Por Elder Boff*
Faz tanto tempo que a gente não escreve e nem recebe carta, que tive que me valer de pesquisa na internet para lembrar sobre a legalidade de escrever cartas. Qualquer preso pode.
Se você achava que o sistema prisional brasileiro era apenas sobre superlotação e banho de sol de duas horas, prepare-se para ser surpreendido pela maior ferramenta de marketing político do século XXI: a carta do preso.
Graças à generosa e democrática Lei de Execução Penal (Lei 7.210/1984), a comunicação por correspondência é um direito garantido. Isso mesmo! Não importa se você está lá dentro da cadeia ou preso domiciliar por roubar um galinheiro ou por tentar reescrever a Constituição na base do improviso: o papel e a caneta são seus maiores aliados.
Se o Lula pôde, em 2018, transformar uma cela em Curitiba em um comitê de campanha e ditar que Fernando Haddad era o seu “ungido”, e se Jair Bolsonaro preso em casa (ou qualquer outro futuro hóspede ilustre de Papuda ou Tremembé) resolver escrever um manifesto emocionado “ao povo brasileiro”, não há nada de anormal e ilegal?
Escrever da prisão exige mais estratégia do que debater em horário eleitoral gratuito. Lembre-se: sua carta passará por uma triagem rigorosa de segurança realizada pelos agentes penitenciários. Portanto, siga o protocolo:
O conteúdo não pode conter mensagens cifradas ou planos de fuga. Se você escrever algo como “O capitão vai resgatar a pátria no jipe à meia-noite”, o agente vai confiscar. Prefira metáforas vagas sobre “resistência”, “povo brasileiro” e “perseguição do sistema”. Funciona sempre.
Assuntos jurídicos complicados ou instruções sobre processos devem ser tratados exclusivamente com seu advogado (nem que seu filho seja o causídico).
Nada de apologia a crimes ou menções a facções. No Brasil, o único grupo que você tem permissão para exaltar em rede nacional é o seu próprio partido político ou a sua base de apoiadores no WhatsApp.
Não adianta colocar apenas “Para o Brasil” no destinatário. Os Correios não entregam para conceitos abstratos. O envelope precisa estar impecavelmente preenchido com um destinatário, neste caso, o advogado/filho.
No final das contas, o papel aceita tudo — inclusive a tese de que o cárcere é apenas um “período de retiro espiritual para reflexão”. Portanto, se a situação apertar e a PF bater à porta, não se desespere. Garanta seu estoque de folhas de almaço e caneta esferográfica azul (transparente, por motivos de segurança).
Afinal, no Brasil, a diferença entre um réu condenado e um mártir incompreendido é apenas a qualidade da redação de sua carta ao povo.

* Elder Boff é articulista e editor-chefe do Fonte Extra







