentes estratégicos e hidrovias secundárias para navegação de menor calado e navegação fronteiriça de transporte regional. Há balsas em Salto del Guairá para ligação com Guaíra, em Presidente Franco para a travessia a Porto Iguaçu na Argentina, em Bella Vista para Puerto Mani, também na Argentina e do Porto Irala para o mesmo país.
Essa ousadia naval reflete a coragem de investidores que aplicam milhões de dólares para expandir vertiginosamente a capacidade de transporte e integração comercial do país com seus vizinhos, caso da Navegação Porto Índio da localidade homônima em frente a Santa Helena.
Paraguai sem mar, mas com a terceira maior frota mundial de barcaças
Mesmo sem saída direta para o mar, o Paraguai consolida sua força logística ao abrigar a terceira maior frota de barcaças fluviais do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e China.
Como verdadeiro motor econômico, a frota privada reúne mais de 3 mil barcaças e 200 rebocadores para o transporte massivo de safras, combustíveis e contêineres pela Hidrovia Paraguai-Paraná.
Na segurança e soberania, a Armada Paraguaya atua com patrulheiros fluviais e lanchas rápidas no combate ao crime transfronteiriço, fiscalização náutica e assistência às comunidades ribeirinhas.
Já a estrutura pública estatal mantém a navegabilidade dos canais por meio de dragas, embarcações de sinalização e balsas para integração de regiões isoladas do país.
A revolução asfáltica e a conexão com o Brasil
Todo esse expressivo aporte financeiro, como os milhões de dólares investidos pela Navegação Porto Índio, ganha respaldo com as grandes obras viárias que redefinem a infraestrutura logística do departamento de Alto Paraná e regiões vizinhas. A Navegação Santa Helena, do Grupo Andreis, tem as suas balsas, mas acabou ficando para trás diante do investimento paraguaio e precisa dar sua resposta à ousadia guarani, ampliando sua oferta, modernizando sua frota local.
A região ganha um novo impulso estratégico com a conclusão do asfalto ligando Itakyry (Ruta 07, ex Super Carreteira) ao Porto Índio, encurtando distâncias e acelerando o escoamento de safras e mercadorias, muito prejudicada em dias de chuva, com a impossibilidade de circulação pelas estradas de terra, algo que vai ficando no passado.
A esse avanço soma-se a nova pavimentação projetada entre o Porto de Sanga Funda (Itaipu Porã), em San Alberto, até San Lorenzo, no município de Minga Porã, ambas no departamento de Alto Paraná.
Para consolidar essa teia logística, avança em ritmo acelerado o processo de documentação para asfaltar a ligação entre o Porto de Marangatu (em frente a Pato Bragado/PR) e Nueva Esperanza (Troncal 4), este tramo, no departamento de Canindeyú.
Santa Helena se prepara para o futuro do comércio exterior
No lado brasileiro, Santa Helena responde à altura com a ampliação já estudada e projetada de todo o complexo que envolve o seu Porto Internacional, além da malha viária do município.
As obras incluem a construção de um moderno anel viário para retirar o tráfego pesado de caminhões do centro urbano, além de viadutos, trevos, terceiras pistas, acostamentos e sinalização reforçada. Soma-se a isso, a necessária conclusão do asfalto que liga o distrito de São Roque, Santa Helena a Ramilândia, encurtando o caminho para a grande artéria, a BR 277.
Diante do volume de investimentos e da nova capacidade logística, autoridades, lideranças e usuários da aduana integrada pedem em voz uníssona, Brasil e Paraguai, o funcionamento do porto também aos finais de semana.
Com infraestrutura reforçada de ambos os lados da fronteira, o funcionamento pleno do complexo portuário se consolida como o motor definitivo do desenvolvimento regional.
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* Elder Boff é articulista e editor-chefe do Fonte Extra






